Sobre a ermida de Santo Amaro em Lagos
1325 – Segundo Mário Cardo, esta ermida já existia nesta data.
1448 – Esta ermida já aparece mencionada numa relação de templos de Lagos.
1617 – Esta ermida está localizada na Carta Geográfica de Alexandre Massay.
A ermida de Sto. Amaro não só assenta sobre rocha dura, mas é uma construção enterrada em parte numa encosta, dois factos muito importantes para diminuir os efeitos sísmicos. Essa rocha é um calcário fossilífero rijo que até serve para mós; mas também se encontra próximo grés amarelo. A diferença de resistência dos edifícios aos abalos (tremores de terra) não se pode explicar pela natureza do solo porque quase todos eles estavam edificados sobre rocha dura. Após o terramoto de 1755, em Lagos, só ficaram algumas casas térreas em pé na Porta dos Quartos, rua dos Homens do Mar e rua do Jogo da Bola.
De estudos efectuados concluiu-se que o terramoto foi mais intenso em Lagos do que em Lisboa. Também o número de mortes em comparação com Lisboa foi de 6100, isto é, o dobro da de Lisboa.
A ermida de Sto. Amaro está situada na mesma colina que a igreja de S. Sebastião e que a igreja Nª Sª da Glória, apesar da ermida estar um pouco mais acima.
Em torno desta ermida albergaram-se as pessoas que conseguiram escapar aquando da ocorrência do terramoto de 1755. Foi a única construção que ficou sem lesão, passando ali a celebrarem-se os ofícios religiosos e a ser a paróquia de S. Sebastião até à reconstrução desta igreja.
A população de Lagos que não morreu, deslocou-se, então, para a zona de Santo Amaro e ali construiu provisoriamente barracas de madeira e de colmo. A maior parte dos moradores de Lagos sobreviventes passaram a viver neste campo de Sto. Amaro nessas barracas, passando ali todo o inverno. Ficaram quase todos pobríssimos porque os seus bens móveis, uns foram enterrados nas ruínas, quebrados, desfeitos e perdidos; outros o mar os levou e outros os ladrões e os imóveis ficaram arrasados ou quase como foram as do capitão Simão Manuel de Villa Lobos e outros na praça.
Após alguns anos, apenas a quarta parte da cidade foi reedificada, mas com menor esplendor e isto foi feito apenas para se livrarem dos incómodos das barracas e do rigor do tempo de inverno que padeciam nos campos e só o pagador geral da gente de guerra José Joaquim Ribeiro Riba as pôs em melhor estado do que antes o que verdadeiramente é um palácio para a cidade.
Lagos, que já se chamou Laccobriga, foi pré-romana1 e pré-cartaginesa, sempre como uma cidade marítima em quatro colinas. A sua origem foi, não um castro, situado ou no Monte Moleão ou no sítio do Paúl, mas um povoamento disperso por todos estes arredores numa área de muitos quilómetros e o povoamento foi iniciado por Brigo em 1899 a.C.. Lagos foi destruída ou arrasada por terramotos e maremotos, e depois, por volta de 359 a.C. foi mudada para onde actualmente está localizada por Bohodes, capitão cartaginês.
Em 1650 grassa em Lagos a peste; Lagos é encerrada e fica isolada do restante território. Em 1755, Lagos fica novamente completamente destruída durante o terramoto e maremoto. É abandonada pelo seu governador e por parte do exército que se vão instalar em Tavira. Assim Lagos deixa de ser a capital do Algarve e a sua decadência é total. Há notícias de que este terramoto mudou as correntes marítimas em frente da costa, arrefecendo as águas e diminuindo a riqueza pesqueira existente. Abriu também várias bocas no rio que ficam cheias de água com a maré vazia e não se lhe acha o fundo.
A igreja de Sta. Maria ficou raza com o chão; a igreja de S. Sebastião ficou em pé, mas com bastante ruína; a igreja da Misericórdia ficou em pé, mas arruinada e foi a primeira que se consertou, pois foi para lá a colegiada de Sta. Maria; a igreja de S. Braz e a igreja de Porto Salvo também foram destruídas; a igreja de Sto. António dos soldados infantes ficou muito arruinada; a ermida do Espírito Santo ficou raza com o chão e também a ermida de Nª sª da Graça e também a ermida de S. Roque e também a ermida de S. Pedro e também a ermida de S. Lázaro e também a ermida de S. João Baptista e também a ermida de Sta. Bárbara dos soldados artilheiros e também o hospital dos soldados e também o convento de S. João de Deus e também o convento dos religiosos da Santíssima Trindade e também o convento das religiosas do Carmo e também o convento dos padres capuchos (franciscanos). O forte do Pinhão ficou muito demolido; a fortaleza da Ponta da Bandeira ficou arruinada; as casas da Câmara ficaram razas; a Casa da Vedoria Geral e da Guarda principal ficaram arruinadas e também a Cadeia da Cidade. Os edifícios maiores da cidade ficaram por terra assim como as muralhas todas.
Aconteceu assim:
No dia um de Novembro pelas nove horas e três quartos deu-se o terramoto, precedido de um forte trovão surdo e medonho e imediatamente se sentiu abrir todo o firmamento e a este tremor se seguiu pouca queda de edifícios, porém no tremor que se seguiu, todos os edifícios cairam por terra até os mais fortes e as pessoas que morreram debaixo das ruínas e das ondas julga-se serem mais de duzentas e cinquenta. Era a altura em que as pessoas estavam a sair da Igreja de Santa Maria no alto da colina, pois era a missa de Todos-os-Santos qure tinha começado às nove horas e era feriado. O mar elevou-se que parecia tocar as nuvens e todos os que viram fugiram para o campo. O mar subiu mais de trinta palmos, arrasou e incapacitou as hortas e foi levar os barcos a partes incríveis mais de meia légua pela terra adentro. A terra abriu várias vezes durante o tremor. O mar levou todos os móveis de muito valor, toda a prata, ouro, dinheiro, pipas de vinho, trigos, milhos e legumes, bibliotecas particulares, escrituras das fazendas e das casas e por não terem onde se recolher fizeram barraca em Sto. Amaro onde passaram a morar.
O hospital militar foi mandado construir em 1794 no terreno onde existiam os antigos paços do concelho, o hospital de S. João de Deus e a antiga torre do relógio. Junto ao hospital militar acha-se a igreja Nª Sª da Graça transformada em adega. A ermida do Espírito Santo foi transformada em taberna. Os terrenos das igrejas de Porto Salvo e de S. Braz passaram a armazéns de arrecadação do regimento militar. A sete de Maio de 1850 foi concedida à Santa Casa da Misericórdia de Lagos para aumentar as enfermarias, o terreno do que era o Palácio dos Capitães-Generais do Algarve e que se situava entre o hospital e o quartel. Em 1885 foi edificado no mesmo local um hospital civil. O convento dos padres capuchos fica extramuros a Norte da cidade e a sua igreja chamava-se Nª Sª da Glória. Nele instalou-se a Guarda Republicana. A igreja da Misericórdia passou a paróquia de Sta. Maria. O convento das freiras carmelitas passa a Casa de instrução e Educação pública.
A nove de Maio de 1821, nas Cortes o deputado Domingos de Mello expõe a decadência em que a cidade se encontra passados sessenta e seis anos do terramoto. Tendo este deputado nascido em Lagos afirma ter o direito e a obrigação de interceder pela cidade que já foi capital e que na altura se achava pobre e demolida; sem calçadas nas ruas principais e públicas; sem polícia; sujeita a moléstias contagiosas pela sua falta de limpeza em geral e em particular pela infecção das águas públicas, pela ruína e pelo abandono em que se achava o seu aqueduto.
Posto que nenhuma das cidades marítimas de Portugal tem uma baía tão bela, espaçosa e capaz como Lagos e aonde em todos os tempos as armadas nacionais e estrangeiras ali faziam escala para se refazerem de refrescos, carnes e da preciosa água que tem. O lastimoso estado em que estava o aqueduto reduzido, que em menos de mil passos geométricos conduz do seu nascimento a água à cidade, no momento só oferece a impossibilidade de fornecer qualquer gota de água. Ele está situado junto do rio da cidade e coberto muitas vezes pelas enchentes da maré que no inverno tem chegado a lançar pelas bicas do único chafariz que há, em lugar de água, lama, ervas e bichos que são introduzidos nas roturas pelas chuvas e marés. Assim durante o verão, esta mesma água, única de que se servem os habitantes, deve ser a causa de uma moléstia febril com indícios de epidemia. Só num dos últimos três anos morreram repentinamente perto de quatrocentas pessoas. O relógio público desapareceu durante o terramoto e até à data a cidade continua sem relógio público; o cais da cidade continua destruído e o mar arruina a cidade desse lado. Os moradores de Lagos continuam numa situação de miséria e sem possibilidades económicas. Lagos ainda não tem casas de Câmara. No entanto, os lacobrigenses estão sobrecarregados de impostos: décimas, sizas, contribuições, subsídios, real da água, dízimos, novos impostos, arruados, etc. etc.
Esta a importância crucial da ermida de Sto. Amaro para toda a cidade de Lagos e que levou a uma grande fé e devoção a este santo.❐
in livro LAGOS, evolução urbana e património
de Rui M. Paula,
edição da Câmara Municipal de Lagos
de Outubro de 1992.
mailto:www.eu.maria.figueiras@gmail.com
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