terça-feira, 19 de outubro de 2010

Século XV - Lagos Henriquina e pós-Henriquina (V)

Mais uma vez venho partilhar convosco este meu trabalho – LAGOS, Património e Vida – com o terceiro livro " Século XV - Lagos Henriquina e pós-Henriquina" que começou a ser escrito a 02 de Novembro de 2009 e concluído a 10 de Agosto de 2010 que gostaria muito de vê-lo publicado em livro.
LAGOS – PATRIMÓNIO E VIDA
Livro III – Século XV - Lagos Henriquina e pós-Henriquina
CAP V – A Segunda Dinastia e o Renascimento
A segunda dinastia portuguesa inicia com ela um novo sistema político e um novo paradigma – o RENASCIMENTO.
Quando tomou posse, D. João I voltou a restabelecer as contias. O número de nobres com assento no Conselho Régio aumentou muito; a Casa dos Vinte e Quatro deixa de existir na prática e só se volta a falar dela no reinado seguinte, de D. Duarte, para lhe restringir a intervenção na governação municipal e a sua intervenção acaba por ser proibida, com excepção de Lisboa.
Raras vezes na História de Portugal e Universal se terá reunido tão extraordinário grupo de personalidades do mesmo sangue na mesma geração. É a inteligência, a cultura, a virtude, os valores morais que fazem de cada um, modelo difícil de imitar. É a unidade moral dos Infantes que mais impressiona o observador.
Vê-se nos Altos Infantes o surgimento de novas formas de ser, estar, julgar, sentir, actuar, rezar. Com eles a escrita passa para primeiro plano da intercomunicação e interioriza-se, faz-se confidente das pessoas. É recíproca. Estes irmãos só estão contentes a escrever uns aos outros. Até nos dias de gravíssimos cuidados como da preparação da resistência ao que parecia ser a invasão iminente (1418), D. Duarte proclama que é possível aproveitar todos os momentos mortos para ir elaborando uma obra. É a permuta franca e alegre dos saberes, das reflexões, das técnicas. Dão e recebem conselhos, ideias, sugestões, ... entre si, entre familiares, amigos laicos e eclesiásticos. Esta família vive em profundidade a fé que professa. São leigos, mas pertencem à Igreja. Podem tomar iniciativas, sugerir esquemas de sermões, aconselhar os chefes responsáveis, estender até às camadas mais profundas da sociedade e a todos os problemas da vida a mensagem cristã – doutrinária, litúrgica, ética, sacramental e reciprocamente. É o advento do laicismo católico.
É importante recordar que, com esta família real - D. João I, D. Filipa e Infantes – se passa a viver e a desenvolver em Portugal uma nova forma de estar, de viver, de fazer, ... mas que não é única na Europa; vários países encetaram esta nova forma de viver – o Renascimento.
Como se identifica o Renascimento?
O Renascimento surge no século XV, portanto, em Itália e é consequência de uma abordagem completamente nova e diferente de posicionar e questionar tudo.
Até esta altura, colocava-se Deus no centro do mundo, culpando-o de tudo e fazendo tudo depender d'Ele. Agora, faz-se uma viragem de 180º e passa-se a colocar o homem no centro do mundo, senhor independente e livre de Deus, crendo apenas em si próprio e no material e negando a existência do imaterial.
Os principais focos de difusão da cultura renascentista foram as cidades da Flandres (Holanda), Paris na França, Oxford e Cambridge (Inglaterra) e Vitemberga (Alemanha).
O nobre da época medieval era ignorante das leis porque se considerava acima delas, era hostil ao bem comum e apenas se ocupava dos seus interesses, entregando-se aos prazeres. Odiava o saber, a independência e a verdade, troçava do interesse público e possuía como única lei a cobiça e o egoísmo.
Pretendia-se que o homem da nova era aprendesse línguas com perfeição, principalmente o grego, o latim; o hebraico para estudar as Sagradas Escrituras e também o caldeu e o árabe. Também deveria ser do seu conhecimento a Natureza – mares, rios, peixes, aves, árvores, ... e, acima de tudo, conhecer-se a si próprio perfeitamente, a parte material do homem, que veio a desenvolver imenso a medicina. Leonardo da Vinci (século XVI) escreve que a experiência ensina-nos que a Natureza procede o Raciocínio e que há que começar pela experiência para descobrir a lei, enquanto que até então, o saber baseava-se no ensino e comentário dos livros e opiniões dos sábios antigos sem manifestar ou deduzir qualquer opinião crítica.
Também até ao século XV, o oceano foi barreira intransponível para os europeus. A partir do século XV, o oceano abre-se à navegação, dá origem a uma nova visão global, proporcionando a hegemonia da Europa sobre o mundo. É o século das grandes viagens marítimas e com elas a descoberta de novos mundos com outros climas, outras gentes, outras culturas, outras faunas e outras floras que surpreendem e entusiasmam os europeus.
No século XV, faz-se o reatamento metódico da tradição dos antigos périplos por iniciativa de genoveses e devido ao esforço dos portugueses para conhecer as rotas oceânicas por motivos religiosos, curiosidade científica e motivos comerciais. Sábios, náuticos e cartógrafos de todo o mundo acorrem a Portugal.
Os portugueses contribuíram bastante para a ciência e para a geografia da época com destaque para a Náutica, Ciências Naturais, Astronomia, Matemática, Geografia e Medicina. Eles provaram que, orientando-se pelo sol e estrelas, era possível a navegação em alto-mar, longe da costa; também era possível alcançar a Índia pelo Sul da África e que existia uma massa continental para lá do Atlântico. Também provaram que, pelo Sul da América também se chegava à Índia e provaram, sobretudo, o que até então não se afirmava ou até se negava com base nas Sagradas Escrituras: que os oceanos tinham continuidade, que a Terra era circum-navegável, que existiam novas plantas e frutos (batata, milho, feijão, abóbora, tomate, tabaco, ...) e que existiam novos animais, que existiam outros povos, outras civilizações, outras culturas.
Quanto à Escola Superior de Estudos Náuticos, situada na Fortaleza de Sagres era regida pelos princípios do Renascimento, da Idade Moderna. Tinha os melhores Mestres da Europa em Cartografia, Geografia, Astronomia, Desenho, Correntes Marítimas, ... e tinha os estudantes (futuros capitães de navios) mais interessados do mundo europeu porque era um ensino baseado no conhecimento destes mestres, mas também baseado num conhecimento empírico adquirido in loco de todo o ambiente de mar e terra que os rodeava em Sagres onde podiam presenciar o que estudavam – o mar, correntes, aves, estrelas, ventos, os próprios navios ... fazer deduções e chegar a conclusões com os seus mestres; participavam no trabalho de atualização dos seus mestres cada vez que chegavam navios de alguma expedição com novidades e embarcavam nos navios, fazendo estágio. Assim era o novo tipo de ensino a que o Renascimento se propunha. O aperfeiçoamento deste sistema de ensino viria com a prática.
Já agora, a raiz etimológica de Sagres é SACRUM (latim que significa "sagrado"): Promontorium Sacrum assim designavam os romanos aquele lugar.
Várias foram as causas que possibilitaram e desenvolveram os Descobrimentos Portugueses. Temos:
- de ordem técnica e tecnológica
uso da caravela – barco veloz e seguro, próprio para navegar no alto-mar que utilizava a vela latina ou triangular que permite navegar contra o vento (à bolina);
uso do leme central – saliente da quilha;
uso da bússola ou agulha de marear - que possibilita a navegação de alto-mar em vez da cabotagem costeira;
uso do quadrante – que possibilita a localização em alto-mar pela medida da altura dos astros;
uso do astrolábio – que possibilita a localização pela observação dos astros;
uso de portulanos – cartas que vêm substituir os velhos périplos, já usadas por italianos e catalães e concebidos por almirantes e capitães genoveses. A sua construção baseava-se em medições feitas à bússola com um minucioso sistema da rosa-dos-ventos e de rumos que se cruzavam por todo o mapa. Normalmente, eram feitos de pele de carneiro e, regra geral, representavam sempre a mesma zona: Mar Mediterrânico, Mar Negro e Oceano Atlântico.
A invenção da imprensa – que possibilita a publicação de mapas e cartas e que difunde a ciência grega, a geografia de Ptolomeu.
de ordem geográfica
1. o papel importante dos ventos alíseos no encontro de várias terras quer no continente africano quer na América do Sul.
- de ordem científica
1. a influência da ciência grega e da obra de Ptolomeu.
- de ordem comercial
1. a procura de novas rotas para o comércio com o Oriente.
- de ordem religiosa
1. converter à fé cristã os novos povos a encontrar e alcançar o reino cristão de Prestes João (Etiópia) são motivos que estimulam a participação da Santa Sé e que a levam a apadrinhar os Descobrimentos.
Na Idade Média (Medieval), a ciência (conhecimento) fazia uso das deduções lógicas filosóficas – do geral para o particular. Elaboravam-se premissas para chegar a uma conclusão lógica.
Com o Renascimento surge uma nova maneira de pensar que se vai desenvolvendo. O inglês Bacon destaca-se apadrinhando o Empirismo e o alemão Kant – professor universitário de Geografia e filósofo (século XVIII) – cria e desenvolve o Racionalismo, ambos atacando o pensamento medievo. Destas duas perspectivas surge a Ciência Positiva de base científica que descreve os fenómenos como realmente são e não como devem ser, obedecendo a leis.
O Empirismo tem a sua origem na experiência do dia-a-dia e na intuição dos sentidos. Trata-se de um saber que vai passando de geração em geração; é subjectivo, heterogéneo, natural, espontãneo e prático e assenta na imaginação e na tradição.
O Racionalismo ou Formalismo afirma que todo o saber vem do raciocínio e não da experiência e por isso a Ciência é racional. A ciência não é estática e por isso pode ser revista porque é formada por conceitos dinâmicos que podem enriquecer-se, adquirir precisão e até substituir-se, devido à criatividade pessoal e às necessidades sociais que se conjugam, orientando-se por uma tecnologia inovadora. A ciência é uma verdade crescente e evolutiva; é um conjunto de conhecimentos, de factos e de teorias resultantes desta motivação e um processo que relaciona factos e teorias.
A explicação passa a ser a preocupação máxima de qualquer cientista, pois fornece respostas a questões levantadas através da nossa experiência, chegando a conclusões dedutivamente baseadas em teorias e/ou leis. A explicação implica a previsão. Uma e outra organizam-se simetricamente: a explicação aplica o método científico ao passado e a previsão aplica o método científico ao futuro.
São estes novos tempos que o Infante D. Henrique tem oportunidade de inaugurar.❐ (continua)
mailto:eu.maria.figueiras@gmail.com

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