Mais uma vez venho partilhar convosco este meu trabalho – LAGOS, Património e Vida – com o terceiro livro " Século XV - Lagos Henriquina e pós-Henriquina" que foi iniciado a 02 de Novembro de 2009 e concluído a 10 de Agosto de 2010 que gostaria muito de vê-lo publicado em livro.
LAGOS – PATRIMÓNIO E VIDA
Livro III – Século XV - Lagos Henriquina e pós-Henriquina
CAP IV - A polémica Urbanização Henriquina
O que encontrou o Infante D. Henrique em Lagos para além das características já suas conhecidas desta cidade?
Encontrou uma cidade dividida, com dois níveis muito acentuados de gente que se odiava: um grupo – o dos privilegiados – de ordem defensiva e da nobreza, vivendo na vila murada; outro grupo – o dos não-honrados – de produção e vivendo na área mais baixa e mais afastada da vila extramuros. De permeio, uma colina não habitada onde pastava gado bovino.
Primeira vontade decisiva do Infante D. Henrique foi acabar com esta discriminação e situação. Reuniu os melhores técnicos europeus em urbanização que conhecia e o planeamento urbanístico começou.
Assim, ficou decidido drenar as duas ribeiras – Ribeira dos Touros e Ribeira das Naus – e enchê-las de terra para construir dois largos caminhos.
Segunda decisão essencial – passar a vila de um pólo intramuros e outro extramuros para três pólos dentro da vila murada, um em cada colina:
1.o – Pólo da igreja Nossa Senhora da Graça, único Cartório paroquial de Lagos, passa a pólo da Ermida Nossa Senhora da Graça. A igreja Nossa Senhora da Graça passa para Sagres no interior da futura Fortaleza de Sagres e a fazer parte deste complexo do qual faria parte também a Escola de Estudos Superiores Náuticos com a célebre rosa-dos-ventos que ainda hoje lá existe e as instalações da dita Escola também.
2.o – Pólo da igreja de Santa Maria da Graça que recebe o Cartório Paroquial da Vila de Lagos e passa a ser o Cartório paroquial da mesma. Esta igreja da única paróquia da vila de Lagos passa a situar-se no centro da nova vila ainda não-murada na parte baixa da colina do meio – colina de Nossa Senhora do Rosário – chamar-se-á igreja de Santa Maria da Graça e ficará perto do porto com o Cais (Velho), a Porta do Cais e a Alfândega que ficava junto da Porta do Cais. Na Lagos Henriquina esta igreja, paroquial, era o centro da nova Lagos murada. O Governador continuava a morar e exercer no Palácio e Castelo do Governador onde sempre existiu desde o início da nova Lacóbriga ainda não-murada. O Largo da Igreja Santa Maria da Graça não terá as casas que lhe estão atualmente à frente. As casas do Infante D. Henrique e de D. Nuno Álvares Pereira situavam-se desde a desembocadura da Ribeira das Naus até à travessa que dá acesso ao Largo da igreja paroquial. O Largo da igreja, único edifício naquele espaço com o hospital e ermida de S. Pedro, onde é atualmente a Messe Militar, era ladeado pelo Mercado dos Escravos, pelo edifício onde atualmente está o restaurante Bon Vivant, pela fila de casas do lado esquerdo da actual rua 25 de Abril. Todo o restante espaço entre a anterior desembocadura da Ribeira dos Touros e a igreja paroquial com hospital destinava-se ao movimento natural de um cais internacional ainda mais atarefado com a empresa dos Descobrimentos. A desembocadura da Ribeira dos Touros até chegar a Praça dos Touros, portanto de 1415 a 1490, passou por espaço de recreio e lazer com circulação tangencial: rossio (terreiro espaçoso; terreno fruído em comum pelos habitantes de uma povoação), local de feira de gado, arena onde se realizavam corridas de touros, ...
Este novo pólo terá dois núcleos: um na baixa, rodeando a igreja paroquial da vila ligado à exportação e importação e ao comércio local e outro pólo no alto da colina rodeando a ermida da Nossa Senhora do Rosário, pólo ligado aos habitantes que cuidavam dos terrenos agrícolas de sequeiro que a rodeavam ainda a segunda cerca não estava construída.
3.o – Pólo da ermida de Nossa Senhora da Conceição que reúne a sua população tradicional da colina (pescadores), da zona baixa ao longo do rio de Lagos (comerciantes) e das hortas (agricultores) da primitiva Lacóbriga (todos já extramuros relativamente à primitiva cerca – muralhas).
A nova vila murada de Lagos assemelhar-se-á a uma coroa real, olhando para o Atlântico com três pontas e mais duas formando a base: cinco pontas, um pentágono. No interior deste pentágono, desenha-se a Cruz de Cristo, (Ordem do Infante D. Henrique, promotora dos Descobrimentos juntamente com a Coroa Real Portuguesa) unindo longitudinalmente a Ermida de Nossa Senhora da Graça com a Ermida de Nossa Senhora da Conceição (a tradição) e unindo verticalmente a Ermida Nossa Senhora do Rosário com a igreja Matriz Santa Maria da Graça (a modernidade).
A concretização deste planeamento ultrapassará a vida do Infante D. Henrique. Será o rei D. Manuel I que mandará construir a cerca (as muralhas) estabelecida(s) neste plano, em 1520 e concluídas em 1598, no reinado de D. Filipe I e assim completar este projecto gigantesco do Renascimento realizado na vila de Lagos quatrocentista.
Partamos para os pormenores deste grandioso projecto.
Entre 1385 e 1433, segundo o recenseamento realizado, havia dentro da primitiva vila murada 1500 a 2000 vizinhos (famílias). Gente da quarta esfera, os negociantes, os marítimos que tratavam das almadravas (armações para a pesca do atum, da corvina e da baleia) e de 22 acedares (armações para a pesca da sardinha) e outros indivìduos viviam em casas localizadas fora das muralhas por lhes ser proibido dentro da praça murada. (PAULA, 1992, p. 355). Convém recordar, neste momento, os estratos sociais da época:
Estrutura social da época
I esfera: ricos homens e prelados cujos haveres não são quantificados, mas cujas figuras de topo são o Conde e o Arcebispo que podem vir à corte acompanhados por um séquito de 30 vassalos, enquanto os mais poderosos terão de contentar-se com um séquito de 20 vassalos.
II esfera: cavaleiros fidalgos com cerca de 1000 libras, os escudeiros com cerca de 3000 libras e os cidadãos com 5000 libras e mais.
III esfera: homens que moravam nas vilas e que não tinham quantia para terem cavalos e os escudeiros de fidalgos ou de ricos homens que não tiverem maravedis (moeda da época).
IV esfera: braceiros, mancebos, mesquinhos, pobres e escravos. (MEDINA; vol. III; 1994; pp.152-3).
Em 1433, com o Infante D. Henrique, passou a haver 1100 fogos no interior da Praça; 200 fogos na Aldeia da Porta do Postigo (ao redor da Ermida da Nossa Senhora da Conceição); 450 fogos na periferia (ao redor da ermida de Nossa Senhora do Rosário). (PAULA, 1992, p. 356)
Após a drenagem das duas ribeiras, a colina do meio passou a ser a parte mais importante da vila de Lagos onde foram construídas as casas privativas do Infante na Ribeira (de Bensafrim - todo o espaço longitudinal ao longo do rio de Lagos na colina do meio entre as anteriores Ribeira dos Touros e Ribeira das Naus) para acolher os seus convidados: membros das Casas Reais Portuguesa, Inglesa e outras e outros convidados distintos; D. Nuno Álvares Pereira tinha também lá casas. Havia prosperidade económica. Era também o centro de explorações marítimas com grande actividade comercial e também a residência dos mareantes do Infante (estudantes da Escola Superior Náutica de Sagres que tinham a sua prática nas expedições para descobrimento de novas terras e novas gentes a partir de Lagos).
Ao mesmo tempo em que era feita a drenagem das duas ribeiras, era construída a igreja paroquial da vila, igreja de Santa Maria da Graça, com curado e para ser inaugurada em Agosto de 1415, no dia em que a expedição partisse para Ceuta com o rei, D. João I, os seus três filhos mais velhos e D. Nuno Álvares Pereira ao comando e assim os clérigos desta igreja – única paroquial - dariam a sua bênção à expedição. Esta igreja planeou-se situar-se no centro da base da colina do meio, centro da Nova Lagos murada.
Antes de 1415, é esta então mandada edificar por D. João I, mas por decisão do seu filho, o Infante D. Henrique. Esta igreja situada na rua Nossa Senhora da Graça que atualmente ainda existe e cuja frente da igreja ainda existe também, perto do Mercado dos Escravos e da atual Messe Militar, passa a ser a igreja paroquial e freguesia dos habitantes intramuros da segunda cerca a construir.
Em 1416, é-lhe construida a Capela de Nossa Senhora da Graça pelos herdeiros de Jacques Magalhães.
A 03 de Janeiro 1419, Lourenço Dias funda a Irmandade do Senhor Jesus nesta igreja.
Em 1420, são feitas obras nesta igreja melhorando a sua arquitectura, levantando as naves laterais e construindo outra capela – Capela do Senhor Jesus - na nave do Evangelho para servir de sepultura a Soeiro da Costa e seus descendentes; tudo às suas custas. Na parte lateral esquerda desta igreja foram construídos por milaneses e sicilianos, o hospital e a ermida de S. Pedro concluídos em 1490 e escolheram para patrono S. João de Deus.
Durante este século XV, Lourenço Estevens, almoxarife de Lagos, manda construir o Tabernáculo na Capela Mor desta igreja.
A 13 de Novembro de 1460, o Infante D. Henrique faleceu na sua casa da Raposeira, a sua casa privada para descanso e isolamento e nessa mesma noite ficou sepultado em Lagos - Vila do Infante - nesta igreja Matriz de Santa Maria da Graça. A escolha desta igreja que era igreja Maior, paroquial, para primeira sepultura do Infante D. Henrique até à sua trasladação para a jazida real do Mosteiro de Santa Maria da Vitória (Batalha), leva-nos a supor da sua importância que este acontecimento ainda mais elevou.
Em 1496, D. João Camello, Bispo de Silves, nomeia prior para esta igreja.
Em 1572, é reconstruída a capela mor desta igreja.
Em 1586, continua a ser a mais importante igreja de Lagos donde saem as procissões do Corpus Christi. Coexistem com ela intramuros a igreja da Misericórdia, a igreja de Santo António, a igreja do Espírito Santo e a igreja de Santa Bárbara com porta intramuros, onde depois foi aberta a Porta de S. Gonçalo nas muralhas. Faz-se uma demanda entre a colegiada de Santa Maria da Graça e a colegiada de São Sebastião sobre qual das duas igrejas era a mais antiga. Esta demanda foi resolvida nas Cortes de Évora a favor da igreja de Santa Maria da Graça que é considerada igreja Matriz anterior a 1480.
Em 1594, volta a ser confirmado o facto de esta igreja ser a igreja Matriz.
Em 1633, são construídos o adro desta igreja e a Torre pelo Conde do Prado.
Em 1638, cria-se a Confraria do Santíssimo Sacramento nesta igreja.
Em 1694, esta igreja fica sob a guarda da Irmandade de S. João de Deus que fundou o seu hospital e convento, adaptando o hospital de S. Pedro. Foi-lhes confiado o tratamento dos enfermos militares.
A 01 de Novembro de 1755, esta igreja, de Santa Maria da Graça, é arrasada pelo terramoto e a Irmandade de S. João de Deus foi construir uma igreja a Poente da Porta dos Quartos, junto do seu novo hospital, no local actualmente conhecido por Hospital Velho. De seguida, a igreja de Santa Maria da Graça é reconstruida até “iam as paredes em meio” por D. Francisco Gomes Avelar, mas nem o clero nem a nobreza ou o povo contribuíram em nada e por falta de colaboração, o bispo D. Francisco Gomes de Avelar não levou ao fim a reedificação a que se propunha desta igreja.
A Câmara Municipal atribuiu as funções de cemitério ao espaço ocupado pelo convento e hospital S. João de Deus – cemitério da paróquia de Santa Maria da Graça que, por vários motivos, incluindo as epidemias da peste e da cólera, foi projecto que durou muito pouco, sendo abandonado e demolido.
Por seu lado, o Senado da Câmara mandou, à sua custa, desentulhar a sacristia desta igreja para recuperar a Relíquia de S. Gonçalo que foi exposta com luzes à veneração do povo, na igreja de S. Sebastião e atualmente está exposta na Porta de S. Gonçalo, nas muralhas, em frente da fortaleza.
Em 1872, os restos desta igreja foram cedidos à Câmara Municipal.
Em 1891, este espaço foi pedido à Câmara para culto a S. Gonçalo, mas foi vendido a José Augusto Cabral. A talha da igreja foi oferecida pelo filho deste à Confraria dos Passos de Lagos que a ofereceu a João da Cruz que, por sua vez, a mandou colocar na igreja de Nossa Senhora da Graça, na Fortaleza de Sagres. Este espaço passou a ser uma adega.
Por último, em sessão de 19 de Abril de 1893, foi deliberado mandar destruir os últimos vestígios de tão antigo e histórico templo.
Foi utilizada, sucessivamente como adega, livraria, galeria de Arte e actualmente é um bar.
A igreja de Santo António
Outra igreja foi construída na mesma altura, a partir de 1415, a igreja de Santo António, padroeiro do Corpo de Artilharia já na antiga parte murada da vila de Lagos (PAULA, 1992, p. 356). Esta igreja, de Santo António, foi também destruída pelo terramoto de 1755, sendo reedificada em 1769, pelo Comandante do Regimento de Artilharia de Lagos e ficando a servir-lhe de capela.
Durante o reinado de D. Afonso V, foi mandada construir nesta igreja a Capela de Santa Maria por Estevão Rebello.
A igreja de Santo António encontra-se em posição de gaveto para dois espaços – fachada principal sobre a rua General Alberto da Silveira e fachada lateral sobre a rua Silva Lopes (antigo Largo de Santo António).
É uma igreja em estilo barroco, patente nas características da sua fachada principal, nomeadamente no frontão, nas torres e no guarnecimento do óculo sobre a porta de entrada.
A fachada lateral apresenta um arco de "meio ponto", de grandes proporções que cria um "alpendre" abobadado com acesso ao interior.
De salientar as diferentes proporções das torres sineiras, na maior das quais é colocado um relógio, em 1839.
Tem uma única nave de tecto abobadado, encontrando-se o interior decorado com azulejos e talha dourada; esta da responsabilidade dos mestres Quaresma, pai e filho, de Lagoa. Inclui quadros pintados pelo mestre José Joaquim Rasquinho, de Loulé.
É um edifício classificado como monumento nacional e ainda hoje existe bem conservado e nas suas instalações encontra-se o Museu Municipal de Lagos Dr. José Formozinho, fundado em 1935.
A igreja de Santa Bárbara
Foi iniciada a sua construção também por volta de 1415 na parede da primeira cerca e com porta de entrada para dentro da vila de Lagos murada. Acredita-se que devido aos fortes sustos que a população lacobrigense intramuros sofria sempre que havia temporal, pois o mar batia forte e ressaltava nas muralhas. Santa Bárbara é a santa que se invoca quando há tempestade – ondas alterosas, relâmpagos e trovões, chuva torrencial e vento forte. "Santa Bárbara nos acuda." ouvi eu muitas vezes na minha meninice nestas alturas.
Em 1726, foi reconstruída pelo Conde de Unhão, Governador do Algarve.
Depois do terramoto de 1755, não foi reedificada e o local foi adaptado a dependências do Quartel de Infantaria 2.
Foi aberta a Porta de S. Gonçalo no rés-do-chão desta igreja e lá colocada a relíquia de S. Gonçalo.
Atualmente o edifício está recuperado.
A igreja de S. Sebastião
Em 1442, a ermida de Nossa Senhora da Conceição já tinha Cura ou reitor, mas sem ter Capela Mor.
Entre 1460-63, após o falecimento do Infante D. Henrique, Lagos sofre uma epidemia de cólera e os seus habitantes pedem a S. Sebastião o milagre do fim desta epidemia. Foi obtido o milagre e S. Sebastião foi declarado Protector de Lagos.
Em 1463, esta ermida passa a ser transformada em igreja para ser dedicada a S. Sebastião e os devotos de Nossa Senhora da Conceição vão construir uma segunda ermida dedicada a Nossa Senhora da Conceição no local da Pedra da Eira, atualmente Largo Dr. Vasco Gracias, onde posteriormente, em 1554, foi edificado o Convento e igreja das Carmelitas Descalças de Nossa Senhora da Conceição (PAULA, 1992, p. 359).
No mesmo ano, é construída uma Capela dedicada a S. Sebastião pelo Bispo D. João de Mello na igreja de S. Sebastião.
Em 1464, o Bispo D. João de Mello obtém do Papa Paulo II Osso e Sangue de S. Sebastião como relíquias para esta igreja.
Em 1490, ficou concluída a igreja de S. Sebastião que vai sendo ampliada até ao séc. XVI, quando atinge a sua forma actual. A porta principal da Ermida é a atual porta lateral do lado Sul em estilo renascentista que ficou encerrada e foi aberta a norte a porta principal da igreja. Apresenta três naves separadas por colunas dóricas, sendo a central mais alta do que as laterais. Tem uma Capela dos Ossos (recolhidos dos mortos do terramoto de 1755) que dá para o adro da ermida. A igreja tem capelas laterais e altar mor em talha dourada. É monumento nacional. ((PAULA, 1992, p.307)
Esta ermida – igreja foi a base de uma dualidade urbana que marcou os séc. XIV e XVI.
Em 1575, é edificada nela a Capela de Nossa Senhora da Glória por João Ribeiro.
Em 1581, é reedificada nela a Capela das Almas. Também é fundada a Capela de S. Nicolau pelo cónego Pedro de Távora.
Em 1586, é feita uma demanda entre a colegiada de S. Sebastião e a colegiada de Santa Maria da Graça na rua Nossa Senhora da Graça sobre qual das duas igrejas é a mais antiga. Foi resolvida em Évora a favor da colegiada de Santa Maria da Graça por esta ser Matriz e anterior a 1480 (PAULA, 1992, p.360). Da igreja de S. Sebastião dependiam, nesta data, a segunda ermida de Nossa Senhora da Conceição, a ermida de S. Pedro Pulgão (actual ermida Nossa Senhora dos Aflitos), ermida de S. João Baptista, ermida de S. Roque, ermida de S. Lázaro e ermida de Santo Amaro.
Também nesta data, é fundada nela a Capela do Senhor Jesus e criada a Irmandade dos zeladores do Senhor Jesus cujo fundador foi João Annes.
Em 1623, foi sepultado nesta igreja o padre Pedro Galego.
Em 1633, foi construída nela a Capela de Nossa Senhora da Conceição por Vaz Fagundes.
A 01 de Novembro de 1755, o terramoto causa-lhe grandes estragos, caiu a torre e a tribuna. Chegou a tal estado de ruína que a paróquia passou provisoriamente para a ermida de Santo Amaro, mas por ser muito pequena face às necessidades, passou depois para a igreja de Nossa Senhora do Carmo até à sua reconstrução, da igreja de S. Sebastião.
Em 1828, foi colocado um relógio na torre da igreja de S. Sebastião feito pelo ferreiro Costa e Sousa.
Em 1833, foi transferida a imagem da Nossa Senhora da Glória, devido aos assaltos dos rebeldes na guerra civil, do Convento de Nossa Senhora da Glória para a igreja de S. Sebastião.
Em 1858, esta igreja foi reconstruída por um benemérito de Portimão.
A 07 de Setembro de 1863, por documento foi nomeado o Terceiro Beneficiado de S. Sebastião pelo Bispo D. Jerónimo Barreto.
A 14 de Abril de 1893, a Câmara Municipal ordena que se façam os enterramentos em S. Sebastião para ambas as freguesias (PAULA, 1992, p.367).
A igreja da Misericórdia
Em 1498, é fundada em Lagos a Casa da Misericórdia com hospital que já existia no século XIV e igreja na antiga vila murada de Lagos aberta para a Praça dos Touros e com Irmandade exactamente no local onde atualmente é a igreja de Santa Maria, portanto bem próximo da igreja de Santa Maria da Graça e em frente do hospital e ermida de S. Pedro. Entre o hospital e ermida de S. Pedro e a igreja da Misericórdia era um espaço aberto natural - a Praça dos Touros. À igreja da Misericórdia pertenciam também o Hospital dos Gafos e o Hospital de Lourenço Estevens.
Em 1556, a igreja da Misericórdia é ampliada e passa a receber 500 réis por ano do feitor das almadravas do Algarve e dois atuns por cada armação.
Em 1588, o capitão-general D. Fernão Telles de Menezes, Governador do Algarve, passa certidões sobre Leis referentes às Misericórdias de Lisboa e de Goa que quer aplicar à Misericórdia de Lagos.
Em 1657, esta igreja sofre obras de reparação.
Entre 1701/02, D. António de Almeida, Governador do Algarve, foi nomeado Provedor da Misericórdia de Lagos.
A 01 de Novembro de 1755, acontece o célebre terramoto. “A igreja da Misericórdia ficou em pé, mas arruinada. Foi reparada, sendo a primeira a ser consertada e para lá foi a colegiada da igreja de Santa Maria da Graça que contribuiu para as despesas de reparação e passou esta igreja a chamar-se igreja de Santa Maria e passou para lá o Cartório Paroquial e a sede da freguesia de Santa Maria da Graça.” (PAULA, 1992, pp. 60-61)
Em 1850, foi concedido à Casa da Misericórdia aumentar as enfermarias do seu hospital na parte do terreno onde antes era o Palácio dos Capitães e Generais. ❐
Igreja do Espírito Santo
A igreja do Espírito Santo é mandada construir no início do reinado de D. Manuel I e é concluída no ano de 1498 também, na altura em que foi fundada a Irmandade do Corpo Santo do Compromisso dos Pescadores e Marítimos de Lagos. (PAULA, 1992, pp. 358 + 304/05). Começou por chamar-se igreja do Compromisso Marítimo. O objectivo desta Irmandade de pescadores era protegê-los com o seu sistema de “segurança social”. Ficou arrasada com o terramoto de 1755, mas depois foi reedificada.
A seguir à implantação da República foi utilizada como taberna e, após foi durante muitos anos o Quartel dos Bombeiros Voluntários de Lagos antes de estes terem as suas instalações no Rossio da Trindade. Depois foi reconstruída pela/para a Igreja Evangélica de Lagos.
A porta da antiga igreja do Espírito Santo encontra-se na entrada do Museu Municipal de Lagos para onde foi transferida em 1935, quando da sua fundação pelo Dr. José Formozinho. A talha que constituía o altar encontra-se numa da igrejas de Lagoa e também em Sagres.
Também durante este século XV, os africanos que moravam em Lagos, ex-escravos, trazidos nas naus para a Europa, constituíram uma confraria, a Confraria dos Homens Pretos e foi-lhes entregue sede junto da ermida de Nossa Senhora do Rosário, situada perto da futura igreja e convento do Carmo, fora da Porta dos Quartos que dá acesso à estrada para a Praia da D. Ana e Ponta da Piedade.
Em 1499, havia na vila de Lagos os seguintes edifícios religiosos:
igreja paroquial de Santa Maria da Graça;
igreja de S. Sebastião;
igreja de S. António;
igreja da Misericórdia;
igreja do Espírito Santo;
igreja de Santa Bárbara;
ermida de Nossa Senhora da Graça;
ermida de Nossa Senhora do Rosário;
ermida de Nossa Senhora da Conceição;
ermida de Santo Amaro;
ermida de S. Lázaro;
ermida de S. João Baptista;
ermida de S. Pedro Pulgão (Nossa Senhora dos Aflitos).
Também nesta data, havia em Lagos os seguintes hospitais:
hospital de S. Pedro com ermida e S. João de Deus como patrono;
hospital e igreja da Misericórdia;
hospital dos gafos à guarda da igreja da Misericórdia;
hospital de Lourenço Estevens à guarda da igreja da Misericórdia.
Em 1490, dá-se a conclusão das grandes remodelações na Vila do Infante - Lagos; são concluídas a Praça dos Touros (atual Praça do Infante D. Henrique) onde antes era a desembocadura da Ribeira dos Touros e a Praça do Cano (atual Praça Gil Eanes) onde era a desembocadura da Ribeira das Naus, portanto estes três centros populacionais já estão unidos e passam a um só com duas freguesias: Santa Maria da Graça e S. Sebastião. Estas duas ribeiras desaguavam no Rio de Lagos que permanece. A área entre a Ribeira dos Touros e a Ribeira das Naus já está praticamente toda ocupada nesta data.
O Mercado de Escravos foi edificado durante este século XV, 1445/46 e foi mandado construir por Lançarote de Freitas, na altura Almoxarife da Vila de Lagos. Lançarote de Freitas era descendente de Manuel Pessanha e foi escudeiro do Infante D. Henrique, depois Oficial e posteriormente Almoxarife de Lagos. No ano de 1445/46, por iniciativa particular, Lançarote de Freitas navegou com Pedro Alemão e Vicente Dias, que já tinha acompanhado Luís de Cadamosto, veneziano, nas navegações marítimas; para a Guiné, exactamente entre o Cabo Branco e a ilha de Tider com o objectivo de capturar africanos para escravos e para este Mercado de Escravos trouxeram os primeiros escravos para lá serem vendidos.
Tratava-se de um edifício de um piso situado entre a rua da Vedoria e a rua Nossa Senhora da Graça. Tinha dois espaços diferenciados: um aberto, envolvido por quatro arcos protegidos por gradeamento e o pavimento é revestido por lages de pedra. O outro espaço é fechado e composto por uma única sala quadrangular (atualmente é galeria de arte). O segundo piso foi construído em 1691 para instalar lá a Vedoria e estão adossadas no paramento exterior as armas do primeiro Marquês de Niza, D. Francisco Luís da Gama.
Em 1450, é construído um outro hospital na rua Lançarote de Freitas pelo Almoxarife (administrador das propriedades da Casa Real) de Lagos, nesta altura Lourenço Estevens e sua esposa D. Constança. (PAULA, 1992, p.357)
Também durante o tempo do Infante D. Henrique, foi construída em Lagos a Casa da Guiné que em 1481/82, é transferida para Lisboa, passando a designar-se Casa da Guiné e Mina e posteriormente Casa da Mina e depois Casa da Índia.
A feira de Lagos, durante o tempo do Infante D. Henrique fazia-se próximo do Hospital da Gafaria, fora da Porta dos Quartos. Em 1490, foi transferida para o Rossio de S. João. Em 1756, volta a realizar-se perto do Hospital da Gafaria devido às cheias da maré. Posteriormente, a feira de Lagos passou definitivamente para o Rossio de S. João.
Em 1490, a Casa do Sal de Lagos, administrada por Soeiro da Costa, pede licença às Cortes de Évora para construir novas marinhas. O sal até então recolhido não chegava para o abastecimento da Vila de Lagos, pois existiam 22 acedares, armações de corvina e de atum, que consumiam mais de dez mil moios de sal ao ano, sal este que pertencia á Coroa Portuguesa e o rei aceita este pedido.
Em 1490, já reinado de D. João II, foi iniciado o aqueduto da cidade que ficou concluído em 1521. Proveniente da bacia hidrográfica do Paúl e da Fonte Coberta, o aqueduto tinha uma extensão de 4,5 km ao longo do caminho primitivo para o Norte de Portugal – Estrada Real n.o 78 (PAULA, 1992, p.169) - e terminava na Praça do Cano com um chafariz de oito bicas – coluna de pedra encimada por esfera também de pedra. Após a conclusão do aqueduto, D. Manuel I "mandou informar todas as nações marítimas para que as suas embarcações fizessem aguada na bica da Porta Nova (chafariz) onde os barcos podiam facilmente chegar." O chafariz situava-se no espaço entre, onde atualmente são os Paços do Concelho e a estátua de D. Sebastião na Praça Gil Eanes (PAULA, 1992, p.188). Anteriormente a vila ia abastecer-se de água à Fonte Coberta, uma albufeira no Paúl.
Convém fazer uma retrospectiva para indagar como foi acolhido entre a população lacobrigense o Planeamento Urbanístico Renascentista que o Infante D. Henrique criou para Lagos.
Antes da vinda do Infante D. Henrique, Lagos era uma vila dicotómica. Logo, este plano não teve aceitação pacífica por toda a população. Se, por um lado, os habitantes extramuros aderiram a este plano entusiasticamente, pois passariam a cidadãos de primeira finalmente, com direito a morar intramuros e o desenvolvimento que o Infante estava a trazer para Lagos dar-lhes-ia a possibilidade de passar a viver bem melhor e até, talvez, mudar de estatuto social; a população que já vivia intramuros e sendo privilegiada e da nobreza, certamente não viu com bons olhos esta despromoção e esta mistura de classes que o novo Plano Urbanístico traria. Continuariam sendo a classe privilegiada, de defesa e com grande importância na empresa dos Descobrimentos, mas era-lhes difícil aceitar a mistura de gentes, a despromoção do seu núcleo urbanístico de centro paroquial a centro secundário com uma ermida a Nossa Senhora da Graça onde antes era a igreja paroquial; com gente de mais baixa condição a obterem proventos superiores aos seus ...
Para combater esta animosidade, o Infante D. Henrique manda construir simultaneamente com a igreja de Santa Maria da Graça uma igreja neste núcleo urbano – a Igreja de Santo António – entregue a esta classe e com Santo António, padroeiro da Artilharia, seu padroeiro.
É uma classe difícil de contentar!
É assim: por muito bem que se queira fazer tudo, há sempre inimigos e adversários prontos a atacar subrepticiamente e o Infante D. Henrique teve bastantes. Quem faz, desagrada sempre a alguém!
mailto:eu.maria.figueiras@gmail.com
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