sábado, 2 de outubro de 2010

Século XV - Lagos Henriquina e pós-Henriquina (III)

Mais uma vez venho partilhar convosco este meu trabalho – LAGOS, Património e Vida – com o terceiro livro " Século XV - Lagos Henriquina e pós-Henriquina" que foi iniciado a 02 de Novembro de 2009 e concluído a 10 de Agosto de 2010 que gostaria muito de vê-lo publicado em livro.
LAGOS – PATRIMÓNIO E VIDA
Livro III – Século XV - Lagos Henriquina e pós-Henriquina
CAP III - O Infante D. Henrique e a sua obra
O Infante D. Henrique é o quinto filho do casal e nasceu no Porto, no dia 04 de Março de 1394. Em 1405, o Infante D. Henrique esteve a passar uns tempos, que não terão sido os únicos, na Corte Inglesa com os primos ingleses((MEDINA J.; vol. IV; 1994; p.17) e a adquirir saberes com um povo também de sonhos marítimos.
Durante a sua juventude, praticava desporto e artes de guerra e D. João I, seu pai, confia-lhe a organização da frota concentrada no Porto com gentes do Norte e da Beira para a expedição a Ceuta. Reuniu 70 navios grandes e muitos outros de abordagem. Em 1415, destacou-se na conquista da cidade de Ceuta, onde o seu pai o armou cavaleiro e aos seus dois irmãos mais velhos. Em Setembro de 1415, tornou-se Duque de Viseu e Senhor da Covilhã.
No dia 18 de Fevereiro de 1416, passou a ser Administrador e Governador da Ordem de Cristo e também em 1416, D. João I confia ao Infante D. Henrique o encargo de administrar o dinheiro destinado à defesa de Ceuta.
A necessidade de navegar por mares percorridos por grandes tempestades, por regime de ventos e por grossas correntes marítimas que arrastavam até às Canárias e posteriormente até ao arquipélago da Madeira navios portugueses encarregados da defesa costeira meridional de Portugal, levou o Infante D. Henrique a iniciar a exploração dos mares e a lançar-se na empresa dos descobrimentos. Durante o reinado de D. João I surge o descobrimento de Porto Santo (1419), da Madeira (1420) e do grupo oriental dos Açores (1427). D. Henrique persegue este sonho de descobrir o Desconhecido, quer saber o que está para além de ... com os seus marinheiros, cavaleiros e escudeiros, mercadores e capelães, ele vai experimentar durante 45 anos, o que é obedecer a um plano cientificamente estudado, ao mesmo tempo, expor a sua vida à Fortuna. Na concepção da época, renascentista, o homem individual integrava-se num todo. Diligente e persistente, o êxito das primeiras expedições marítimas entusiasmam-no ainda mais e no dia 20 de Maio de 1420, é investido pelo Papa Martinho V, ficando deste modo com valiosos recursos para a realização do seu sonho ultramarino.
Para o adestramento técnico dos seus marinheiros e para arquivar as experiências e realizações obtidas, D. Henrique rodeou-se de peritos, fundando em Sagres uma autêntica Escola Superior de Estudos Náuticos, chamando a Portugal, entre outros mestres, o já célebre cartógrafo Jácome de Maiorca que, com os elementos fornecidos pelos navegantes portugueses, elaborou novas cartas náuticas.
Entre os interesses determinantes da dedicação do Infante D. Henrique às navegações contam-se os de ordem religiosa – espírito de cruzada que lhe impunha a defesa política e económica e a propagação da fé católica, mas a sua dedicação à empresa marítima não era em exclusivo.
Não desligado dos problemas nacionais e em especial da universidade de que era protector atento, os seus interesses também se centravam nas terras de além-mar e para isso viveu a maior parte do seu tempo para a Escola Superior de Estudos Náuticos em Sagres.
Enormes eram os problemas que tinha para resolver e estavam sob a sua responsabilidade:
a preparação e execução das expedições marítimas,
a colonização dos arquipélagos da Madeira e dos Açores,
as relações com África recém-descoberta nas perspectivas comercial, política e missionária,
a responsabilidade do governo da Ordem de Cristo,
a defesa dos direitos e interesses de Portugal junto do Papa e do rei de Castela.
Em 1431, reorganizou os estudos da Universidade de Lisboa, onde introduziu o estudo da Matemática e da Astronomia, universidade que dava apoio a vários níveis à Escola Superior de Estudos Náuticos de Sagres e como podemos verificar também obtinha vantagens deste protocolo.
Em 1437, participou na infeliz expedição a Tânger e na conquista de Alcácer Ceguer, em 1457. Será denominado o Navegador e assim ficará conhecido na História portuguesa e universal.
No dia 20 de Maio de 1449, na crise que culminou na batalha de Alfarrobeira, o Infante D. Henrique esforçou-se por defender o irmão, Infante D. Pedro, em Santarém; mas em Alverca, respeitando a autoridade do sobrinho e rei, manteve uma atitude passiva ao lado do rei, D. Afonso V. (OLIVEIRA M. A.; 1990; pp. 221, 266, 275.)
Em 1449, em Alfarrobeira, morre o Infante D. Pedro na batalha, já sem a regência. Quando D. Pedro deixa a regência vai viver para o seu ducado de Coimbra, mas parece estar em graves dificuldades financeiras. Surge um conflito familiar entre D. Pedro e o casal real, mas era ao rei que cabia todas as decisões da Coroa.
Há um momento em que D. Pedro se recusa a cumprir uma ordem de D. Afonso V, receoso de cair nas mãos dos seus adversários, conselheiros do rei. O Infante D. Henrique intervém em Santarém e o conflito parece resolver-se. D. Afonso V chama à corte D. Afonso, Duque de Bragança e D. Pedro, Duque de Coimbra, para que o conflito entre os dois ficasse resolvido de vez. D. Pedro nega passagem ao Duque de Bragança quando este tenta passar por Coimbra para chegar à Corte em Lisboa. D. Pedro decide ir pedir justiça ao rei, seguindo à frente dos seus 6000 homens de armas. O rei prepara-se para tudo, pois Portugal não pode ficar dividido. O rei avança com muitos mais homens contra o tio. O tio, D. Pedro, vê-se perseguido, insultado no caminho pelos soldados do rei e consegue mandar matar cerca de trinta, sendo um deles, fidalgo da Casa do Infante D. Henrique. Em Alfarrobeira, os homens de armas de D. Pedro e do rei com o Infante D. Henrique estão frente a frente. Os soldados do rei começam as escaramuças e D. Pedro manda disparar as bombardas. Muitos dos homens de D. Pedro abandonaram-no antes da batalha e D. Pedro morre a lutar.
Dos vários testemunhos que ainda existem sobre o Infante D. Henrique, transcrevo o que encontrei na Crónica do Senhor José Paula Borba «LAGOS esta cidade que eu amo ...» no jornal CORREIO de LAGOS n.o 244 de Novembro/Dezembro de 2009: texto "(...) relatado pelo navegador Diogo Gomes que também era um fiel servidor da Casa do Infante.
«No ano do Senhor de 1460, o Senhor Infante D. Henrique adoeceu na Raposeira que fica perto do Cabo de S. Vicente, do que morreu a 13 de Novembro do dito ano, numa quinta-feira. E naquela noite em que morreu, levaram-no para a Igreja de Santa Maria (da Graça), na Vila de Lagos – Vila do Infante, onde foi sepultado honrosamente. E o rei, o Afonso (V) estava então na cidade de Évora e ficou muito triste com o seu povo pela morte de tão grande senhor; porque todos os rendimentos que tinha e tudo o que provinha da Guiné gastava em guerra e em contínua armada no mar contra os sarracenos, pela fé cristã. No fim do ano, o rei Afonso mandou-me chamar, pois continuamente eu ficara, por mandado do rei, em Lagos, junto do corpo do Infante, dando o que era necessário aos sacerdotes que se empregavam em contínuas vigílias e no Ofício Divino e mandou que eu visse e examinasse se o corpo do Infante estava putrefacto porque queria trasladar os ossos dele para o Mosteiro, realmente formosíssimo, que se chama Santa Maria da Batalha, que seu pai, o rei D. João I, edificara com frades da Ordem dos Pregadores. Eu, com efeito, chegando ao corpo do defunto, descobri-o e encontrei-o seco e integro. E encontrei-o cingido por cilício áspero de sedas de cavalo; pois bem canta a Igreja: non dabis sanctum tuum videre corruptionem (não permitirás que o teu santo sofra a corrupção). O qual Senhor Infante até à morte permaneceu virgem e fez em sua vida muitos benefícios que seria muito extenso contar. Então, o rei mandou ir o seu irmão Senhor Infante D. Fernando, duque de Beja e os bispos e condes afim de levarem o corpo até ao Mosteiro da Batalha supradito, onde o rei esperava o corpo do defunto. E foi posto o corpo do Infante na capela formosíssima e grande que o seu próprio pai, o rei D. João I fizera, onde o mesmo rei jaz com sua esposa D. Filipa, mãe dele e cinco irmãos do mesmo, dos quais todos louvável memória haverá até à eternidade. E descansam em santa paz. Amem.»
Para terminar esta evocação, não posso deixar de incluir o belo soneto do nosso poeta Vieira Calado.
Baía e Infante D. Henrique
Na curva inolvidável da Baía
que ao mar bravio roubou o Bojador,
paira a sombra fantástica vigia
desse Infante que foi navegador.
Pega a bússola, a régua, a fantasia,
arrasa velhos mitos sem temor
e em Lagos e em Sagres dia-a-dia
faz argonauta o sábio e o pescador.
Desencobre dos mares os segredos
e no abismo dos mitos derradeiros
desfaz em clara luz p'rigos e medos.
E tu, Lagos, berço dos marinheiros,
és a própria figura do Infante
que ao Mundo mundos deu, mais adiante.❐
mailto:eu.maria.figueiras@gmail.com

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