terça-feira, 26 de outubro de 2010

Século XV - Lagos Henriquina e pós-Henriquina (VI)

Mais uma vez venho partilhar convosco este meu trabalho – LAGOS, Património e Vida – com o terceiro livro " Século XV - Lagos Henriquina e pós-Henriquina" que começou a ser escrito a 02 de Novembro de 2009 e concluído a 10 de Agosto de 2010 que gostaria muito de vê-lo publicado em livro.
LAGOS – PATRIMÓNIO E VIDA
Livro III – Século XV - Lagos Henriquina e pós-Henriquina
CAP VI - As Vicissitudes de Ceuta
Cerca de um século antes de Lutero, os portugueses restauravam a cristandade em Ceuta e, quando o Infante D. Henrique morre, já estão perfeitamente enraizadas novas cristandades em pleno Atlântico e começavam a abrir-se igrejas ao longo da costa da Guiné.
Em 1438, Ceuta já está isolada, ilha cristã cercada de inimigos; era insustentável. Logo em 1419, Ceuta sofrera um espantoso assédio mouro. Para lhe acudir, D. João I mandara o Infante D. Henrique a que se juntou o Infante D. João.
Em 1437, D. João I decidira conquistar Tânger e Alcácer Ceguer para dar maior apoio a Ceuta. Para tal nomeou o Infante D. Henrique, assistido pelo irmão D. Fernando e pelo Conde de Arraiolos e redigiu o regimento que o Infante D. Henrique deveria cumprir e fazer cumprir; mas os mouros, no seu território, cercaram Tânger com inesperada força, veio a derrota e o cativeiro de D. Fernando. D. Henrique promete a entrega de Ceuta em troca da vida e da liberdade de D. Fernando e dos outros reféns.
Após em Lisboa, o Infante D. Henrique recebe carta do irmão, D. Fernando, pedindo que cumprisse o que tinha prometido aos mouros. Da mesma opinião eram os irmãos D. Pedro e D. João. D. Henrique defendia a tese de não entregar Ceuta, mas tudo fazer para forçar os mouros a entregar o Infante D. Fernando. O Conde de Arraiolos defendia a não entrega de Ceuta e o Arcebispo de Braga defendia só entregar Ceuta com expressa e solene autorização papal.
O irmão, D. Duarte, já rei, manda abrir as Cortes com um assunto: a libertação do Infante D. Fernando, mas morre no ano seguinte, 1438. No alto plano do Estado, Ceuta estivera confiada ao Infante D. Henrique praticamente desde a primeira hora. Com tantos problemas dolorosos, o Infante D. Henrique recolhe-se a Sagres e Lagos e só quer voltar à Corte com D. Fernando e com Ceuta, jóia da Coroa de Portugal.
Com a tragédia de Alfarrobeira em que D. Pedro morre, D. Henrique manifesta o desejo de recolher-se a Ceuta, onde ficaria como simples capitão, à sombra de Santa Maria de África. Com dificuldade o rei D. Afonso V consegue dissuadir o Infante D. Henrique de partir definitivamente para Ceuta. Já com mais de 60 anos, vai estar na conquista de Alcácer Ceguer ao lado de D. Afonso V. Com humildade e sabedoria negoceia os termos da rendição e segura os vencidos.
D. Fernando vai morrendo aos poucos até que o seu cadáver é exposto aos insultos das gentes mouras que acreditam estar ali, pendurado de cabeça para baixo a apodrecer, o próprio Rei de Portugal. D. Fernando, durante o cativeiro, procurou convencer os companheiros a não quererem mal aos carcereiros e que seria sua obrigação procurar a liberdade. A fama da sua santidade e até a palma do martírio desde cedo o distinguiram ((MEDINA J.; vol. IV; 1994; p.27-30).
Ceuta permaneceu portuguesa, mas com elevado custo para Portugal: custou a vida do Infante D. Fernando e de muitos nobres que partilharam com ele o cativeiro; custou muitas vidas de portugueses que lutaram por ela, custou muito dinheiro à Coroa Portuguesa, mas permaneceu portuguesa e cristã.
Até um dia, em 1650, em que Ceuta passa a fazer parte do rol dos bens de Portugal entregues no dote da princesa Catarina de Bragança, filha do rei D. João IV para o casamento desta com Carlos II, rei da Inglaterra (Tratado de Whitehall, 1661), já no tempo da regência da viúva, D. Luísa de Gusmão. Neste dote, Portugal entregava a Inglaterra Ceuta e Tânger, em África; Bombaim, na Índia. É preciso não esquecer que, de 1580 a 1640, Portugal viveu sob o domínio espanhol, após algumas batalhas contra as tropas espanholas invasoras, mas Portugal fora sempre vencido.
Muitas foram as obrigações estabelecidas no papel para protecção dos direitos dos portugueses com as quais Filipe II de Espanha concordou e assinou, mas a verdade é que se tratava apenas de um "salvar a face", "manter a face" para os portugueses. Tanto o cardeal D. Henrique como Filipe II de Espanha sabiam que a oposição portuguesa estava aniquilada e não havia condições financeiras para enfrentar a Espanha de 1580. O esplendor de Portugal, senhor do mundo, estava completamente perdido. Afinal, os portugueses até estavam agradecidos a Filipe II por esta condescendência fictícia.
Ainda antes de 1588, Filipe II decide conquistar a Inglaterra porque Francis Drake, corsário inglês, estava a dar caça aos galeões espanhóis no Atlântico e no Pacífico e chegava a Ingaterra com os seus navios cheios de tesouros pilhados aos navios espanhóis que entregava à rainha Isabel I.
A Aliança de Portugal com a Inglaterra de 1386 não foi sequer lembrada e uma enorme força naval espanhola, em 1588, saiu do Tejo, de Lisboa, incluindo trinta e um navios portugueses de alto bordo com tripulação portuguesa e custas pagas pelos portugueses em direcção à Inglaterra, apesar de a coroa portuguesa estar completamente na falência enquanto os paticulares portugueses estavam entre os mais ricos da Europa. Esta armada de duzentos navios – a Invencível Armada - sofre forte ataque de defesa no canal da Mancha e a destruição da armada com bandeira espanhola foi quase completa; apenas regressaram ao estuário do Tejo cinquenta e três navios, certamente não em muito bom estado. E o descontentamento português começou logo a sentir-se nesta data.
Por outro lado, logo em 1580, a bandeira em Portugal passou a ser espanhola. Também em todos os territórios e feitorias onde, até há pouco, havia bandeira portuguesa passou a haver bandeira espanhola.
Também em Ceuta, de 1580 em diante passou a haver bandeira espanhola e espanhóis a governar. Em 1640, com a Restauração, lá continuou em Ceuta a bandeira espanhola e espanhóis a governar. Atrevessem-se os portugueses a substituir a bandeira por uma portuguesa e o poder a passar para portugueses!
Claro que os portugueses não se atreveram. Tomara a eles, conseguirem preservar a independência do território europeu, acabada de conquistar.
Assim no rol dos bens do dote de Catarina de Bragança para o seu casamento com Carlos II de Inglaterra lá estava escrito Ceuta, se os ingleses a conseguissem tomar dos espanhóis. Tratava-se de anular um direito de usucapião por um direito formal e real da coroa portuguesa desde 1415 e que passava para a coroa inglesa.
Também os mercadores ingleses foram autorizados a estabelecer feitorias nos domínios portugueses, especificando-se no tratado as cidades de Goa, Cochim, Diu, São Salvador da Baía, Pernambuco, Rio de Janeiro. Portugal comprometia-se ainda a transferir para a soberania inglesa as terras que os holandeses nos tinham tirado na Índia, se os ingleses as pudessem reconquistar e a dividir com a Inglaterra o trato da canela da ilha de Ceilão, se acaso o reconquistássemos. Em troca, a Inglaterra mandaria a Portugal dois regimentos de cavalaria e dois de infantaria, prestaria assistência com a sua esquadra no caso de invasão espanhola a Portugal e na luta contra os piratas e dispunha-se a promover a paz entre Portugal e a Holanda.
A saída de Ceuta da coroa portuguesa foi sempre um assunto difícil de abordar para os portugueses e muito mais a partir de 1580, que muito pouco foi escrito pelos historiadores portugueses sobre isto ao longo destes séculos.
Este tratado marca o início da penetração económica e do predomínio da diplomacia inglesa em Portugal.❐ (continua)
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terça-feira, 19 de outubro de 2010

Século XV - Lagos Henriquina e pós-Henriquina (V)

Mais uma vez venho partilhar convosco este meu trabalho – LAGOS, Património e Vida – com o terceiro livro " Século XV - Lagos Henriquina e pós-Henriquina" que começou a ser escrito a 02 de Novembro de 2009 e concluído a 10 de Agosto de 2010 que gostaria muito de vê-lo publicado em livro.
LAGOS – PATRIMÓNIO E VIDA
Livro III – Século XV - Lagos Henriquina e pós-Henriquina
CAP V – A Segunda Dinastia e o Renascimento
A segunda dinastia portuguesa inicia com ela um novo sistema político e um novo paradigma – o RENASCIMENTO.
Quando tomou posse, D. João I voltou a restabelecer as contias. O número de nobres com assento no Conselho Régio aumentou muito; a Casa dos Vinte e Quatro deixa de existir na prática e só se volta a falar dela no reinado seguinte, de D. Duarte, para lhe restringir a intervenção na governação municipal e a sua intervenção acaba por ser proibida, com excepção de Lisboa.
Raras vezes na História de Portugal e Universal se terá reunido tão extraordinário grupo de personalidades do mesmo sangue na mesma geração. É a inteligência, a cultura, a virtude, os valores morais que fazem de cada um, modelo difícil de imitar. É a unidade moral dos Infantes que mais impressiona o observador.
Vê-se nos Altos Infantes o surgimento de novas formas de ser, estar, julgar, sentir, actuar, rezar. Com eles a escrita passa para primeiro plano da intercomunicação e interioriza-se, faz-se confidente das pessoas. É recíproca. Estes irmãos só estão contentes a escrever uns aos outros. Até nos dias de gravíssimos cuidados como da preparação da resistência ao que parecia ser a invasão iminente (1418), D. Duarte proclama que é possível aproveitar todos os momentos mortos para ir elaborando uma obra. É a permuta franca e alegre dos saberes, das reflexões, das técnicas. Dão e recebem conselhos, ideias, sugestões, ... entre si, entre familiares, amigos laicos e eclesiásticos. Esta família vive em profundidade a fé que professa. São leigos, mas pertencem à Igreja. Podem tomar iniciativas, sugerir esquemas de sermões, aconselhar os chefes responsáveis, estender até às camadas mais profundas da sociedade e a todos os problemas da vida a mensagem cristã – doutrinária, litúrgica, ética, sacramental e reciprocamente. É o advento do laicismo católico.
É importante recordar que, com esta família real - D. João I, D. Filipa e Infantes – se passa a viver e a desenvolver em Portugal uma nova forma de estar, de viver, de fazer, ... mas que não é única na Europa; vários países encetaram esta nova forma de viver – o Renascimento.
Como se identifica o Renascimento?
O Renascimento surge no século XV, portanto, em Itália e é consequência de uma abordagem completamente nova e diferente de posicionar e questionar tudo.
Até esta altura, colocava-se Deus no centro do mundo, culpando-o de tudo e fazendo tudo depender d'Ele. Agora, faz-se uma viragem de 180º e passa-se a colocar o homem no centro do mundo, senhor independente e livre de Deus, crendo apenas em si próprio e no material e negando a existência do imaterial.
Os principais focos de difusão da cultura renascentista foram as cidades da Flandres (Holanda), Paris na França, Oxford e Cambridge (Inglaterra) e Vitemberga (Alemanha).
O nobre da época medieval era ignorante das leis porque se considerava acima delas, era hostil ao bem comum e apenas se ocupava dos seus interesses, entregando-se aos prazeres. Odiava o saber, a independência e a verdade, troçava do interesse público e possuía como única lei a cobiça e o egoísmo.
Pretendia-se que o homem da nova era aprendesse línguas com perfeição, principalmente o grego, o latim; o hebraico para estudar as Sagradas Escrituras e também o caldeu e o árabe. Também deveria ser do seu conhecimento a Natureza – mares, rios, peixes, aves, árvores, ... e, acima de tudo, conhecer-se a si próprio perfeitamente, a parte material do homem, que veio a desenvolver imenso a medicina. Leonardo da Vinci (século XVI) escreve que a experiência ensina-nos que a Natureza procede o Raciocínio e que há que começar pela experiência para descobrir a lei, enquanto que até então, o saber baseava-se no ensino e comentário dos livros e opiniões dos sábios antigos sem manifestar ou deduzir qualquer opinião crítica.
Também até ao século XV, o oceano foi barreira intransponível para os europeus. A partir do século XV, o oceano abre-se à navegação, dá origem a uma nova visão global, proporcionando a hegemonia da Europa sobre o mundo. É o século das grandes viagens marítimas e com elas a descoberta de novos mundos com outros climas, outras gentes, outras culturas, outras faunas e outras floras que surpreendem e entusiasmam os europeus.
No século XV, faz-se o reatamento metódico da tradição dos antigos périplos por iniciativa de genoveses e devido ao esforço dos portugueses para conhecer as rotas oceânicas por motivos religiosos, curiosidade científica e motivos comerciais. Sábios, náuticos e cartógrafos de todo o mundo acorrem a Portugal.
Os portugueses contribuíram bastante para a ciência e para a geografia da época com destaque para a Náutica, Ciências Naturais, Astronomia, Matemática, Geografia e Medicina. Eles provaram que, orientando-se pelo sol e estrelas, era possível a navegação em alto-mar, longe da costa; também era possível alcançar a Índia pelo Sul da África e que existia uma massa continental para lá do Atlântico. Também provaram que, pelo Sul da América também se chegava à Índia e provaram, sobretudo, o que até então não se afirmava ou até se negava com base nas Sagradas Escrituras: que os oceanos tinham continuidade, que a Terra era circum-navegável, que existiam novas plantas e frutos (batata, milho, feijão, abóbora, tomate, tabaco, ...) e que existiam novos animais, que existiam outros povos, outras civilizações, outras culturas.
Quanto à Escola Superior de Estudos Náuticos, situada na Fortaleza de Sagres era regida pelos princípios do Renascimento, da Idade Moderna. Tinha os melhores Mestres da Europa em Cartografia, Geografia, Astronomia, Desenho, Correntes Marítimas, ... e tinha os estudantes (futuros capitães de navios) mais interessados do mundo europeu porque era um ensino baseado no conhecimento destes mestres, mas também baseado num conhecimento empírico adquirido in loco de todo o ambiente de mar e terra que os rodeava em Sagres onde podiam presenciar o que estudavam – o mar, correntes, aves, estrelas, ventos, os próprios navios ... fazer deduções e chegar a conclusões com os seus mestres; participavam no trabalho de atualização dos seus mestres cada vez que chegavam navios de alguma expedição com novidades e embarcavam nos navios, fazendo estágio. Assim era o novo tipo de ensino a que o Renascimento se propunha. O aperfeiçoamento deste sistema de ensino viria com a prática.
Já agora, a raiz etimológica de Sagres é SACRUM (latim que significa "sagrado"): Promontorium Sacrum assim designavam os romanos aquele lugar.
Várias foram as causas que possibilitaram e desenvolveram os Descobrimentos Portugueses. Temos:
- de ordem técnica e tecnológica
uso da caravela – barco veloz e seguro, próprio para navegar no alto-mar que utilizava a vela latina ou triangular que permite navegar contra o vento (à bolina);
uso do leme central – saliente da quilha;
uso da bússola ou agulha de marear - que possibilita a navegação de alto-mar em vez da cabotagem costeira;
uso do quadrante – que possibilita a localização em alto-mar pela medida da altura dos astros;
uso do astrolábio – que possibilita a localização pela observação dos astros;
uso de portulanos – cartas que vêm substituir os velhos périplos, já usadas por italianos e catalães e concebidos por almirantes e capitães genoveses. A sua construção baseava-se em medições feitas à bússola com um minucioso sistema da rosa-dos-ventos e de rumos que se cruzavam por todo o mapa. Normalmente, eram feitos de pele de carneiro e, regra geral, representavam sempre a mesma zona: Mar Mediterrânico, Mar Negro e Oceano Atlântico.
A invenção da imprensa – que possibilita a publicação de mapas e cartas e que difunde a ciência grega, a geografia de Ptolomeu.
de ordem geográfica
1. o papel importante dos ventos alíseos no encontro de várias terras quer no continente africano quer na América do Sul.
- de ordem científica
1. a influência da ciência grega e da obra de Ptolomeu.
- de ordem comercial
1. a procura de novas rotas para o comércio com o Oriente.
- de ordem religiosa
1. converter à fé cristã os novos povos a encontrar e alcançar o reino cristão de Prestes João (Etiópia) são motivos que estimulam a participação da Santa Sé e que a levam a apadrinhar os Descobrimentos.
Na Idade Média (Medieval), a ciência (conhecimento) fazia uso das deduções lógicas filosóficas – do geral para o particular. Elaboravam-se premissas para chegar a uma conclusão lógica.
Com o Renascimento surge uma nova maneira de pensar que se vai desenvolvendo. O inglês Bacon destaca-se apadrinhando o Empirismo e o alemão Kant – professor universitário de Geografia e filósofo (século XVIII) – cria e desenvolve o Racionalismo, ambos atacando o pensamento medievo. Destas duas perspectivas surge a Ciência Positiva de base científica que descreve os fenómenos como realmente são e não como devem ser, obedecendo a leis.
O Empirismo tem a sua origem na experiência do dia-a-dia e na intuição dos sentidos. Trata-se de um saber que vai passando de geração em geração; é subjectivo, heterogéneo, natural, espontãneo e prático e assenta na imaginação e na tradição.
O Racionalismo ou Formalismo afirma que todo o saber vem do raciocínio e não da experiência e por isso a Ciência é racional. A ciência não é estática e por isso pode ser revista porque é formada por conceitos dinâmicos que podem enriquecer-se, adquirir precisão e até substituir-se, devido à criatividade pessoal e às necessidades sociais que se conjugam, orientando-se por uma tecnologia inovadora. A ciência é uma verdade crescente e evolutiva; é um conjunto de conhecimentos, de factos e de teorias resultantes desta motivação e um processo que relaciona factos e teorias.
A explicação passa a ser a preocupação máxima de qualquer cientista, pois fornece respostas a questões levantadas através da nossa experiência, chegando a conclusões dedutivamente baseadas em teorias e/ou leis. A explicação implica a previsão. Uma e outra organizam-se simetricamente: a explicação aplica o método científico ao passado e a previsão aplica o método científico ao futuro.
São estes novos tempos que o Infante D. Henrique tem oportunidade de inaugurar.❐ (continua)
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sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Século XV - Lagos Henriquina e pós-Henriquina - IV

Mais uma vez venho partilhar convosco este meu trabalho – LAGOS, Património e Vida – com o terceiro livro " Século XV - Lagos Henriquina e pós-Henriquina" que foi iniciado a 02 de Novembro de 2009 e concluído a 10 de Agosto de 2010 que gostaria muito de vê-lo publicado em livro.
LAGOS – PATRIMÓNIO E VIDA
Livro III – Século XV - Lagos Henriquina e pós-Henriquina
CAP IV - A polémica Urbanização Henriquina
O que encontrou o Infante D. Henrique em Lagos para além das características já suas conhecidas desta cidade?
Encontrou uma cidade dividida, com dois níveis muito acentuados de gente que se odiava: um grupo – o dos privilegiados – de ordem defensiva e da nobreza, vivendo na vila murada; outro grupo – o dos não-honrados – de produção e vivendo na área mais baixa e mais afastada da vila extramuros. De permeio, uma colina não habitada onde pastava gado bovino.
Primeira vontade decisiva do Infante D. Henrique foi acabar com esta discriminação e situação. Reuniu os melhores técnicos europeus em urbanização que conhecia e o planeamento urbanístico começou.
Assim, ficou decidido drenar as duas ribeiras – Ribeira dos Touros e Ribeira das Naus – e enchê-las de terra para construir dois largos caminhos.
Segunda decisão essencial – passar a vila de um pólo intramuros e outro extramuros para três pólos dentro da vila murada, um em cada colina:
1.o – Pólo da igreja Nossa Senhora da Graça, único Cartório paroquial de Lagos, passa a pólo da Ermida Nossa Senhora da Graça. A igreja Nossa Senhora da Graça passa para Sagres no interior da futura Fortaleza de Sagres e a fazer parte deste complexo do qual faria parte também a Escola de Estudos Superiores Náuticos com a célebre rosa-dos-ventos que ainda hoje lá existe e as instalações da dita Escola também.
2.o – Pólo da igreja de Santa Maria da Graça que recebe o Cartório Paroquial da Vila de Lagos e passa a ser o Cartório paroquial da mesma. Esta igreja da única paróquia da vila de Lagos passa a situar-se no centro da nova vila ainda não-murada na parte baixa da colina do meio – colina de Nossa Senhora do Rosário – chamar-se-á igreja de Santa Maria da Graça e ficará perto do porto com o Cais (Velho), a Porta do Cais e a Alfândega que ficava junto da Porta do Cais. Na Lagos Henriquina esta igreja, paroquial, era o centro da nova Lagos murada. O Governador continuava a morar e exercer no Palácio e Castelo do Governador onde sempre existiu desde o início da nova Lacóbriga ainda não-murada. O Largo da Igreja Santa Maria da Graça não terá as casas que lhe estão atualmente à frente. As casas do Infante D. Henrique e de D. Nuno Álvares Pereira situavam-se desde a desembocadura da Ribeira das Naus até à travessa que dá acesso ao Largo da igreja paroquial. O Largo da igreja, único edifício naquele espaço com o hospital e ermida de S. Pedro, onde é atualmente a Messe Militar, era ladeado pelo Mercado dos Escravos, pelo edifício onde atualmente está o restaurante Bon Vivant, pela fila de casas do lado esquerdo da actual rua 25 de Abril. Todo o restante espaço entre a anterior desembocadura da Ribeira dos Touros e a igreja paroquial com hospital destinava-se ao movimento natural de um cais internacional ainda mais atarefado com a empresa dos Descobrimentos. A desembocadura da Ribeira dos Touros até chegar a Praça dos Touros, portanto de 1415 a 1490, passou por espaço de recreio e lazer com circulação tangencial: rossio (terreiro espaçoso; terreno fruído em comum pelos habitantes de uma povoação), local de feira de gado, arena onde se realizavam corridas de touros, ...
Este novo pólo terá dois núcleos: um na baixa, rodeando a igreja paroquial da vila ligado à exportação e importação e ao comércio local e outro pólo no alto da colina rodeando a ermida da Nossa Senhora do Rosário, pólo ligado aos habitantes que cuidavam dos terrenos agrícolas de sequeiro que a rodeavam ainda a segunda cerca não estava construída.
3.o – Pólo da ermida de Nossa Senhora da Conceição que reúne a sua população tradicional da colina (pescadores), da zona baixa ao longo do rio de Lagos (comerciantes) e das hortas (agricultores) da primitiva Lacóbriga (todos já extramuros relativamente à primitiva cerca – muralhas).
A nova vila murada de Lagos assemelhar-se-á a uma coroa real, olhando para o Atlântico com três pontas e mais duas formando a base: cinco pontas, um pentágono. No interior deste pentágono, desenha-se a Cruz de Cristo, (Ordem do Infante D. Henrique, promotora dos Descobrimentos juntamente com a Coroa Real Portuguesa) unindo longitudinalmente a Ermida de Nossa Senhora da Graça com a Ermida de Nossa Senhora da Conceição (a tradição) e unindo verticalmente a Ermida Nossa Senhora do Rosário com a igreja Matriz Santa Maria da Graça (a modernidade).
A concretização deste planeamento ultrapassará a vida do Infante D. Henrique. Será o rei D. Manuel I que mandará construir a cerca (as muralhas) estabelecida(s) neste plano, em 1520 e concluídas em 1598, no reinado de D. Filipe I e assim completar este projecto gigantesco do Renascimento realizado na vila de Lagos quatrocentista.
Partamos para os pormenores deste grandioso projecto.
Entre 1385 e 1433, segundo o recenseamento realizado, havia dentro da primitiva vila murada 1500 a 2000 vizinhos (famílias). Gente da quarta esfera, os negociantes, os marítimos que tratavam das almadravas (armações para a pesca do atum, da corvina e da baleia) e de 22 acedares (armações para a pesca da sardinha) e outros indivìduos viviam em casas localizadas fora das muralhas por lhes ser proibido dentro da praça murada. (PAULA, 1992, p. 355). Convém recordar, neste momento, os estratos sociais da época:
Estrutura social da época
I esfera: ricos homens e prelados cujos haveres não são quantificados, mas cujas figuras de topo são o Conde e o Arcebispo que podem vir à corte acompanhados por um séquito de 30 vassalos, enquanto os mais poderosos terão de contentar-se com um séquito de 20 vassalos.
II esfera: cavaleiros fidalgos com cerca de 1000 libras, os escudeiros com cerca de 3000 libras e os cidadãos com 5000 libras e mais.
III esfera: homens que moravam nas vilas e que não tinham quantia para terem cavalos e os escudeiros de fidalgos ou de ricos homens que não tiverem maravedis (moeda da época).
IV esfera: braceiros, mancebos, mesquinhos, pobres e escravos. (MEDINA; vol. III; 1994; pp.152-3).
Em 1433, com o Infante D. Henrique, passou a haver 1100 fogos no interior da Praça; 200 fogos na Aldeia da Porta do Postigo (ao redor da Ermida da Nossa Senhora da Conceição); 450 fogos na periferia (ao redor da ermida de Nossa Senhora do Rosário). (PAULA, 1992, p. 356)
Após a drenagem das duas ribeiras, a colina do meio passou a ser a parte mais importante da vila de Lagos onde foram construídas as casas privativas do Infante na Ribeira (de Bensafrim - todo o espaço longitudinal ao longo do rio de Lagos na colina do meio entre as anteriores Ribeira dos Touros e Ribeira das Naus) para acolher os seus convidados: membros das Casas Reais Portuguesa, Inglesa e outras e outros convidados distintos; D. Nuno Álvares Pereira tinha também lá casas. Havia prosperidade económica. Era também o centro de explorações marítimas com grande actividade comercial e também a residência dos mareantes do Infante (estudantes da Escola Superior Náutica de Sagres que tinham a sua prática nas expedições para descobrimento de novas terras e novas gentes a partir de Lagos).
Ao mesmo tempo em que era feita a drenagem das duas ribeiras, era construída a igreja paroquial da vila, igreja de Santa Maria da Graça, com curado e para ser inaugurada em Agosto de 1415, no dia em que a expedição partisse para Ceuta com o rei, D. João I, os seus três filhos mais velhos e D. Nuno Álvares Pereira ao comando e assim os clérigos desta igreja – única paroquial - dariam a sua bênção à expedição. Esta igreja planeou-se situar-se no centro da base da colina do meio, centro da Nova Lagos murada.
Antes de 1415, é esta então mandada edificar por D. João I, mas por decisão do seu filho, o Infante D. Henrique. Esta igreja situada na rua Nossa Senhora da Graça que atualmente ainda existe e cuja frente da igreja ainda existe também, perto do Mercado dos Escravos e da atual Messe Militar, passa a ser a igreja paroquial e freguesia dos habitantes intramuros da segunda cerca a construir.
Em 1416, é-lhe construida a Capela de Nossa Senhora da Graça pelos herdeiros de Jacques Magalhães.
A 03 de Janeiro 1419, Lourenço Dias funda a Irmandade do Senhor Jesus nesta igreja.
Em 1420, são feitas obras nesta igreja melhorando a sua arquitectura, levantando as naves laterais e construindo outra capela – Capela do Senhor Jesus - na nave do Evangelho para servir de sepultura a Soeiro da Costa e seus descendentes; tudo às suas custas. Na parte lateral esquerda desta igreja foram construídos por milaneses e sicilianos, o hospital e a ermida de S. Pedro concluídos em 1490 e escolheram para patrono S. João de Deus.
Durante este século XV, Lourenço Estevens, almoxarife de Lagos, manda construir o Tabernáculo na Capela Mor desta igreja.
A 13 de Novembro de 1460, o Infante D. Henrique faleceu na sua casa da Raposeira, a sua casa privada para descanso e isolamento e nessa mesma noite ficou sepultado em Lagos - Vila do Infante - nesta igreja Matriz de Santa Maria da Graça. A escolha desta igreja que era igreja Maior, paroquial, para primeira sepultura do Infante D. Henrique até à sua trasladação para a jazida real do Mosteiro de Santa Maria da Vitória (Batalha), leva-nos a supor da sua importância que este acontecimento ainda mais elevou.
Em 1496, D. João Camello, Bispo de Silves, nomeia prior para esta igreja.
Em 1572, é reconstruída a capela mor desta igreja.
Em 1586, continua a ser a mais importante igreja de Lagos donde saem as procissões do Corpus Christi. Coexistem com ela intramuros a igreja da Misericórdia, a igreja de Santo António, a igreja do Espírito Santo e a igreja de Santa Bárbara com porta intramuros, onde depois foi aberta a Porta de S. Gonçalo nas muralhas. Faz-se uma demanda entre a colegiada de Santa Maria da Graça e a colegiada de São Sebastião sobre qual das duas igrejas era a mais antiga. Esta demanda foi resolvida nas Cortes de Évora a favor da igreja de Santa Maria da Graça que é considerada igreja Matriz anterior a 1480.
Em 1594, volta a ser confirmado o facto de esta igreja ser a igreja Matriz.
Em 1633, são construídos o adro desta igreja e a Torre pelo Conde do Prado.
Em 1638, cria-se a Confraria do Santíssimo Sacramento nesta igreja.
Em 1694, esta igreja fica sob a guarda da Irmandade de S. João de Deus que fundou o seu hospital e convento, adaptando o hospital de S. Pedro. Foi-lhes confiado o tratamento dos enfermos militares.
A 01 de Novembro de 1755, esta igreja, de Santa Maria da Graça, é arrasada pelo terramoto e a Irmandade de S. João de Deus foi construir uma igreja a Poente da Porta dos Quartos, junto do seu novo hospital, no local actualmente conhecido por Hospital Velho. De seguida, a igreja de Santa Maria da Graça é reconstruida até “iam as paredes em meio” por D. Francisco Gomes Avelar, mas nem o clero nem a nobreza ou o povo contribuíram em nada e por falta de colaboração, o bispo D. Francisco Gomes de Avelar não levou ao fim a reedificação a que se propunha desta igreja.
A Câmara Municipal atribuiu as funções de cemitério ao espaço ocupado pelo convento e hospital S. João de Deus – cemitério da paróquia de Santa Maria da Graça que, por vários motivos, incluindo as epidemias da peste e da cólera, foi projecto que durou muito pouco, sendo abandonado e demolido.
Por seu lado, o Senado da Câmara mandou, à sua custa, desentulhar a sacristia desta igreja para recuperar a Relíquia de S. Gonçalo que foi exposta com luzes à veneração do povo, na igreja de S. Sebastião e atualmente está exposta na Porta de S. Gonçalo, nas muralhas, em frente da fortaleza.
Em 1872, os restos desta igreja foram cedidos à Câmara Municipal.
Em 1891, este espaço foi pedido à Câmara para culto a S. Gonçalo, mas foi vendido a José Augusto Cabral. A talha da igreja foi oferecida pelo filho deste à Confraria dos Passos de Lagos que a ofereceu a João da Cruz que, por sua vez, a mandou colocar na igreja de Nossa Senhora da Graça, na Fortaleza de Sagres. Este espaço passou a ser uma adega.
Por último, em sessão de 19 de Abril de 1893, foi deliberado mandar destruir os últimos vestígios de tão antigo e histórico templo.
Foi utilizada, sucessivamente como adega, livraria, galeria de Arte e actualmente é um bar.
A igreja de Santo António
Outra igreja foi construída na mesma altura, a partir de 1415, a igreja de Santo António, padroeiro do Corpo de Artilharia já na antiga parte murada da vila de Lagos (PAULA, 1992, p. 356). Esta igreja, de Santo António, foi também destruída pelo terramoto de 1755, sendo reedificada em 1769, pelo Comandante do Regimento de Artilharia de Lagos e ficando a servir-lhe de capela.
Durante o reinado de D. Afonso V, foi mandada construir nesta igreja a Capela de Santa Maria por Estevão Rebello.
A igreja de Santo António encontra-se em posição de gaveto para dois espaços – fachada principal sobre a rua General Alberto da Silveira e fachada lateral sobre a rua Silva Lopes (antigo Largo de Santo António).
É uma igreja em estilo barroco, patente nas características da sua fachada principal, nomeadamente no frontão, nas torres e no guarnecimento do óculo sobre a porta de entrada.
A fachada lateral apresenta um arco de "meio ponto", de grandes proporções que cria um "alpendre" abobadado com acesso ao interior.
De salientar as diferentes proporções das torres sineiras, na maior das quais é colocado um relógio, em 1839.
Tem uma única nave de tecto abobadado, encontrando-se o interior decorado com azulejos e talha dourada; esta da responsabilidade dos mestres Quaresma, pai e filho, de Lagoa. Inclui quadros pintados pelo mestre José Joaquim Rasquinho, de Loulé.
É um edifício classificado como monumento nacional e ainda hoje existe bem conservado e nas suas instalações encontra-se o Museu Municipal de Lagos Dr. José Formozinho, fundado em 1935.
A igreja de Santa Bárbara
Foi iniciada a sua construção também por volta de 1415 na parede da primeira cerca e com porta de entrada para dentro da vila de Lagos murada. Acredita-se que devido aos fortes sustos que a população lacobrigense intramuros sofria sempre que havia temporal, pois o mar batia forte e ressaltava nas muralhas. Santa Bárbara é a santa que se invoca quando há tempestade – ondas alterosas, relâmpagos e trovões, chuva torrencial e vento forte. "Santa Bárbara nos acuda." ouvi eu muitas vezes na minha meninice nestas alturas.
Em 1726, foi reconstruída pelo Conde de Unhão, Governador do Algarve.
Depois do terramoto de 1755, não foi reedificada e o local foi adaptado a dependências do Quartel de Infantaria 2.
Foi aberta a Porta de S. Gonçalo no rés-do-chão desta igreja e lá colocada a relíquia de S. Gonçalo.
Atualmente o edifício está recuperado.
A igreja de S. Sebastião
Em 1442, a ermida de Nossa Senhora da Conceição já tinha Cura ou reitor, mas sem ter Capela Mor.
Entre 1460-63, após o falecimento do Infante D. Henrique, Lagos sofre uma epidemia de cólera e os seus habitantes pedem a S. Sebastião o milagre do fim desta epidemia. Foi obtido o milagre e S. Sebastião foi declarado Protector de Lagos.
Em 1463, esta ermida passa a ser transformada em igreja para ser dedicada a S. Sebastião e os devotos de Nossa Senhora da Conceição vão construir uma segunda ermida dedicada a Nossa Senhora da Conceição no local da Pedra da Eira, atualmente Largo Dr. Vasco Gracias, onde posteriormente, em 1554, foi edificado o Convento e igreja das Carmelitas Descalças de Nossa Senhora da Conceição (PAULA, 1992, p. 359).
No mesmo ano, é construída uma Capela dedicada a S. Sebastião pelo Bispo D. João de Mello na igreja de S. Sebastião.
Em 1464, o Bispo D. João de Mello obtém do Papa Paulo II Osso e Sangue de S. Sebastião como relíquias para esta igreja.
Em 1490, ficou concluída a igreja de S. Sebastião que vai sendo ampliada até ao séc. XVI, quando atinge a sua forma actual. A porta principal da Ermida é a atual porta lateral do lado Sul em estilo renascentista que ficou encerrada e foi aberta a norte a porta principal da igreja. Apresenta três naves separadas por colunas dóricas, sendo a central mais alta do que as laterais. Tem uma Capela dos Ossos (recolhidos dos mortos do terramoto de 1755) que dá para o adro da ermida. A igreja tem capelas laterais e altar mor em talha dourada. É monumento nacional. ((PAULA, 1992, p.307)
Esta ermida – igreja foi a base de uma dualidade urbana que marcou os séc. XIV e XVI.
Em 1575, é edificada nela a Capela de Nossa Senhora da Glória por João Ribeiro.
Em 1581, é reedificada nela a Capela das Almas. Também é fundada a Capela de S. Nicolau pelo cónego Pedro de Távora.
Em 1586, é feita uma demanda entre a colegiada de S. Sebastião e a colegiada de Santa Maria da Graça na rua Nossa Senhora da Graça sobre qual das duas igrejas é a mais antiga. Foi resolvida em Évora a favor da colegiada de Santa Maria da Graça por esta ser Matriz e anterior a 1480 (PAULA, 1992, p.360). Da igreja de S. Sebastião dependiam, nesta data, a segunda ermida de Nossa Senhora da Conceição, a ermida de S. Pedro Pulgão (actual ermida Nossa Senhora dos Aflitos), ermida de S. João Baptista, ermida de S. Roque, ermida de S. Lázaro e ermida de Santo Amaro.
Também nesta data, é fundada nela a Capela do Senhor Jesus e criada a Irmandade dos zeladores do Senhor Jesus cujo fundador foi João Annes.
Em 1623, foi sepultado nesta igreja o padre Pedro Galego.
Em 1633, foi construída nela a Capela de Nossa Senhora da Conceição por Vaz Fagundes.
A 01 de Novembro de 1755, o terramoto causa-lhe grandes estragos, caiu a torre e a tribuna. Chegou a tal estado de ruína que a paróquia passou provisoriamente para a ermida de Santo Amaro, mas por ser muito pequena face às necessidades, passou depois para a igreja de Nossa Senhora do Carmo até à sua reconstrução, da igreja de S. Sebastião.
Em 1828, foi colocado um relógio na torre da igreja de S. Sebastião feito pelo ferreiro Costa e Sousa.
Em 1833, foi transferida a imagem da Nossa Senhora da Glória, devido aos assaltos dos rebeldes na guerra civil, do Convento de Nossa Senhora da Glória para a igreja de S. Sebastião.
Em 1858, esta igreja foi reconstruída por um benemérito de Portimão.
A 07 de Setembro de 1863, por documento foi nomeado o Terceiro Beneficiado de S. Sebastião pelo Bispo D. Jerónimo Barreto.
A 14 de Abril de 1893, a Câmara Municipal ordena que se façam os enterramentos em S. Sebastião para ambas as freguesias (PAULA, 1992, p.367).
A igreja da Misericórdia
Em 1498, é fundada em Lagos a Casa da Misericórdia com hospital que já existia no século XIV e igreja na antiga vila murada de Lagos aberta para a Praça dos Touros e com Irmandade exactamente no local onde atualmente é a igreja de Santa Maria, portanto bem próximo da igreja de Santa Maria da Graça e em frente do hospital e ermida de S. Pedro. Entre o hospital e ermida de S. Pedro e a igreja da Misericórdia era um espaço aberto natural - a Praça dos Touros. À igreja da Misericórdia pertenciam também o Hospital dos Gafos e o Hospital de Lourenço Estevens.
Em 1556, a igreja da Misericórdia é ampliada e passa a receber 500 réis por ano do feitor das almadravas do Algarve e dois atuns por cada armação.
Em 1588, o capitão-general D. Fernão Telles de Menezes, Governador do Algarve, passa certidões sobre Leis referentes às Misericórdias de Lisboa e de Goa que quer aplicar à Misericórdia de Lagos.
Em 1657, esta igreja sofre obras de reparação.
Entre 1701/02, D. António de Almeida, Governador do Algarve, foi nomeado Provedor da Misericórdia de Lagos.
A 01 de Novembro de 1755, acontece o célebre terramoto. “A igreja da Misericórdia ficou em pé, mas arruinada. Foi reparada, sendo a primeira a ser consertada e para lá foi a colegiada da igreja de Santa Maria da Graça que contribuiu para as despesas de reparação e passou esta igreja a chamar-se igreja de Santa Maria e passou para lá o Cartório Paroquial e a sede da freguesia de Santa Maria da Graça.” (PAULA, 1992, pp. 60-61)
Em 1850, foi concedido à Casa da Misericórdia aumentar as enfermarias do seu hospital na parte do terreno onde antes era o Palácio dos Capitães e Generais. ❐
Igreja do Espírito Santo
A igreja do Espírito Santo é mandada construir no início do reinado de D. Manuel I e é concluída no ano de 1498 também, na altura em que foi fundada a Irmandade do Corpo Santo do Compromisso dos Pescadores e Marítimos de Lagos. (PAULA, 1992, pp. 358 + 304/05). Começou por chamar-se igreja do Compromisso Marítimo. O objectivo desta Irmandade de pescadores era protegê-los com o seu sistema de “segurança social”. Ficou arrasada com o terramoto de 1755, mas depois foi reedificada.
A seguir à implantação da República foi utilizada como taberna e, após foi durante muitos anos o Quartel dos Bombeiros Voluntários de Lagos antes de estes terem as suas instalações no Rossio da Trindade. Depois foi reconstruída pela/para a Igreja Evangélica de Lagos.
A porta da antiga igreja do Espírito Santo encontra-se na entrada do Museu Municipal de Lagos para onde foi transferida em 1935, quando da sua fundação pelo Dr. José Formozinho. A talha que constituía o altar encontra-se numa da igrejas de Lagoa e também em Sagres.
Também durante este século XV, os africanos que moravam em Lagos, ex-escravos, trazidos nas naus para a Europa, constituíram uma confraria, a Confraria dos Homens Pretos e foi-lhes entregue sede junto da ermida de Nossa Senhora do Rosário, situada perto da futura igreja e convento do Carmo, fora da Porta dos Quartos que dá acesso à estrada para a Praia da D. Ana e Ponta da Piedade.
Em 1499, havia na vila de Lagos os seguintes edifícios religiosos:
igreja paroquial de Santa Maria da Graça;
igreja de S. Sebastião;
igreja de S. António;
igreja da Misericórdia;
igreja do Espírito Santo;
igreja de Santa Bárbara;
ermida de Nossa Senhora da Graça;
ermida de Nossa Senhora do Rosário;
ermida de Nossa Senhora da Conceição;
ermida de Santo Amaro;
ermida de S. Lázaro;
ermida de S. João Baptista;
ermida de S. Pedro Pulgão (Nossa Senhora dos Aflitos).
Também nesta data, havia em Lagos os seguintes hospitais:
hospital de S. Pedro com ermida e S. João de Deus como patrono;
hospital e igreja da Misericórdia;
hospital dos gafos à guarda da igreja da Misericórdia;
hospital de Lourenço Estevens à guarda da igreja da Misericórdia.
Em 1490, dá-se a conclusão das grandes remodelações na Vila do Infante - Lagos; são concluídas a Praça dos Touros (atual Praça do Infante D. Henrique) onde antes era a desembocadura da Ribeira dos Touros e a Praça do Cano (atual Praça Gil Eanes) onde era a desembocadura da Ribeira das Naus, portanto estes três centros populacionais já estão unidos e passam a um só com duas freguesias: Santa Maria da Graça e S. Sebastião. Estas duas ribeiras desaguavam no Rio de Lagos que permanece. A área entre a Ribeira dos Touros e a Ribeira das Naus já está praticamente toda ocupada nesta data.
O Mercado de Escravos foi edificado durante este século XV, 1445/46 e foi mandado construir por Lançarote de Freitas, na altura Almoxarife da Vila de Lagos. Lançarote de Freitas era descendente de Manuel Pessanha e foi escudeiro do Infante D. Henrique, depois Oficial e posteriormente Almoxarife de Lagos. No ano de 1445/46, por iniciativa particular, Lançarote de Freitas navegou com Pedro Alemão e Vicente Dias, que já tinha acompanhado Luís de Cadamosto, veneziano, nas navegações marítimas; para a Guiné, exactamente entre o Cabo Branco e a ilha de Tider com o objectivo de capturar africanos para escravos e para este Mercado de Escravos trouxeram os primeiros escravos para lá serem vendidos.
Tratava-se de um edifício de um piso situado entre a rua da Vedoria e a rua Nossa Senhora da Graça. Tinha dois espaços diferenciados: um aberto, envolvido por quatro arcos protegidos por gradeamento e o pavimento é revestido por lages de pedra. O outro espaço é fechado e composto por uma única sala quadrangular (atualmente é galeria de arte). O segundo piso foi construído em 1691 para instalar lá a Vedoria e estão adossadas no paramento exterior as armas do primeiro Marquês de Niza, D. Francisco Luís da Gama.
Em 1450, é construído um outro hospital na rua Lançarote de Freitas pelo Almoxarife (administrador das propriedades da Casa Real) de Lagos, nesta altura Lourenço Estevens e sua esposa D. Constança. (PAULA, 1992, p.357)
Também durante o tempo do Infante D. Henrique, foi construída em Lagos a Casa da Guiné que em 1481/82, é transferida para Lisboa, passando a designar-se Casa da Guiné e Mina e posteriormente Casa da Mina e depois Casa da Índia.
A feira de Lagos, durante o tempo do Infante D. Henrique fazia-se próximo do Hospital da Gafaria, fora da Porta dos Quartos. Em 1490, foi transferida para o Rossio de S. João. Em 1756, volta a realizar-se perto do Hospital da Gafaria devido às cheias da maré. Posteriormente, a feira de Lagos passou definitivamente para o Rossio de S. João.
Em 1490, a Casa do Sal de Lagos, administrada por Soeiro da Costa, pede licença às Cortes de Évora para construir novas marinhas. O sal até então recolhido não chegava para o abastecimento da Vila de Lagos, pois existiam 22 acedares, armações de corvina e de atum, que consumiam mais de dez mil moios de sal ao ano, sal este que pertencia á Coroa Portuguesa e o rei aceita este pedido.
Em 1490, já reinado de D. João II, foi iniciado o aqueduto da cidade que ficou concluído em 1521. Proveniente da bacia hidrográfica do Paúl e da Fonte Coberta, o aqueduto tinha uma extensão de 4,5 km ao longo do caminho primitivo para o Norte de Portugal – Estrada Real n.o 78 (PAULA, 1992, p.169) - e terminava na Praça do Cano com um chafariz de oito bicas – coluna de pedra encimada por esfera também de pedra. Após a conclusão do aqueduto, D. Manuel I "mandou informar todas as nações marítimas para que as suas embarcações fizessem aguada na bica da Porta Nova (chafariz) onde os barcos podiam facilmente chegar." O chafariz situava-se no espaço entre, onde atualmente são os Paços do Concelho e a estátua de D. Sebastião na Praça Gil Eanes (PAULA, 1992, p.188). Anteriormente a vila ia abastecer-se de água à Fonte Coberta, uma albufeira no Paúl.
Convém fazer uma retrospectiva para indagar como foi acolhido entre a população lacobrigense o Planeamento Urbanístico Renascentista que o Infante D. Henrique criou para Lagos.
Antes da vinda do Infante D. Henrique, Lagos era uma vila dicotómica. Logo, este plano não teve aceitação pacífica por toda a população. Se, por um lado, os habitantes extramuros aderiram a este plano entusiasticamente, pois passariam a cidadãos de primeira finalmente, com direito a morar intramuros e o desenvolvimento que o Infante estava a trazer para Lagos dar-lhes-ia a possibilidade de passar a viver bem melhor e até, talvez, mudar de estatuto social; a população que já vivia intramuros e sendo privilegiada e da nobreza, certamente não viu com bons olhos esta despromoção e esta mistura de classes que o novo Plano Urbanístico traria. Continuariam sendo a classe privilegiada, de defesa e com grande importância na empresa dos Descobrimentos, mas era-lhes difícil aceitar a mistura de gentes, a despromoção do seu núcleo urbanístico de centro paroquial a centro secundário com uma ermida a Nossa Senhora da Graça onde antes era a igreja paroquial; com gente de mais baixa condição a obterem proventos superiores aos seus ...
Para combater esta animosidade, o Infante D. Henrique manda construir simultaneamente com a igreja de Santa Maria da Graça uma igreja neste núcleo urbano – a Igreja de Santo António – entregue a esta classe e com Santo António, padroeiro da Artilharia, seu padroeiro.
É uma classe difícil de contentar!
É assim: por muito bem que se queira fazer tudo, há sempre inimigos e adversários prontos a atacar subrepticiamente e o Infante D. Henrique teve bastantes. Quem faz, desagrada sempre a alguém!
mailto:eu.maria.figueiras@gmail.com

sábado, 2 de outubro de 2010

Século XV - Lagos Henriquina e pós-Henriquina (III)

Mais uma vez venho partilhar convosco este meu trabalho – LAGOS, Património e Vida – com o terceiro livro " Século XV - Lagos Henriquina e pós-Henriquina" que foi iniciado a 02 de Novembro de 2009 e concluído a 10 de Agosto de 2010 que gostaria muito de vê-lo publicado em livro.
LAGOS – PATRIMÓNIO E VIDA
Livro III – Século XV - Lagos Henriquina e pós-Henriquina
CAP III - O Infante D. Henrique e a sua obra
O Infante D. Henrique é o quinto filho do casal e nasceu no Porto, no dia 04 de Março de 1394. Em 1405, o Infante D. Henrique esteve a passar uns tempos, que não terão sido os únicos, na Corte Inglesa com os primos ingleses((MEDINA J.; vol. IV; 1994; p.17) e a adquirir saberes com um povo também de sonhos marítimos.
Durante a sua juventude, praticava desporto e artes de guerra e D. João I, seu pai, confia-lhe a organização da frota concentrada no Porto com gentes do Norte e da Beira para a expedição a Ceuta. Reuniu 70 navios grandes e muitos outros de abordagem. Em 1415, destacou-se na conquista da cidade de Ceuta, onde o seu pai o armou cavaleiro e aos seus dois irmãos mais velhos. Em Setembro de 1415, tornou-se Duque de Viseu e Senhor da Covilhã.
No dia 18 de Fevereiro de 1416, passou a ser Administrador e Governador da Ordem de Cristo e também em 1416, D. João I confia ao Infante D. Henrique o encargo de administrar o dinheiro destinado à defesa de Ceuta.
A necessidade de navegar por mares percorridos por grandes tempestades, por regime de ventos e por grossas correntes marítimas que arrastavam até às Canárias e posteriormente até ao arquipélago da Madeira navios portugueses encarregados da defesa costeira meridional de Portugal, levou o Infante D. Henrique a iniciar a exploração dos mares e a lançar-se na empresa dos descobrimentos. Durante o reinado de D. João I surge o descobrimento de Porto Santo (1419), da Madeira (1420) e do grupo oriental dos Açores (1427). D. Henrique persegue este sonho de descobrir o Desconhecido, quer saber o que está para além de ... com os seus marinheiros, cavaleiros e escudeiros, mercadores e capelães, ele vai experimentar durante 45 anos, o que é obedecer a um plano cientificamente estudado, ao mesmo tempo, expor a sua vida à Fortuna. Na concepção da época, renascentista, o homem individual integrava-se num todo. Diligente e persistente, o êxito das primeiras expedições marítimas entusiasmam-no ainda mais e no dia 20 de Maio de 1420, é investido pelo Papa Martinho V, ficando deste modo com valiosos recursos para a realização do seu sonho ultramarino.
Para o adestramento técnico dos seus marinheiros e para arquivar as experiências e realizações obtidas, D. Henrique rodeou-se de peritos, fundando em Sagres uma autêntica Escola Superior de Estudos Náuticos, chamando a Portugal, entre outros mestres, o já célebre cartógrafo Jácome de Maiorca que, com os elementos fornecidos pelos navegantes portugueses, elaborou novas cartas náuticas.
Entre os interesses determinantes da dedicação do Infante D. Henrique às navegações contam-se os de ordem religiosa – espírito de cruzada que lhe impunha a defesa política e económica e a propagação da fé católica, mas a sua dedicação à empresa marítima não era em exclusivo.
Não desligado dos problemas nacionais e em especial da universidade de que era protector atento, os seus interesses também se centravam nas terras de além-mar e para isso viveu a maior parte do seu tempo para a Escola Superior de Estudos Náuticos em Sagres.
Enormes eram os problemas que tinha para resolver e estavam sob a sua responsabilidade:
a preparação e execução das expedições marítimas,
a colonização dos arquipélagos da Madeira e dos Açores,
as relações com África recém-descoberta nas perspectivas comercial, política e missionária,
a responsabilidade do governo da Ordem de Cristo,
a defesa dos direitos e interesses de Portugal junto do Papa e do rei de Castela.
Em 1431, reorganizou os estudos da Universidade de Lisboa, onde introduziu o estudo da Matemática e da Astronomia, universidade que dava apoio a vários níveis à Escola Superior de Estudos Náuticos de Sagres e como podemos verificar também obtinha vantagens deste protocolo.
Em 1437, participou na infeliz expedição a Tânger e na conquista de Alcácer Ceguer, em 1457. Será denominado o Navegador e assim ficará conhecido na História portuguesa e universal.
No dia 20 de Maio de 1449, na crise que culminou na batalha de Alfarrobeira, o Infante D. Henrique esforçou-se por defender o irmão, Infante D. Pedro, em Santarém; mas em Alverca, respeitando a autoridade do sobrinho e rei, manteve uma atitude passiva ao lado do rei, D. Afonso V. (OLIVEIRA M. A.; 1990; pp. 221, 266, 275.)
Em 1449, em Alfarrobeira, morre o Infante D. Pedro na batalha, já sem a regência. Quando D. Pedro deixa a regência vai viver para o seu ducado de Coimbra, mas parece estar em graves dificuldades financeiras. Surge um conflito familiar entre D. Pedro e o casal real, mas era ao rei que cabia todas as decisões da Coroa.
Há um momento em que D. Pedro se recusa a cumprir uma ordem de D. Afonso V, receoso de cair nas mãos dos seus adversários, conselheiros do rei. O Infante D. Henrique intervém em Santarém e o conflito parece resolver-se. D. Afonso V chama à corte D. Afonso, Duque de Bragança e D. Pedro, Duque de Coimbra, para que o conflito entre os dois ficasse resolvido de vez. D. Pedro nega passagem ao Duque de Bragança quando este tenta passar por Coimbra para chegar à Corte em Lisboa. D. Pedro decide ir pedir justiça ao rei, seguindo à frente dos seus 6000 homens de armas. O rei prepara-se para tudo, pois Portugal não pode ficar dividido. O rei avança com muitos mais homens contra o tio. O tio, D. Pedro, vê-se perseguido, insultado no caminho pelos soldados do rei e consegue mandar matar cerca de trinta, sendo um deles, fidalgo da Casa do Infante D. Henrique. Em Alfarrobeira, os homens de armas de D. Pedro e do rei com o Infante D. Henrique estão frente a frente. Os soldados do rei começam as escaramuças e D. Pedro manda disparar as bombardas. Muitos dos homens de D. Pedro abandonaram-no antes da batalha e D. Pedro morre a lutar.
Dos vários testemunhos que ainda existem sobre o Infante D. Henrique, transcrevo o que encontrei na Crónica do Senhor José Paula Borba «LAGOS esta cidade que eu amo ...» no jornal CORREIO de LAGOS n.o 244 de Novembro/Dezembro de 2009: texto "(...) relatado pelo navegador Diogo Gomes que também era um fiel servidor da Casa do Infante.
«No ano do Senhor de 1460, o Senhor Infante D. Henrique adoeceu na Raposeira que fica perto do Cabo de S. Vicente, do que morreu a 13 de Novembro do dito ano, numa quinta-feira. E naquela noite em que morreu, levaram-no para a Igreja de Santa Maria (da Graça), na Vila de Lagos – Vila do Infante, onde foi sepultado honrosamente. E o rei, o Afonso (V) estava então na cidade de Évora e ficou muito triste com o seu povo pela morte de tão grande senhor; porque todos os rendimentos que tinha e tudo o que provinha da Guiné gastava em guerra e em contínua armada no mar contra os sarracenos, pela fé cristã. No fim do ano, o rei Afonso mandou-me chamar, pois continuamente eu ficara, por mandado do rei, em Lagos, junto do corpo do Infante, dando o que era necessário aos sacerdotes que se empregavam em contínuas vigílias e no Ofício Divino e mandou que eu visse e examinasse se o corpo do Infante estava putrefacto porque queria trasladar os ossos dele para o Mosteiro, realmente formosíssimo, que se chama Santa Maria da Batalha, que seu pai, o rei D. João I, edificara com frades da Ordem dos Pregadores. Eu, com efeito, chegando ao corpo do defunto, descobri-o e encontrei-o seco e integro. E encontrei-o cingido por cilício áspero de sedas de cavalo; pois bem canta a Igreja: non dabis sanctum tuum videre corruptionem (não permitirás que o teu santo sofra a corrupção). O qual Senhor Infante até à morte permaneceu virgem e fez em sua vida muitos benefícios que seria muito extenso contar. Então, o rei mandou ir o seu irmão Senhor Infante D. Fernando, duque de Beja e os bispos e condes afim de levarem o corpo até ao Mosteiro da Batalha supradito, onde o rei esperava o corpo do defunto. E foi posto o corpo do Infante na capela formosíssima e grande que o seu próprio pai, o rei D. João I fizera, onde o mesmo rei jaz com sua esposa D. Filipa, mãe dele e cinco irmãos do mesmo, dos quais todos louvável memória haverá até à eternidade. E descansam em santa paz. Amem.»
Para terminar esta evocação, não posso deixar de incluir o belo soneto do nosso poeta Vieira Calado.
Baía e Infante D. Henrique
Na curva inolvidável da Baía
que ao mar bravio roubou o Bojador,
paira a sombra fantástica vigia
desse Infante que foi navegador.
Pega a bússola, a régua, a fantasia,
arrasa velhos mitos sem temor
e em Lagos e em Sagres dia-a-dia
faz argonauta o sábio e o pescador.
Desencobre dos mares os segredos
e no abismo dos mitos derradeiros
desfaz em clara luz p'rigos e medos.
E tu, Lagos, berço dos marinheiros,
és a própria figura do Infante
que ao Mundo mundos deu, mais adiante.❐
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