quinta-feira, 16 de junho de 2011

Convento Nossa Senhora da Glória

A história do Convento de Nossa Senhora da Glória


Lagos, 12 de Agosto de 2005



Dentro de dias, exactamente dia 15 de Agosto, celebra-se em Lagos a Festa de Nossa Senhora da Glória que coincide com a celebração da Assunção de Nossa Senhora. Acontece que estava a folhear os meus livritos à procura de algo que me lembro ter lido em tempos e agora queria transcrever e encontro a Lenda da Nossa Senhora da Glória e é ela que vou transcrever do livrinho do professor Crisanto Correia Curiosidades da Nossa Terra – LAGOS editado pelos Bombeiros Voluntários de Lagos em 1977.



Assim temos:

“Dezembro de 1708! Dir-se-ia que o Céu quis dar a Lagos valiosa prenda de Natal!

Não quereis conservar na memória das gerações vindouras a história prodigiosa de Nossa Senhora da Glória?...

... Em 1518, D. Fernando Coutinho, bispo de Silves, mandou construir o Convento de Nossa Senhora do Loreto, em Lagos, que ofereceu ao rei D. Manuel para os franciscanos da Província da Piedade.

Como este convento se achava situado nos terrenos insalubres do Rossio de S. João de Lagos, os frades viram-se na necessidade de o transferir para a parte mais alta da cerca em 1560 e passaram a designá-lo por Convento de S. Francisco espalhando a devoção ao seu Santo Protector. No capítulo XXIII da Crónica da Província, escrita por Frei Manuel de Monforte até 1693, se acham registadas as muitas graças obtidas em Lagos por intercessão de S. Francisco.

Foi à portaria deste convento que, na manhã de 24 de Dezembro de 1708, chegaram desconhecidos, interrompendo o Ofício de Natal, para avisar aos frades que fossem buscar uma imagem de Nossa Senhora dada à costa na Praia de S. Roque, actualmente, popularmente conhecida por Meia-Praia. A pressa com que se retiraram, sem mais explicações, lançou a dúvida no espírito do guardião do convento, que se negou a sair. Porém, movido pela curiosidade ou por secreto pressentimento, acabou por se dirigir, com outro frade, para a Praia de S. Roque, frente à cidade. Apressaram o passo, vendo que muitas pessoas para lá se dirigiam, enquanto na praia já enorme multidão se concentrava.

Rugia o mar encapelado pela invernia e ao seu marulhar se juntavam as preces dos devotos, ajoelhados em torno de uma caixa de grandes dimensões. Aproximaram-se os religiosos, certamente a custo e os seus olhos ficaram maravilhados ante o conteúdo da misteriosa caixa.

Uma enorme imagem de Nossa Senhora, de extraordinária perfeição, esculpida com toda a magnificência da época de D. João V e cuja maravilhosa pintura, talvez por vir coberta de folhas secas, as águas em nada danificaram.

Trazia três anéis de brilhantes, segundo um manuscrito encontrado, mas hoje o seu paradeiro é totalmente desconhecido, pois nem mesmo na relação das pratas, paramentos e utensílios do convento se achavam registados.

Sobre a cabeça, pesada coroa de prata trabalhada, que dois anjos alados simulavam suster. Servindo de ceraferários, dois outros anjos de maiores proporções.

Tendo apreciado tal tesouro e venerado a Virgem Maria juntamente com a multidão que aumentava de instante a instante, os frades providenciaram no sentido de tudo ser transportado para o seu convento, Convento de S. Francisco.

Que poder misterioso trouxera a Lagos tal obra de arte, de tanto valor espiritual e não só?...



2ª Parte



Quando se encontravam próximo da cidade, os religiosos foram detidos pelo prior e clérigos da Colegiada de S. Sebastião. Correndo já em Lagos a notícia do prodigioso aparecimento, estes apressaram-se a reclamar a posse da imagem, visto que a Praia de S. Roque estava dentro da sua freguesia.

Os franciscanos bem testemunhavam terem sido os primeiros a saber e a preparar a condução da imagem para a cidade, mas não conseguiam vencer a discussão. Esta mais calorosa se tornou quando, chegando o prior da igreja de Santa Maria da Graça, alegou a importância e direitos da sua igreja por ser a matriz de Lagos.

Exaltaram-se os ânimos; exacerbou-se a discussão e, quando deram por si, viram-se sós. O povo, indiferente às suas exaltações, lentamente, muito lentamente, transportara a grande caixa para o convento.

Então, com a autoridade de que se considerava, o prior de Santa Maria da Graça mandou ir ao convento uma carreta e renovou os seus direitos. Os bois, impedidos por estranho poder, pouco se moviam. Espicaçados e fustigados pelos paroquianos de Santa Maria da Graça, conseguiram andar razoavelmente enquanto foi mau o caminho. Porém, ao chegarem a terreno bom e plano, uma roda da carreta quebrou-se e impediu o prosseguimento. O povo, que nunca deixara de estar presente onde estava Nossa Senhora, gritava:

- Nossa Senhora quer ficar no convento!

E pelo poder da multidão furiosa, Nossa Senhora regressou ao convento, onde ficou depositada, sendo alvo de ininterrupta veneração dos fiéis.

Só então, dias após, os dois desconhecidos voltaram a aparecer e confessaram aos frades que naquela madrugada saíram, esperando recolher algum despojo que o vendaval tivesse trazido à costa, como de costume faziam. O despojo fora aquela caixa que flutuava e viera direito à praia, apesar do seu peso.

Porém, não convencidos, os priores da cidade levantaram questão e apresentaram-na a Sua Majestade, pelo que os frades, em busca de protecção, expuseram o ocorrido ao seu procurador, que residia no hospício do Duque de Bragança.

Foi nesta altura que o Duque de Bragança recebeu os oficiais de uma frota acabada de chegar do Rio de Janeiro, entre os quais vinha Manuel da Rocha Lima, capitão de uma nau que a enorme tempestade, ocorrida no dia 21 de Dezembro, fizera naufragar junto à barra do Tejo e que ele se salvara, com dois companheiros, agarrados a um madeiro e sempre suplicando a protecção da Mãe de Deus, vindo dar à Vila Nova de Mil Fontes. Por dizer que nessa nau trazia uma imagem de Nossa Senhora da Glória, o procurador pediu insistentemente ao Duque que consentisse que o capitão narrasse pormenorizadamente quanto sabia.

Este concordou e o capitão contou que, no Rio de Janeiro, embarcara um homem, chamado António Caminha, que dissera conduzir naquela enorme caixa uma imagem para oferecer a D. João V, confiando que este mandaria construir uma capela a Nossa Senhora da Glória, na Junqueira. Momentos antes da partida, as autoridades civis tinham subido a bordo para deter o passageiro e a nau largou com a estranha bagagem, mas sem o seu dono.



3ª Parte



A narrativa do capitão da nau Falcão despertou tal interesse, que logo o Duque de Bragança escreveu para o Brasil, solicitando as mais preciosas informações sobre António Caminha e a sua imagem.

Dois anos de curiosa expectativa decorreram até que ao Duque chegou a seguinte notícia:



“Numa ermida erguida a um quarto de légua do Rio de Janeiro, era venerada, com muita devoção, a pequena imagem de Nossa Senhora da Glória, eleita pelo coração do povo, sua padroeira. Ali testemunhava o seu amor a Maria, com piedosas romarias e pomposas solenidades.

Envergando o hábito de S. Francisco, a este local chegou um dia, o escultor português António Caminha. Tinha em seu propósito esculpir uma digna imagem de Nossa Senhora que, querendo Deus pudesse voltar a Portugal, ofertaria a D. João V. Passaram-se os anos, sem que se sentisse apto a executar o trabalho maravilhoso que a sua mente concebera ou encontrasse quem o soubesse ajudar. Por fim, desesperançado, meteu mãos à obra. Embrenhou-se na floresta, escolheu a árvore propícia e dispunha-se já a desbastar o tronco, quando dois rapazes desconhecidos o interrogaram sobre os seus planos e, dizendo-se escultores, se ofereceram para com ele colaborar. Uma vez terminado o conjunto escultórico, os dois rapazes desapareceram misteriosamente, quando António Caminha lhes quisera pagar o trabalho.

E enquanto esperava amealhar o suficiente para regressar à Pátria-Mãe, colocou a imagem de Nossa Senhora na já citada ermida. A substituição da pequena imagem por esta, tão perfeita e bela, aumentou a devoção do povo.

Até que um dia, quase inesperadamente, António Caminha teve oportunidade de regressar a Portugal e fez embarcar na nau Falcão o seu precioso tesouro. Os fiéis, considerando um roubo tal atitude, queixaram-se às autoridades, que detiveram o escultor. Este ficou, mas a imagem partiu rumo às terras de Santa Maria.”



As contendas em Lagos só terminaram com o seguinte documento, emanado da corte após as notícias vindas do Brasil e que ficou autenticado e conservado na Junta de Paróquia da Freguesia de S. Sebastião:



“Sua Majestade, que Deus guarde, tendo em consideração o que V. Exa. apresentou, foi servido dar ao Convento dos Religiosos da Província da Piedade da Cidade de Lagos a imagem de Nossa Senhora da Glória que, vinda do Brasil, deu à costa na Praia de S. Roque da mesma cidade, visto V. Exa haver depositado a dita imagem no convento dos mesmos religiosos. Deus guarde V. Exa.



Paço, 17 de Fevereiro de 1714

Diogo de Mendonça Corte-Real





- Exmo. Sr. Marquês D. Manuel de Castro

Reconheço que a assinatura ao pé da carta acima é de Diogo de Mendonça Corte-Real, assim o certifico e dou fé.



Lagos, 19 de Agosto de 1714

Eu, Luís Rebelo de Morais, tabelião, que o subscrevi.”



4ª Parte



Para testemunhar o seu regozijo, os frades mudaram então o nome do seu convento para Convento Nossa Senhora da Glória.

Dir-se-ia que a devoção à Mãe de Deus recrudesceu e o convento tornou-se o centro de oração de devotos vindos, não só das mais longínquas províncias portuguesas como até de terras de Espanha.

Correu fama dos numerosos milagres operados por intercessão de Nossa Senhora e ocorre-nos mencionar aqui dois, registados no único livro que se conhece sobre a história desta imagem:



1º - Um aleijado, impossibilitado de ganhar o pão para os seus familiares, em vão procurava remédio nas águas de Monchique. Tendo chegado ao seu conhecimento tais milagres, pediu que o levassem à Igreja de Nossa Senhora da Glória de Lagos. Após as suas fervorosas orações, sentiu-se completamente curado.



“Fui, então, firme em meus pés, oferecer à minha Benfeitora as minhas muletas, visto que a minha pobreza não permitia fazer-lhe outra oferta.”



2º - Ao conhecer este facto, um médico de Portimão, que tinha uma filha de cinco anos, muda e aleijada de pés e mãos, trouxe-a ao convento e colocou-a junto da imagem, enquanto ele e sua esposa se recolheram perto das grades que dividiam a igreja das capelas. A sua piedosa concentração foi interrompida minutos depois pela própria filha que, para eles, corria e apontando para a imagem, exclamava:



- Ali está a Mãe! Ali está a Mãe!



Tal foi o pranto comovido destes pais agradecidos que os frades, ouvindo, correram à igreja e juntamente com eles cantaram ao Céu Acção de Graças.”



Foi então constituída uma confraria pelos nobres e pelo povo e a Câmara dava-lhe o produto das multas por transgressão de posturas municipais que rendiam por ano trezentos mil réis.

Com estes rendimentos e os donativos dos fiéis que acorriam às grandes festas que se realizavam em 15 e 16 de Agosto, a confraria mandou construir, na capela-mor, uma tribuna formada por colunas com capitéis e entalhamento de ordem coríntia, sustentando formosa cúpula de talha dourada.

A afluência de gente era tal nos dias da grande festa que foi a origem da Feira de Nossa Senhora da Glória que permaneceu até aos nossos dias.

O conhecimento deste glorioso prodígio levou o Papa Bento XIII, por um Breve, hoje desaparecido, a autorizar que se fizesse a Exposição nas mãos de Nossa Senhora da Glória.



5ª Parte



Em 1833, sofria Lagos o embate dos partidos políticos – a guerra civil. Perpetravam-se crimes, viviam-se momentos de angústia, cruzavam-se armas e a cidade estava cercada pelos homens do Remexido.

Por isso o governador e eclesiásticos compareceram à sessão municipal de 9 de Outubro, estudando a maneira de salvarem da luta quanto havia extramuros, nomeadamente o abandono e recolha das imagens do Convento de Nossa Senhora da Glória.

Para tal efeito, foi constituída uma comissão presidida pelo prior de Alvor, Francisco Valério e a Câmara solicitou a concorrência e ajuda de todos os assalariados e do povo.

Cuidadosamente preparada, fizeram os lacobrigenses uma sortida sobre os sitiadores no dia 11 de Outubro, obrigando-os a retirarem-se para uma distância maior o que deu oportunidade ao povo de ir ao convento buscar as imagens e alfaias, conduzindo-as para a igreja mais próxima, a de S. Sebastião.

Diz-se que, para tornar mais fácil o transporte, foi cortado um bocado da peanha de Nossa Senhora da Glória, que ficou numa tribuna forrada de seda.

Nesses dias de aflitivo receio, acorria muita gente à igreja de S. Sebastião, suplicando a Nossa Senhora a protecção divina para os que defendiam a cidade e suplicando também a graça da ansiada paz.

Ante tais manifestações de fé e crentes no auxílio de Deus que não esquece os que O invocam, as autoridades civis e militares determinaram que se fizesse uma grande festa em honra de Nossa Senhora da Glória, com exposição do Santíssimo Sacramento, sermões e procissão com a imagem. Foi assim que no dia um de Novembro de 1833, a imagem de Nossa Senhora da Glória percorreu, pela primeira vez, as ruas principais da cidade aos ombros de dez homens fortes, um dos quais Baptista Xavier, que preferiram ficar com os ombros ensanguentados a se deixarem substituir.

Nessa tarde o comércio fechou as suas portas e na procissão incorporaram-se, indistintamente, todas as classes sociais e as forças armadas numa tal manifestação de fé que “durante todo o percurso não se viam olhos enxutos e o respeitoso silêncio só era interrompido pelos soluços e algumas vezes pelos versos do cântico Te Deum.”

Assim ficou a imagem de Nossa Senhora da Glória na igreja de S. Sebastião.



6ª Parte



Extintas as ordens religiosas em 28 de Maio de 1834 e retirando-se os frades da cidade, o convento (como tantas vezes tem acontecido ao património religioso de Lagos) sofreu a incúria dos homens, quase sempre mais devastadora do que a própria acção dos tempos. Subsistem muitas das suas paredes – actual posto da Guarda Nacional Republicana – porém, diz-se que logo a igreja do convento foi profanada, desguarnecida dos seus ricos azulejos, apeadas cantarias e até muitos livros e papéis da sua valiosa biblioteca “foram vendidos a peso às mercearias e outras lojas para servirem de invólucros.”



Também a Igreja de S. Sebastião chegou a tal estado de ruína que foi mandada encerrar, funcionando então a paróquia na Igreja de Nossa Senhora do Carmo, das freiras carmelitas durante o restauro da igreja de S. Sebastião.

O restauro da igreja de S. Sebastião, que decorreu de 1858 a 1860, foi feito à custa do negociante e proprietário de Portimão, Luís António Maravilhas. Cremos ter sido a partir desta data que a imagem de Nossa Senhora da Glória ficou na capela-mor da igreja de S. Sebastião, donde uma única vez teria sido retirada temporariamente quando, há poucos anos, o prior José António Monteiro autorizou que fosse feita uma reprodução para ser venerada na cidade do Rio de Janeiro.



Qual fénix renascida das próprias cinzas, as ruínas do convento ainda voltaram a ser casa de caridade e oração pois, por decreto de 4 de Janeiro de 1897, foram cedidas à Junta da Paróquia de S. Sebastião para a fundação de um asilo para inválidos e em 10 de Outubro de 1899 para este antigo convento de Nossa Senhora da Glória vieram as Irmãs Franciscanas Missionárias de Maria. Esta iniciativa foi devida à apóstola do bem Exma Sra. D. Maria Cândida Veloso Azevedo Coutinho, auxiliada pelo padre Manuel José Barros, prior de S. Sebastião, guardião de Nossa Senhora da Glória e intérprete fiel de uma tradição que se mantinha viva.

Foi assim que em 1903, surgiu a publicação Nossa Senhora da Glória e o asilo dos velhinhos, depois de posta à consideração da eminente figura da Igreja, D. José III, cardeal patriarca, de nome completo D. José Sebastião Neto, nascido em Lagos, a 20 de Janeiro de 1841 e que estudara no Seminário de Faro e, depois de ter sido Bispo de Angola e Presidente do Conselho Governativo de Angola, ascendera a Cardeal Patriarca de Lisboa a 9 de Agosto de 1883 e aprovou a dita publicação e compôs uma oração que a seguir transcrevemos:



“Havemos por bem autorizar a publicação da origem da devoção a Nossa Senhora da Glória cuja imagem se venera na igreja paroquial de S. Sebastião da cidade de Lagos, no Algarve e bem assim os favores e graças que da mesma Senhora a tradição conta em benefício dos seus fiéis devotos por todo o reino e fora dele, mas particularmente na cidade de Lagos, onde se conserva viva a fé e devoção a esta mesma Senhora; o que fazemos para honra e glória de Deus e de Sua Santíssima Mãe, assunta ao Céu e nele glorificada acima de todos os coros angélicos.



Lisboa, 20 de Julho de 1903

José, Cardeal Patriarca”





ORAÇÃO



“Ó Nossa Senhora da Glória, a Vós, a quem os algarvios nunca invocaram em vão, venho hoje, com toda a confiança, implorar novas graças de Vossa inestimável clemência.



Conservai para sempre ao Vosso tão querido Portugal Vossa misericordiosa ternura e obtende para nós o perdão dos nossos pecados que Vos entregamos sinceramente. Dai-nos um amor generoso para com o Vosso Divino Filho e concedei a Vossa particular protecção a todos os corações que Vos invocarem em todos os dias das suas vidas e sobretudo quando aparecermos diante de Deus à hora da morte. Assim seja.



Aprovada com cem dias de indulgência a quem recitar esta oração acrescentando-lhe uma Avé, Maria pelas necessidades espirituais e temporais do reino de Portugal.



José, Cardeal Patriarca”





7ª Parte



Eu, professor Crisanto Correia, escrevi uma carta ao Senhor Bispo do Rio de Janeiro no dia 16 de Fevereiro de 1974 solicitando penhoradamente que me informasse em que ano fora feita a reprodução da imagem de Nossa Senhora da Glória e o nome exacto da igreja onde é venerada.

Passaram-se meses e, por mais estranha que pareça esta coincidência, o certo é que, no dia da vigília da festa de Nossa Senhora da Glória, dia 14 de Agosto, recebi o livro Uma imagem de Nossa Senhora da Glória, edição do Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 1942, acompanhado da seguinte carta datada de 6 de Agosto de 1974 em papel com o timbre da Arquidiocese de S. Sebastião, Rio de Janeiro:



“Prezado Crisanto



em resposta à sua carta ao Cardeal-Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Eugénio de Araújo Sales, solicitando alguma informação sobre Nossa Senhora da Glória, segue, anexo um opúsculo com os devidos informes.



Cordialmente em Cristo

Padre Dionel Amaral”



O livro contém a palestra realizada pelo Desembargador Edgard Costa, Vice-Provedor da Imperial Irmandade de Nossa Senhora da Glória do Outeiro, por ocasião da inauguração, no nicho exterior da igreja no dia 9 de Agosto de 1942, da cópia da imagem de Nossa Senhora da Glória, venerada na cidade de Lagos, Portugal.

Por ele ficámos a saber mais os seguintes pormenores:

Já em publicação feita em Lisboa no ano de 1718 (data bem próxima dos acontecimentos), ficara escrita a história desta imagem no volume sexto da obra preciosa e rara Santuário mariano e história das imagens milagrosas de Nossa Senhora e das milagrosamente aparecidas que se veneram no Arcebispado de Évora e nos Bispados do Algarve e Elvas, seus sufraganeos, da autoria de Frei Agostinho de Santa Maria, Vigário Geral da Congregação dos Agostinhos Descalços, novamente narrada com alguma alteração no tomo X e último desta obra, mas só surgido em 1723.

Em 1940, a Administração da Irmandade, em colaboração com o Serviço do Património Histórico e Artístico Nacional, “procedeu a obras de restauração da igreja à sua feição primitiva, surgindo a ideia de ser colocada no nicho exterior, que estava fechado e fora aberto, uma imagem de Nossa Senhora da Glória do Outeiro, contanto que se tratasse duma imagem antiga.”

O director daquele Serviço contactou com o director do Museu de Lagos, o nosso saudoso Dr. Formozinho, que levou a sugestão ao prior de S. Sebastião; o Provedor Thiers Fleming solicitou o auxílio do embaixador do Brasil em Portugal, Dr Araújo Jorge.

É porque a imagem autêntica seria impossível, a perfeitíssima réplica, por moldagem directa, foi executada pelo escultor João José Gomes, director da Escola Industrial de Silves. Em 9 de Julho de 1942, chegou ao Rio de Janeiro, a bordo do navio Bagé, anexada à bagagem do ministro Gastão Paranhos do Rio Branco, mas devido a mau acondicionamento, com ligeiras danificações, plenamente reparadas na Casa Sucena.

Finalmente, perante altas individualidades e muitos devotos, procedeu-se à inauguração e bênção da imagem, a 9 de Agosto de 1942, ficando esta no nicho-capela exterior dessa igreja onde, ao que parece, foi baptizada D. Maria da Glória (a nossa rainha D. Maria II), santuário luso-brasileiro onde reina a Salvé Nobre Padroeira que é Glória da nossa terra.”



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sábado, 14 de maio de 2011

Ermida de Santo Amaro

Sobre a ermida de Santo Amaro em Lagos




1325 – Segundo Mário Cardo, esta ermida já existia nesta data.

1448 – Esta ermida já aparece mencionada numa relação de templos de Lagos.

1617 – Esta ermida está localizada na Carta Geográfica de Alexandre Massay.

A ermida de Sto. Amaro não só assenta sobre rocha dura, mas é uma construção enterrada em parte numa encosta, dois factos muito importantes para diminuir os efeitos sísmicos. Essa rocha é um calcário fossilífero rijo que até serve para mós; mas também se encontra próximo grés amarelo. A diferença de resistência dos edifícios aos abalos (tremores de terra) não se pode explicar pela natureza do solo porque quase todos eles estavam edificados sobre rocha dura. Após o terramoto de 1755, em Lagos, só ficaram algumas casas térreas em pé na Porta dos Quartos, rua dos Homens do Mar e rua do Jogo da Bola.

De estudos efectuados concluiu-se que o terramoto foi mais intenso em Lagos do que em Lisboa. Também o número de mortes em comparação com Lisboa foi de 6100, isto é, o dobro da de Lisboa.

A ermida de Sto. Amaro está situada na mesma colina que a igreja de S. Sebastião e que a igreja Nª Sª da Glória, apesar da ermida estar um pouco mais acima.

Em torno desta ermida albergaram-se as pessoas que conseguiram escapar aquando da ocorrência do terramoto de 1755. Foi a única construção que ficou sem lesão, passando ali a celebrarem-se os ofí­cios religiosos e a ser a paróquia de S. Sebastião até à reconstrução desta igreja.

A população de Lagos que não morreu, deslocou-se, então, para a zona de Santo Amaro e ali construiu provisoriamente barracas de madeira e de colmo. A maior parte dos moradores de Lagos sobreviventes passaram a viver neste campo de Sto. Amaro nessas barracas, passando ali todo o inverno. Ficaram quase todos pobríssimos porque os seus bens móveis, uns foram enterrados nas ruínas, quebrados, desfeitos e perdidos; outros o mar os levou e outros os ladrões e os imóveis ficaram arrasados ou quase como foram as do capitão Simão Manuel de Villa Lobos e outros na praça.

Após alguns anos, apenas a quarta parte da cidade foi reedifi­cada, mas com menor esplendor e isto foi feito apenas para se livrarem dos incómodos das barracas e do rigor do tempo de inverno que padeciam nos campos e só o pagador geral da gente de guerra José Joaquim Ribeiro Riba as pôs em melhor estado do que antes o que verdadeira­mente é um palácio para a cidade.



Lagos, que já se chamou Laccobriga, foi pré-romana1 e pré-cartaginesa, sempre como uma cidade marítima em quatro colinas. A sua origem foi, não um castro, situado ou no Monte Moleão ou no sítio do Paúl, mas um povoamento disperso por todos estes arredores numa área de muitos quilómetros e o povoamento foi iniciado por Brigo em 1899 a.C.. Lagos foi destruída ou arrasada por terramotos e maremotos, e depois, por volta de 359 a.C. foi mudada para onde actualmente está localizada por Bohodes, capitão cartaginês.

Em 1650 grassa em Lagos a peste; Lagos é encerrada e fica isolada do restante território. Em 1755, Lagos fica novamente completamente destruída durante o terramoto e maremoto. É abandonada pelo seu governador e por parte do exército que se vão instalar em Tavira. Assim Lagos deixa de ser a capital do Algarve e a sua decadência é total. Há notícias de que este terramoto mudou as correntes marítimas em frente da costa, arrefecendo as águas e diminuindo a riqueza pesqueira existente. Abriu também várias bocas no rio que ficam cheias de água com a maré vazia e não se lhe acha o fundo.

A igreja de Sta. Maria ficou raza com o chão; a igreja de S. Sebastião ficou em pé, mas com bastante ruína; a igreja da Misericórdia ficou em pé, mas arruinada e foi a primeira que se consertou, pois foi para lá a colegiada de Sta. Maria; a igreja de S. Braz e a igreja de Porto Salvo também foram destruídas; a igreja de Sto. António dos soldados infantes ficou muito arruinada; a ermida do Espírito Santo ficou raza com o chão e também a ermida de Nª sª da Graça e também a ermida de S. Roque e também a ermida de S. Pedro e também a ermida de S. Lázaro e também a ermida de S. João Baptista e também a ermida de Sta. Bárbara dos soldados artilheiros e também o hospital dos soldados e também o convento de S. João de Deus e também o convento dos religiosos da Santíssima Trindade e também o convento das religiosas do Carmo e também o convento dos padres capuchos (franciscanos). O forte do Pinhão ficou muito demolido; a fortaleza da Ponta da Bandeira ficou arruinada; as casas da Câmara ficaram razas; a Casa da Vedoria Geral e da Guarda principal ficaram arruinadas e também a Cadeia da Cidade. Os edifícios maiores da cidade ficaram por terra assim como as muralhas todas.



Aconteceu assim:

No dia um de Novembro pelas nove horas e três quartos deu-se o terramoto, precedido de um forte trovão surdo e medonho e imediatamente se sentiu abrir todo o firmamento e a este tremor se seguiu pouca queda de edifícios, porém no tremor que se seguiu, todos os edifícios cairam por terra até os mais fortes e as pessoas que morreram debaixo das ruínas e das ondas julga-se serem mais de duzentas e cinquenta. Era a altura em que as pessoas estavam a sair da Igreja de Santa Maria no alto da colina, pois era a missa de Todos-os-Santos qure tinha começado às nove horas e era feriado. O mar elevou-se que parecia tocar as nuvens e todos os que viram fugiram para o campo. O mar subiu mais de trinta palmos, arrasou e incapacitou as hortas e foi levar os barcos a partes incríveis mais de meia légua pela terra adentro. A terra abriu várias vezes durante o tremor. O mar levou todos os móveis de muito valor, toda a prata, ouro, dinheiro, pipas de vinho, trigos, milhos e legumes, bibliotecas particulares, escrituras das fazendas e das casas e por não terem onde se recolher fizeram barraca em Sto. Amaro onde passaram a morar.



O hospital militar foi mandado construir em 1794 no terreno onde existiam os antigos paços do concelho, o hospital de S. João de Deus e a antiga torre do relógio. Junto ao hospital militar acha-se a igreja Nª Sª da Graça transformada em adega. A ermida do Espírito Santo foi transformada em taberna. Os terrenos das igrejas de Porto Salvo e de S. Braz passaram a armazéns de arrecadação do regimento militar. A sete de Maio de 1850 foi concedida à Santa Casa da Misericórdia de Lagos para aumentar as enfermarias, o terreno do que era o Palácio dos Capitães-Generais do Algarve e que se situava entre o hospital e o quartel. Em 1885 foi edificado no mesmo local um hospital civil. O convento dos padres capuchos fica extramuros a Norte da cidade e a sua igreja chamava-se Nª Sª da Glória. Nele instalou-se a Guarda Republicana. A igreja da Misericórdia passou a paróquia de Sta. Maria. O convento das freiras carmelitas passa a Casa de instrução e Educação pública.



A nove de Maio de 1821, nas Cortes o deputado Domingos de Mello expõe a decadência em que a cidade se encontra passados sessenta e seis anos do terramoto. Tendo este deputado nascido em Lagos afirma ter o direito e a obrigação de interceder pela cidade que já foi capital e que na altura se achava pobre e demolida; sem calçadas nas ruas principais e públicas; sem polícia; sujeita a moléstias contagiosas pela sua falta de limpeza em geral e em particular pela infecção das águas públicas, pela ruína e pelo abandono em que se achava o seu aqueduto.

Posto que nenhuma das cidades marítimas de Portugal tem uma baía tão bela, espaçosa e capaz como Lagos e aonde em todos os tempos as armadas nacionais e estrangeiras ali faziam escala para se refazerem de refrescos, carnes e da preciosa água que tem. O lastimoso estado em que estava o aqueduto reduzido, que em menos de mil passos geométricos conduz do seu nascimento a água à cidade, no momento só oferece a impossibilidade de fornecer qualquer gota de água. Ele está situado junto do rio da cidade e coberto muitas vezes pelas enchentes da maré que no inverno tem chegado a lançar pelas bicas do único chafariz que há, em lugar de água, lama, ervas e bichos que são introduzidos nas roturas pelas chuvas e marés. Assim durante o verão, esta mesma água, única de que se servem os habitantes, deve ser a causa de uma moléstia febril com indícios de epidemia. Só num dos últimos três anos morreram repentinamente perto de quatrocentas pessoas. O relógio público desapareceu durante o terramoto e até à data a cidade continua sem relógio público; o cais da cidade continua destruído e o mar arruina a cidade desse lado. Os moradores de Lagos continuam numa situação de miséria e sem possibilidades económicas. Lagos ainda não tem casas de Câmara. No entanto, os lacobrigenses estão sobrecarregados de impostos: décimas, sizas, contribuições, subsídios, real da água, dízimos, novos impostos, arruados, etc. etc.



Esta a importância crucial da ermida de Sto. Amaro para toda a cidade de Lagos e que levou a uma grande fé e devoção a este santo.❐

in livro LAGOS, evolução urbana e património

de Rui M. Paula,

edição da Câmara Municipal de Lagos

de Outubro de 1992.

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sábado, 19 de março de 2011

O Infante D. Henrique e a Vila de Lagos

14 de Março de 2011
sobre O Infante D. Henrique e a vila de Lagos

Há historiadores que afirmam que o Infante D. Henrique, quando escreveu num documento/carta “(...) minha vila” se referia a uma sua vila romana que possuiria em Sagres.

Acontece que o Infante D. Henrique não teve nenhuma vila (romana ou não) em Sagres. O Infante D. Henrique teve uma casa simples na Raposeira, perto de Sagres, para quando queria estar sozinho. Agora, na verdade, o Infante D. Henrique possuía uma vila, era Senhor de uma vila, a vila de Lagos. Daí ele escrever com todo o direito “minha vila”.

Acontece que Lagos, no barlavento algarvio, foi sede de Bispado segundo documentos dos Concílios de Toledo dos anos 622, 631-633 e durante os pontificados dos Papa Honório, Papa João IV e Papa Teodósio até à invasão dos mouros que se iniciou, em Lagos, em 716 (vide JP Rocha – Monografia de LAGOS; João Batista Coelho; Faria e Silva – Monografia de LAGOS; JP Rocha; António C. Inglês, prior de Santa Maria). Também o prova a Vila do Bispo que ainda existe, agora já não a típica vila romana com casa senhorial para o Bispo e casas para os seus trabalhadores agrícolas e criados; mas uma vila, sede de concelho no barlavento algarvio.

De 716 a 1241, tempo da ocupação moura na maior parte do tempo, LAGOS passa de sede de Bispado a aldeia, quando D. Francisco Paio Peres Correia, com o apoio de vários reis cristãos, a reconquista de forma definitiva para os portugueses; apesar de ainda existirem muitas tentativas dos mouros para reconquistarem o território.

Em 1258, Alfonso X de Castela doa a aldeia de Lagos ao Bispo de Silves, D. Frei Roberto.

O rei D. Afonso IV faz doação de Lagos a D. Gonçalo Fernandes (Mário Cardo).

Em documento de 05 de Janeiro de 1361, o rei D. Pedro I concede jurisdição própria a Lagos, tornando-a independente de Silves e concede-lhe a designação de Vila e concelho. D. João I deu-lhe o título de Vila Notável a 08 de Fevereiro de 1402, D. Manuel I deu-lhe Foral e Brazão de Armas, D. João III reafirma-lhe o título de Vila Notável em 25 de Agosto de 1535 e el-rei D. Sebastião deu-lhe o título de cidade em 1573. Tinha assento nas Cortes de Évora, no Terceiro Banco.

Em documento de 05 de Março de 1372, Lagos é doada a D. Gregório Premado (Livro D. Fernando/ Batista Lopes).

No ano de 1453, a vila de Lagos é doada ao Infante D. Henrique (MARTINS; 1992; p. 40). Segundo documento de 05 de Março de 1372, a vila de Lagos foi doada a Gregório Premado nesta data e esteve na sua posse até 1453, ano em que passou a pertencer ao Infante D. Henrique.

Em documento de 04 de Agosto de 1464, por morte do Infante D. Henrique, LAGOS – Vila e Castelo – é doada ao Infante D. Fernando, irmão de D. Afonso V (Crónica do Príncipe D. João/ Monografia de Lagos – JP Rocha/ Mário Cardo).

Ainda neste ano, 1464, LAGOS – Vila e Castelo – é doada a D. Diogo, Duque de Viseu e este, por sua vez, doou LAGOS a sua irmã, D. Leonor, por dote de casamento. LAGOS passa assim a estar unida à Coroa Portuguesa, pois D. Leonor passa a ser rainha de Portugal e Senhora de Lagos. (Crónica do Príncipe D. João/ Corografia S. Lopes/ Mário Cardo; Monografia de Lagos – JP Rocha)



vide PAULA, Rui M.; Lagos – evolução urbana e património; edição de Câmara Municipal de Lagos; Lagos, Outubro de 1992.



MARTINS José António de Jesus; A Freguesia de Santa Maria (do Concelho de Lagos) – Estudo Histórico (Monográfico); 1.a edição; Lagos; edição da Junta de Freguesia de Santa Maria de Lagos; Setembro de 1992.



mailto:www.eu.maria.figueiras@gmail.com

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

A Messe Militar em Lagos

25 de Fevereiro de 2011
Sobre A Messe Militar de Lagos
Recentemente, numa das reportagens dos telejornais, surgiram os edifícios que o Estado tem posto à venda e entre esses edifícios estava a Messe Militar de Lagos. O meu coração ficou apertado. O que vai acontecer à messe militar? como sempre designámos este edifício desde que me conheço.
Tenho andado a pensar no assunto, pois aquele edifício remonta aos tempos antigos, século XIII, quando ali foi criado um hospital com capela dedicada a S. Pedro, patrono dos pescadores, para cuidar dos lacobrigenses extramuros, já que este edifício se situava na margem esquerda da foz da Ribeira dos Touros e havia um hospital com capela que viria a ser a atual igreja de Santa Maria, intramuros para os outros lacobrigenses na foz da margem direita da Ribeira dos Touros ainda durante a existência da primeira cerca da povoação Lacóbriga que já tinha sido sede de bispado.
Com a Urbanização Henriquina, século XV, estas duas ribeiras de origem lacobrigense são drenadas e no espaço adjacente ao hospital dos pescadores e agricultores lacobrigenses é edificada a única paróquia de uma grande vila – Lagos – a paróquia de Santa Maria da Graça, em 1415. Lagos adquire o estatuto de vila em documento de 05 de Janeiro de 1361, no reinado de D. Pedro I.
Onde era o hospital S. Pedro foram construídos e inaugurados os Paços do Concelho, em 1490 e lá se mantiveram até ao terramoto de 1755, quando foram arrasados. Os Paços do Concelho foram reconstruídos na atual Praça Gil Eanes e inaugurados em 1798.
Em 1694, esta igreja paroquial - Santa Maria da Graça – fica sob a guarda da Irmandade S. João de Deus, fundando o seu hospital e convento nos terrenos adjacentes a esta igreja e os Paços do Concelho e foi-lhes confiado o tratamento dos enfermos militares. Tudo isto se manteve até ao terramoto de 1755 quando ficou tudo por terra.
De 1794 a 1803, foi construído o atual edifício da Messe Militar, na altura designado por Hospital Militar com Torre do Relógio exatamente no local do antigo convento e hospital da Irmandade S. João de Deus para enfermos militares e o primeiro edifício dos Paços do Concelho.
Com todo este património histórico agregado àquele espaço, venho propor à Câmara Municipal de Lagos que todo aquele quarteirão seja restaurado, incluindo a igreja de Santa Maria da Graça, para instalações da UNIVERSIDADE DE LAGOS com polo na Fortaleza de Sagres para a faculdade das Ciências do Mar com protocolos com o Ministério da Educação e afins e com a Universidade do Algarve. Trata-se apenas de uma proposta.
BIBLIOGRAFIA
PAULA, Rui M.; Lagos – evolução urbana e património; edição de Câmara Municipal de Lagos; Lagos, Outubro de 1992.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Século XV - Lagos Henriquina e pós-Henriquina (XII)



Feliz Natal e ótima passagem de ano com muita saúde, alegria, amizade e solidariedade; que o novo ano vos traga a realização dos vossos desejos.
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Mais uma vez venho partilhar convosco este meu trabalho – LAGOS, Património e Vida – com o terceiro livro " Século XV - Lagos Henriquina e pós-Henriquina" que começou a ser escrito a 02 de Novembro de 2009 e concluído a 10 de Agosto de 2010 que gostaria muito de vê-lo publicado em livro.
LAGOS – PATRIMÓNIO E VIDA
Livro III – Século XV - Lagos Henriquina e pós-Henriquina
EPÍLOGO
Foi com a ideia deste livro que iniciei a colecção LAGOS – Património e Vida. Foi Lagos Henriquina e o mistério que envolvia as três igrejas: igreja de Nossa Senhora da Graça, igreja de Santa Maria da Graça e igreja de Santa Maria que são uma única paróquia em tempos diferentes e lugares diferentes, atualmente paróquia de Santa Maria, que me motivaram a desvendar o mistério. Agora está desvendado; já não existe este mistério.
Houve algo mais que me aliciou bastante na escrita deste livro; o facto de que o início da II Dinastia coincide com o início do Renascimento e o Renascimento iniciar uma mudança completa de paradigma que foi fazendo, em Portugal, a gestação com D. Pedro I e D. Inês de Castro, com D. Fernando, a sua esposa e as Guerras Europeias, com o declínio dos poderes da nobreza e a ascensão dos burgos e de uma nova classe de origem mercantil ao poder – a burguesia.
Atualmente também se está a viver tempos de grandes mudanças – mudança de paradigma. Acredito que o novo paradigma do século XV, denominado Renascimento, teve a sua evolução e decadência até ao século XX. Com o Terceiro Milénio, o século XXI está em trabalho de parto para um novo paradigma do qual já se tem uma ideia perfeita e já se tenta pormenorizar, mas ainda não se implantou. Contudo, já há países que estão na vanguarda deste novo paradigma e são o Canadá e os países nórdicos ocidentais que poderão ser os líderes a nível mundiais, partilhando as suas experiências. Todos os dados já estão lançados:
a Mulher com papéis decisivos na cena mundial, emparceirando com o Homem numa sociedade meritocrática;
a salvação da humanidade pela salvação do ambiente num respeito cada vez maior por este, tornando-se o ambiente a prioridade principal tanto de Governos como de organizações internacionais;
uma sociedade cada vez mais tecnológica, mas também cada vez mais humana com cada vez menos workholics e cada vez mais decisores equilibrados, pois dividindo mais o seu tempo entre as responsabilidades profissionais, as responsabilidades familiares e as responsabilidades na comunidade;
uma sociedade cada vez mais baseada na família, mas uma família cada vez mais respeitadora e cada vez mais amorosa entre si;
uma sociedade em busca sempre do pleno emprego e da realização pessoal do indivíduo nas suas várias vertentes;
e Deus e o Senhor Jesus Cristo estão cada vez mais presentes no mundo porque simples cidadãos que somos, estamos a aprender a amá-l'O, a adorá-l'O e a abrir-Lhe o nosso coração a Deus que vem morar em nós com o Pai, o Filho e o Espírito Santo e o mundo poderá ser o Paraíso para um cada vez maior número de pessoas porque o AMOR nos liga.❐
EM ANEXO
A 24 de Julho de 2010
sobre A Data de 1378 na igreja de Santa Maria da Graça
Sabemos que a igreja de Nossa Senhora da Graça existiu junto à Porta da Vila nas primitivas muralhas da Lacóbriga/Lagos e que terá existido desde os primórdios deste povoamento, certamente com designações diferentes.
Na era cristã, já igreja de Nossa Senhora da Graça refundada por milaneses pescadores, ela foi a única paróquia desta localidade até Agosto de 1415 quando a igreja de Santa Maria da Graça situada na rua Nossa Senhora da Graça foi inaugurada e recebeu todo o acervo do Cartório Paroquial da igreja de Nossa Senhora da Graça, junto da Porta da Vila, passando a ser a nova e única paróquia de Lagos.
Quando foi que a igreja de Nossa Senhora da Graça, junto da Porta da Vila, se tornou igreja matriz?
Acontece que igreja é todo o corpo de fiéis e o edifício a que chamamos igreja para simplificar, é a Casa da Igreja; neste caso Igreja – Corpo Místico do Senhor Jesus Cristo. Então esta igreja tornou-se matriz quando amadrinhou outra igreja; neste caso, a igreja de Nossa Senhora da Graça amadrinhou duas igrejas ao mesmo tempo e ela finou-se, prolongando a sua vida nas duas novas igrejas a que se deu:
a igreja de Nossa Senhora da Graça na Fortaleza de Sagres que, por sua vez já é matriz porque fundou uma nova igreja – a igreja paroquial de Nossa Senhora da Graça na vila de Sagres;
a igreja de Santa Maria da Graça, paroquial por herança da igreja matriz, aquela situada na rua de Nossa Senhora da Graça que por sua vez passou a ser matriz da igreja de Santa Maria quando deu novo carácter à igreja da Misericórdia, passando para lá o seu acervo do Cartório Paroquial, tornando-a assim paróquia e dando-lhe um novo nome – igreja de Santa Maria.
Uma igreja matriz, para além de fundar uma nova igreja, tem de passar à nova igreja que funda algo importante, fundamental, de seu. Assim eu acredito que, para além de todo o acervo do Cartório Paroquial e além de outros bens, a igreja de Santa Maria da Graça recebeu esses “letreiros que apareceram nalgumas pedras da nave do meio da igreja de Santa Maria da Graça com a data 1378, governando D. Fernando e sendo Bispo de Silves, D. Martinho.” (PAULA, 1992, p.356). Acredito que 1378 – deve ser a data de qualquer evento muito importante que aconteceu na igreja de Nossa Senhora da Graça, junto da Porta da Vila.
Esta é a minha tese.❐
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Documento da Freguesia de Santa Maria de Lagos – Resposta aos Quesitos datado de 16 de Dezembro de 1908, do Prior José Gomes Relego Arouca que foi Presidente da Junta de Paroquia da Freguesia de Santa Maria de Lagos desde 1896 até 18 de Novembro de 1910, in MARTINS; 1992; pp. 95-101.
“Art. 1.o
Ninguém pode duvidar da antiguidade de Lagos assim como da sua antiga Nobreza: sede que foi desde o reinado de D. Afonso IV do Governo Temporal até 1755 em que os Capitães-Generais o transferiram para a cidade de Tavira e, segundo alguns como Ambrosio de Morales no 1.o 12 cap. 19 a fls. 122 V. e outros muitos, o foi também por algum tempo de Espiritual, tendo seu Bispo que, como tal assistiu ao IV Concilio de Toledo celebrado a 09 de Dezembro de 635, imperando Geradio, rei da Hespanha em tempo do Papa Honório I, ao Concilio VI celebrado em 639, sendo Papa João IV e, ao tempo, sendo Papa Teodoro, todos de Toledo, assegurando-se neste, no 18.o lugar = SERVUS DEI EPISCOPUS LACOBRIGENSIS (o Servo de Deus Bispo Lacobrigense [de Lacóbriga (sem mencionar o seu nome)]}. No entanto, existe outra versão: segundo Frei João de S. José (1577) «(...) no IV Concilio de Toledo, celebrado em tempo de Sisenando ou Sisebuto, IV rei dos Godos e do Papa Honório I, cuja eleição foi no ano do Senhor 622 em que se juntaram setenta bispos e se achou presente S. Isidoro, arcebispo de Sevilha, subscreveu com eles o dito concilio, Servus Dei epicopus lacobrigensis (não se trata do nome do bispo) (GUERREIRO e MAGALHÃES; 1983; p. 41) o que parece, porém certo é datar o culto religioso em Lagos e por consequência templo para reunião dos fiéis desde que os milaneses e genoveses e outros aportaram em Lagos, onde encantados do belo local e de uma das grandes baías que há, fizeram aqui assento para se empregarem na pesca do atum e do muito coral que então havia e fossem estes ou outros, naturais do país no tempo do rei D. Afonso III que reconquista o Algarve definitivamente em 1249, quando já o Algarve estava livre dos mouros em 910, para comodidade sua refundaram a pequena igreja de Nossa Senhora da Graça, claro fica que havendo templo deveria haver Ministro do Culto como se prova da doação que el-rei D. Afonso X de Castela fez de Lagos, povoação marítima a D. Frei Roberto, Bispo de Silves em 28 de Agosto de 1253 (documento que ainda existe), em que já Lagos tinha pároco e que depois que el-rei D. Afonso IV a instância de João Lourenço, alcaide do Castelo e João Parente, alvasil em 1320, no reinado de D. Dinis (1279-1325) mandou fazer a cerca ou muro que resguardasse a parte mais alta e povoada desta terra.
A 14 de Outubro de 1332, o mesmo rei mandou Martim Álvaro, corregedor do Algarve, que acabasse com todo o cuidado a cerca principal, aliás que ficaria despovoada a terra por causa das insolências dos mouros que contra ela acometiam todos os dias e que no presente o haviam feito com 12 galés, o que logo devia ter sido feito em 1320, visto el-rei ter mandado para esta obra 12$000 (doze mil) réis, o que se prova por um pergaminho que existe na Câmara desta cidade (atualmente inexistente).
Edificados estes muros ou cerca, edificaram dentro suas casas e também uma igreja pequena proporcionada à população em 1339, no reinado de D. Afonso IV, à qual deram a invocação de Santa Maria da Graça, título que conservou por muitíssimos anos porque até ao último do mês de Novembro de 1618 a acho com essa designação como se prova pelos assentos dos baptismos sendo o último assim «Em o derradeiro dia do mês de Novembro de mil seiscentos e dezoito anos, eu, o Prior Sebastião Roíz de Vasconcelos nesta igreja de Santa Maria da Graça, Matriz da cidade de Lagos, a baptizei Isabel, ... » e em outros termos ainda encontro Santa Maria Maior da Graça.
Julga-se por alguns letreiros gravados em pedras que se encontraram na nave central da igreja que não havia sido concluída logo de uma vez só se concluiu no reinado de D. Fernando, rei de Portugal, em 1378, sendo Bispo de Silves D. Martinho, que foi depois arcebispo de Lisboa. Esta igreja constava de uma nave só, como já disse, porém aumentando-se mais a povoação, se acha que, em 1420, Soeiro da Costa, mandara fazer a nave da parte do Evangelho, nessa nave uma capela para si e seus descendentes com a invocação de Senhor Jesus das Cadeias para a qual tinha alcançado Lourenço Dias a 03 de Janeiro de 1419 licença dos cardeais para nela se criar uma confraria com o título de «Escravos do Senhor Jesus das Cadeias» (confraria que ainda hoje existe e bem assim a primitiva imagem do Senhor Jesus) com muitas indulgências e nesta mesma Capela foi onde Lourenço Estevens e sua esposa Constança Afonso mandou fazer um Tabernáculo ou Sacrário para se conservar a Sagrada Eucaristia no ano de 1438 e a 19 de Dezembro de 1450, os mesmos fizeram uma doação perpétua enquanto o mundo durar de todo o azeite necessário para o consumo da Lâmpada, nomeando propriedades sujeitas a este encargo cuja escritura existe no arquivo desta igreja e diz ... «Lourenço Estevens e sua esposa Constança Afonso mandaram fazer na igreja de Santa Maria Maior do dito Lagos um Tabernáculo em que estivesse o Corpo de Deus consagrado todos os dias para o receberem aqueles que quisessem receber e para o corpo de Nosso Senhor estar honestamente como cumpre, ordenavam e mandavam pôr ante o dito Tabernáculo uma Lâmpada que arda e dê lume ante o dito Tabernáculo e isto para que arda assim de noite como de dia, a qual Lâmpada mandavam houvesse dela encargo de a manter e alumiar aquele que for administrador» e a capela do Senhor Jesus para a igreja da Misericórdia e foi então que, com a criação da Capela do Senhor Jesus, se levantaram as suas duas naves do lado do Evangelho e do lado da Epístola.
O Conde do Prado, Governador-Geral do Algarve, mandou fazer o magnífico Adro da Igreja de Santa Maria da Graça no ano de 1633; a Torre foi edificada em 1557. É muito provável que, logo que D. Pedro I, a 05 de Janeiro de 1361, a fez Vila e D. João I, a 08 de Fevereiro de 1402 a fez Vila Notável com assento nas Cortes de Évora no Terceiro Banco, como se lê no pergaminho que existe na Câmara e da sentença de D. Manuel contra D. Martinho, é muito natural que intentasse a criação de Prior Colado e Colegiada. Tão distinta era já esta igreja de Santa Maria da Graça que o Infante D. Henrique, morrendo na sua casa da Raposeira a 13 de Novembro de 1460 e o seu corpo vem depositar-se na igreja de Santa Maria da Graça, igreja principal de Lagos e daí trasladado para o Convento da Batalha, um ano depois, pelo Infante D. Fernando, seu sobrinho e também por ser freguesia onde nascera e fora baptizado o Glorioso São Gonçalo de Lagos, no ano de 1360, beatificado pelo Papa Pio VI, em 1778, pelo que devemos fixar a criação do Prior e quatro Beneficiados que sempre consta ter tido pelos anos pouco mais ou menos de 1468. [...] El-rei D. Sebastião a fez cidade no ano de 1573.
Caída a bela igreja Matriz de Santa Maria da Graça de Lagos no dia 01 de Novembro de 1755, passou o Prior e Colegiada a exercerem os actos de culto na igreja da Misericórdia cedida pela Mesa da mesma Santa Casa para esse fim, enquanto não tivessem igreja própria. Esta concordata foi feita em 30 de Setembro de 1756 e como a falta de meios tem sido grande, não foi possível até hoje reedificar a igreja demolida, continuando a paróquia na igreja da Misericórdia.
Em 1848, foi ampliada a igreja da Misericórdia/Santa Maria, sofrendo grandes transformações à custa da Fábrica e da Misericórdia e foi nessa época que se colocou nas novas torres da igreja um carrilhão.
A antiga igreja de Santa Maria da Graça cujas paredes tinham sido mandadas levantar pelo Exmo. Sr. Bispo D. Francisco Gomes de Avelar por motivos muito alheios à sua vontade deixou por concluir a referida igreja e como fosse proibido os enterramentos na igreja passou esta a servir de cemitério até que, em 1892, por decreto do Ministro José Dias Ferreira, os cemitérios paroquiais passaram a ser administrados pelas Câmaras Municipais, a Câmara desta cidade tomando posse das venerandas ruínas da igreja de Santa Maria da Graça que “segundo Manuel Paulo ROCHA (ROCHA, 1910, pp. 79-80), tomando a Câmara em consideração o péssimo estado em que se achava o antigo e abandonado cemitério de Santa Maria, o ser facilmente escalado pelos rapazes que nele praticavam desacatos, destruindo os poucos mausoléus que ali existiam, espalhando ossadas, ... e ainda a opinião dos facultativos munícipes que entendiam para bem da higiene, de toda a convivência, a supressão do mesmo cemitério, deliberou a Câmara mandar proceder à demolição dele, isto é, à demolição das meias paredes que se tinham construído para a reedificação desta igreja de Santa Maria da Graça» e assim a mandou arrasar de forma que hoje apenas existe um largo e, ao passar por lá, todos dizem: FOI AQUI A IGREJA DE SANTA MARIA VELHA.
No dia 29 de Julho de 1888, ao começar a festividade do Santíssimo Sacramento, incendiou-se a igreja de Santa Maria/Misericórdia de tal forma que só restaram umas paredes calcinadas. Sendo impossível reedificar a igreja por falta de dinheiro, Deus tocou no coração generoso da Exma Sra. D. Maria Júdice Biker Canhet que à sua custa reedificou a igreja, gastando nessa obra a quantia de 13.000$000 réis (treze mil contos). O Revmo. Sr. Bispo, D. António Mendes Belo, Bispo do Algarve, em extremo agradecido para com esta Senhora veio ele próprio a Lagos proceder à bênção da nova igreja a qual teve lugar no dia 28 de Julho de 1893. Contudo, segundo documentação existente na Biblioteca Municipal de Lagos e citada pelos autores da obra As Misericórdias do Algarve, Lisboa, 1968, p. 66, a reabertura do culto realizou-se em 1891, comprovando o facto a existência de uma inscrição no arco da capela-mor da igreja.
Na tarde desse mesmo dia, 28 de Julho, o Sr. Bispo do Algarve conduziu procissionalmente o Augusto Sacramento dos nossos altares, da igreja do Carmo para a igreja de Santa Maria com toda a pompa. Foi imponentíssima essa procissão. Fazia parte do cortejo a Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo, todas as confrarias erectas nesta paróquia, o Compromisso Marítimo, todas as autoridades eclesiásticas, civis e militares. Fechava a procissão a Câmara Municipal com o seu estandarte e todo o regimento de Infantaria 15, cuja praça era nesta cidade.
No dia seguinte, o mesmo Exmo. Senhor Bispo D. António Mendes Belo pontificou na nova igreja, querendo dar assim um público testemunho de gratidão àquela Senhora que teve a coragem de só à sua custa levar a cabo uma obra tão grandiosa. Ao Evangelho pregou o reverendo Prior de São Pedro de Faro, Bernardino Álvaro Pessanha, hoje pároco aposentado; na tarde, ao Te Deum, pregou o reverendo pároco encomendado desta igreja, Francisco de Assis do Nascimento Rocha, hoje ajudador da igreja de Lagoa. É esta, em resumo, a história da igreja Matriz de Santa Maria de Lagos.
[...] Art. 10.o
Na freguesia existem as seguintes igrejas, além da Matriz existe a igreja da Venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte do Carmo, cuja igreja pertencia às religiosas Carmelitas Calçadas debaixo do augusto título de Religiosas do Convento da Conceição de Lagos. Teve esta Ordem Terceira começo a 12 de Agosto de 1726. Foi nessa época que fizeram o seu compromisso o qual foi aprovado legalmente pelo reverendo Frei Estevão de Santo Ângelo, Prior Provincial da Ordem do Carmo. No primeiro de Novembro de 1755, caiu o convento das religiosas e bem assim a igreja. Os irmãos da Ordem Terceira trataram da reedificação do mesmo convento e igreja, sendo Prior Provincial da Religião Carmelitana o Reverendo Padre Mestre Doutor Frei José Pereira de Sant'Ana. Foram aplicadas para esta obra todas as rendas do convento, as da Ordem Terceira e diversas esmolas que se obtiveram e a obra se concluiu no ano de 1758. Tem servido de Matriz por diversas vezes, sendo a última depois que se incendiou a igreja de Santa Maria/Misericórdia.
Existe mais a igreja do Espírito Santo a cargo dos marítimos, cuja edificação remonta ao ano de 1790. também existe a igreja de Santo António a cargo do comando Militar desta Praça e parece que foi edificada antes da era de 1668, pois D. Afonso VI (ficando D. Pedro [II] como regente do reino de Portugal) assentou praça de soldado raso a Santo António do Regimento de Infantaria de Lagos no dito ano de 1668.(Porquê em Lagos?)
No dia em que faleceu D. Afonso VI (12 de Setembro de 1683) D. Pedro II que neste dia subiu ao trono, elevou Santo António ao posto honorífico de capitão de Infantaria de Lagos, sendo-lhe só em 1733 pago o respectivo soldo. Parece que pelo terramoto de 1755, a igreja caiu, pois que em 1769, foi reedificada pelo Coronel Hugues Beathy que era de ascendência irlandesa, comandante do referido regimento, inglês de nacionalidade e protestante e passou a católico romano no dia primeiro de Janeiro de 1789, falecendo no dia seguinte como se vê pelos documentos juntos. São estas as igrejas ou capelas que existem dentro da cidade e freguesia de Santa Maria.
Junto ao mar, para o lado sul, à distância de 3 km da igreja matriz, existe uma pequena capela cujo orago é Nossa Senhora da Piedade, consta que foi edificada por Pedro Galego no ano de 1580.
Há uma grande devoção para com a imagem da Santíssima Virgem, principalmente na classe marítima e são os marítimos que, com suas esmolas, promovem as grandes festas a Nossa Senhora da Piedade no mês de Setembro e no dia que a Santa Igreja celebra as Dores de Maria Santíssima.♥
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Documento de 1857? do Prior da Paróquia de Santa Maria in MARTINS; 1992; pp.102-107.
Lagos foi aldeia conquistada por D. Sancho I aos mouros e doada por D. Afonso X de Castela a D. Frei Roberto, Bispo de Silves a 28 de Agosto de 1253. É cidade. A 05 de Janeiro de 1361, el-rei D. Pedro I concede-lhe jurisdição independente, desmembrando-a do concelho de Silves e fê-la vila e concelho, mantendo-se assim até 1755. D. João I deu-lhe o título de Vila Notável a 08 de Fevereiro de 1402, D. Manuel I deu-lhe Foral e Brazão de Armas, D. João III deu-lhe o título de Vila Notável em 25 de Agosto de 1535 e el-rei D. Sebastião deu-lhe o título de cidade em 1573. Tinha assento nas Cortes de Évora, no Terceiro Banco.1)
A igreja de Santa Maria tinha muitos privilégios concedidos em 1360 – em 1430 – em 1477 – em 1507 – em 1581 por Filipe I como se pode ver na Torre do Tombo. Foi colegiada até 1833 que constava de Prior e quatro Beneficiados não pagos pelos dízimos e a Fábrica recebia 65$000 (65 mil réis = 65 contos) réis dos dízimos; hoje nada tem.
Nesta data, as produções mais importantes da freguesia de Santa Maria eram as de cereais, figos, vinho, ... O vinho tem tido há anos bastante quebra pela moléstia que tem dado nas vinhas com grande força.
O rio de Lagos/Ribeira de Bensafrim corre manso e é navegável por pequenos barcos durante todo o ano. Cria pequenos muges.
Dos naturais desta freguesia, tornaram-se célebres:
Vicente Dias Seromenho, Beneficiado nas freguesias de Santa Maria e S. Sebastião donde era natural. Era muito versado na Língua Latina, História e Geografia. Compôs e dedicou ao Bispo D. Jerónimo Osório uma obra «Geographia do Reino do Algarve» in folio Bibl. Lusit.. Morreu a 19 de Março de 1605.
José António Ferreira BracLamy, formado em Leis, juiz de fora de ... vedor das Alagoas e, por último, desembargador. Homem incorrupto e inteiro na administração da Justiça, sendo admirado por todos os que o conheciam. Morreu em 1847.
António José de Lima Leitão, Doutor em Medicina, sendo médico-cirurgião e sócio de todas as Academias que pôde frequentar; Físico-Mor em Goa. Deputado nas Cortes de 1820 e Lente de ... no hospital de S. José. Homem de vastos conhecimentos e instruído em Literatura nas Línguas Portuguesa, Latina, Francesa, Grega, Inglesa, Italiana fez algumas traduções do original para a Língua Portuguesa como Virgílio e O Paraíso Perdido de Mílton.
Na freguesia de Santa Maria há o hospital da Misericórdia com dois médicos de Parto do município, cirurgião e farmacêutico pagos pela Mesa da Santa Casa da Misericórdia; antigamente eram pagos pelo rendimento dos dízimos.
Estabelecimentos fabris há na freguesia quatro Cordoarias: uma de cordame de esparto, as outras de cordas de linho e redes de pesca. Cada uma emprega três ou quatro homens.
Em Lagos realiza-se uma feira na freguesia de S. Sebastião.
Santa Maria é cabeça de comarca.
Não tem castelo e como fortificação de defesa tem um Forte na boca da barra do pequeno rio – rio de Lagos – denominado Ponta da Bandeira edificado em 1690 pelo Conde das Sarzedas e reedificado pelo Conde de Vale de Reis. Atualmente o seu estado é sofrível, estando apenas com duas peças de artilharia de pequeno calibre porque foi desartilhado em 1846/47. Tem diariamente uma guarda dada pela Guarnição da Praça que todos os dias é rendida e consta de um Oficial Inferior, Cabo e seis soldados.
A cidade de Lagos tem Brazão de Armas dado por el-rei D. Manuel I em 1504, quando Lagos era vila. Este Brazão consiste em dois castelos pegados um ao outro, divididos por baixo com um arco em porta. Sobre esta porta está outro castelo como servindo de remate aos dois primeiros. Por baixo dos castelos vêem-se ondas e mar levantado e de cada lado uma lança levantada (MARTINS; 1990). Puseram este Brazão no frontespício da igreja/ermida de Nossa Senhora da Graça, junto da Porta da Vila, devendo concluir-se por ser este edifício público o mais antigo daquele tempo e talvez seja o Brazão a que se refere o Tomo VI da igreja de Santa Maria Tít. 21 que diz ser um escudo coroado. Contudo não há vestígios deste Brazão e dos dois castelos.
Sendo Lagos, Vila Notável feita por D. João I em 1402 parece que este lhe devia dar Brazão de Armas.2) ❐
Atualmente sabe-se (PAULA, 1992, p.354-360) que
em 1189, D. Sancho I liberta Lagos dos mouros e doa-a a D. Nicolau de Santa Maria, Bispo de Silves.
Em 1190, o Bispo de Silves doa a igreja de Lagos – de Nossa Senhora da Graça – ao Mosteiro de S. Vicente de Fora, em Lisboa.
Em 1191, Lagos é retomada pelos mouros chefiados por Yacub, emir de Sevilha.
Em 1198, Lagos e Silves são libertados dos mouros por uma armada de Cruzados de 50 a 60 navios com 1200 frisões e dinamarqueses que se reuniram à esquadra de navios portugueses de D. Sancho I.
Entretanto, Lagos foi retomada pelos mouros.
Em 1241, Lagos é libertada dos mouros por D. Paio Peres Correia no reinado de D. Sancho II.
Em 1258, no reinado de D. Afonso III, D. Afonso X de Castela doa a aldeia de Lagos a D. Frei Roberto, Bispo de Silves.
D. Afonso III (1250(?)-1279) concede Foral a Lagos, tornando-o concelho independente de Silves com jurisdição própria.
Durante o reinado de D. Afonso IV, é nomeado o primeiro alcaide do Castelo de Lagos, D. João Lourenço, após a libertação desta terra dos mouros e o primeiro alvasil (juiz) de Lagos, João Parente. D. Afonso IV doa Lagos a Gonçalo Fernandes que passa a ser Senhor de Lagos. Também na mesma altura a Capitania de Lagos é entregue ao Almirante Manuel Pezagno, de nacionalidade genovesa.
Por documento de 05 de Janeiro de 1361, no reinado de D. Pedro I, Lagos separa-se do concelho de Silves, ganhando jurisdição independente e o estatuto de vila. D. Pedro I confirma, autentica e acrescenta privilégios à decisão de D. Afonso III.
A 05 de Março de 1372, no reinado de D. Fernando, a vila de Lagos é doada a Gregório Premado que passa a ser Senhor de Lagos.
(...)
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2) O Brazão de Armas concedido por el-rei D. Manuel I em 1504, juntamente com o Foral à Vila de Lagos, acredito que representa o seguinte:
dois castelos – a dualidade desta vila entre a vila murada, nobre e com funções defensivas com a igreja de Nossa Senhora da Graça junto à Porta da Vila e o núcleo extramuros, de produção ao redor da ermida de Nossa Senhora da Conceição. Na altura já a ermida tinha sido substituída pela igreja de S. Sebastião e já havia sido criada a segunda paróquia.
Outro castelo servindo de remate aos dois primeiros – a única paróquia da vila na fase henriquina, a igreja de Santa Maria da Graça na rua Nossa Senhora da Graça, com a qual o Infante D. Henrique pretendeu unificar a vila e acabar com as inimizades entre os dois núcleos. Este símbolo no Brazão talvez fosse uma chamada de atenção de D. Manuel I para acabarem com esta dualidade em Lagos e tudo retomar a uma única paróquia.
Sobre arco em forma de porta – simboliza a igreja de Santa Maria da Graça/a vila de Lagos com porta virada para o mar. Não dois blocos, frente a frente, inimigos; mas agora toda a vila de Lagos virada para o mar, dele recebendo e dele enviando; enfim, vivendo com ele.
De cada lado uma lança levantada – simboliza a defesa de toda a vila que vai ser murada por D. Manuel I mais tarde, em 1520.
Os decisores de Lagos pegaram neste Brazão de Armas e colocaram-no no frontespício da igreja/ermida de Nossa Senhora da Graça, na Porta da Vila, nesta altura sem culto porque eles queriam a situação de dualidade e não gostaram do significado do Brazão, pois para eles aquela igreja era a verdadeira igreja da vila, apesar de abandonada.
Acredito que D. João I deu o título de Vila Notável a Lagos, mas não lhe deu Brazão porque o seu reinado foi pleno de muitas preocupações e ocupações e o início de uma nova dinastia. D. João I não se lembraria de Brazão para nenhuma vila. Acho que não achava isso tão importante. Agora o título de Vila Notável com assento no Terceiro Banco das Cortes de Évora; isso sim era importante para Lagos, mas também para D. João I ter partidários fiéis nas Cortes a defender as suas posições.
Esta é a minha tese.❐
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mailto:eu.maria.figueiras@gmail.com


terça-feira, 30 de novembro de 2010

Século XV - Lagos Henriquina e pós-Henriquina (XI)

Mais uma vez venho partilhar convosco este meu trabalho – LAGOS, Património e Vida – com o terceiro livro " Século XV - Lagos Henriquina e pós-Henriquina" que começou a ser escrito a 02 de Novembro de 2009 e concluído a 10 de Agosto de 2010 que gostaria muito de vê-lo publicado em livro.
LAGOS – PATRIMÓNIO E VIDA
Livro III – Século XV - Lagos Henriquina e pós-Henriquina
CAP X - A Influência dos Descobrimentos Portugueses na Economia e Política Internacionais
Portugal, com um milhão de habitantes em apenas 89 000 quilómetros quadrados, no princípio do século XVI, torna-se, em poucas décadas, o coração de um império comercial que se estende do Brasil a Macau, englobando as duas costas de África e, portanto, o caminho marítimo para a Índia.
Desde a Antiguidade, o mundo ocidental é deficitário nas suas trocas com o Oriente. Como o continente é pobre em metais preciosos, depende do comércio com o mundo muçulmano para financiar as suas compras de especiarias, pérolas e tecidos preciosos orientais.
De facto, na época, o ouro é um produto africano cujo circuito os mercadores muçulmanos controlam (Vilar, 1974, p.57-58). Génova, a grande rival de Veneza, apoia-se em Lisboa, etapa cómoda na rota da Europa do Norte, mas também posição privilegiada dominando as costas noroeste de África para tentar encontrar um caminho marítimo para oriente. Contudo, os primeiros êxitos portugueses no Norte de África e a descoberta das riquezas da África Ocidental (ouro, marfim, escravos) incutem novo ânimo à empresa do Infante D. Henrique que rapidamente se distancia dos Genoveses. Estes viram-se para Sevilha, outra escala no Mediterrâneo, convertida pelos italianos em praça comercial e financeira.
A partir de 1490, fica cada vez mais clara para os portugueses a perspectiva de uma circum-navegação de África. Nos últimos anos do século, Vasco da Gama dobra o Cabo da Boa Esperança e chega à Índia. Quebra-se assim o monopólio veneziano do comércio das especiarias, já enfraquecido pela queda de Constantinopla, em 1453.
A descoberta desta última rota explica a recusa da coroa portuguesa em financiar a expedição de Cristóvão Colombo, português do Alentejo, que também se propõe atingir a Índia, mas navegando para oeste. Este, por fim, recebe o apoio dos reis católicos de Espanha, desejosos de celebrar deste modo a libertação de Granada dos muçulmanos, em 1492. Em cerca de quatro anos, a Espanha completa a conquista deste novo mundo que se dispõe a colonizar do Chile à Califórnia, da Argentina à Florida, contornando o Brasil português.
Deste empreendimento de alcance planetário, a Europa extrai uma riqueza prodigiosa. Ao afluxo de ouro e prata, junta-se grande quantidade de produtos desconhecidos que vão revolucionar a alimentação europeia (café, cacau, açúcar, batata, tomate, milho, arroz, frutos tropicais, ...) e as manufacturas (algodão, anil, pau-brasil, marfim, ...) proporcionando lucros fabulosos aos comerciantes que conseguiam controlar os novos circuitos comerciais.
O valor dos metais preciosos e especiarias importados pela Europa representa, nesta altura – século XVI - cinco vezes o valor do comércio intra-europeu de trigo que, no entanto, constitui a corrente de trocas marítimas mais considerável em volume (CHAUNU; 1969).
Se Portugal e a Espanha foram durante algum tempo privilegiados devido à sua situação geográfica e história; contudo, não irão capitalizar os enormes recursos extraídos das suas novas possessões. Na época, nenhuma instituição política estava em condições de se apropriar das riquezas dos territórios ultramarinos, retirando-as à classe mercantil ibérica (ROSENBERG e BIRDZELL; 1986; p. 87). Outros negociantes, frequentemente piratas flamengos, holandeses e ingleses ocupam o centro da cena internacional e pilhando, tiram o melhor partido da distribuição dos produtos das colónias e também o abastecimento destas.
A Itália deixa de dominar a economia europeia quando se viu privada do monopólio do comércio das especiarias, minada por lutas internas e devastada pelas invasões estrangeiras. Lisboa substitui-se a Veneza como centro do comércio de especiarias, mas é Antuérpia que se afirma como principal porto europeu na primeira metade do século XVI.
Os Países Baixos (Holanda) por razões dinásticas fazem parte, nesta altura, do imenso império de Carlos V (Espanha). Por isso, estão bem posicionados para tirar proveito do comércio transatlântico da Espanha, mas rejeitam a sua tutela. Em 1568, começa uma longa guerra pela independência que terminará em 1579 com a constituição das Províncias Unidas (Holanda). A parte sul do país, católica, correspondente à atual Bélgica, continua sob o domínio de Espanha. Antuérpia que se ressente da repressão espanhola e do boicote das províncias protestantes do norte, perde progressivamente a sua importância a favor de Amsterdão. Esta cidade afirma-se como a primeira praça económica e financeira da Europa, posição que conservará até ao fim do século XVII.
Esta transferência de poder económico do sul para o norte da Europa, das cidades italianas para as Províncias Unidas, via Portugal e Espanha, constitui um ponto particularmente controverso da história económica.
A emergência da economia-mundo europeia, entre 1450 e 1650, assinalou o aperfeiçoamento das técnicas financeiras com a generalização da letra de câmbio, agora com a prática do endosso. A estrutura das empresas torna-se mais flexível com a aparição das sociedades com filiais, evitando que a falência de um pólo de actividade arraste a queda de um grupo inteiro. O comércio naval beneficia do desenvolvimento em todos os grandes portos europeus de sociedades de seguros marítimos. A concentração financeira torna-se imensa. Neste período, os factos mais marcantes são o domínio europeu sobre o mundo e as rivalidades de poder que suscita. A noção de economia-mundo proposta por Braudel e Immanuel Wallerstein, descreve a constituição, não de uma economia mundial, mas de um espaço económico plurinacional, hierarquizado, mas não unificado politicamente cujas componentes (cidades-Estados, Estados-nações, impérios) se ligam umas às outras através de relações principalmente económicas. O pluralismo político, característica do espaço europeu é o que distingue a economia-mundo do império (WALLERSTEIN, 1974, p.16). A característica das economias-mundo que precederam a da Europa (Mesopotâmia, Mediterrâneo antigo, Roma, China, Pérsia) é acabarem sempre por se transformar em impérios. Contudo, a economia-mundo europeia tem a particularidade de ter resistido sempre a qualquer tentativa de unificação pela força quer se tratasse dos empreendimentos de Carlos V, das guerras napoleónicas ou da sujeição da Europa continental pela Alemanha nazi. A economia-mundo europeia, de tipo capitalista, produz sistematicamente pela difusão da tecnologia que acompanha as trocas, antídotos à sua unificação política que se tornou mundial em poucos séculos de existência.
A economia-mundo europeia, ao mesmo tempo que se mantém estanque, compartimentada no seio de cada Estado, estende as suas ramificações ao mundo inteiro, a partir do século XVI. Em breve se centrará nos Países Baixos, mais exactamente em Amsterdão, muito antes da longa guerra entre a Espanha e as Províncias Unidas (1568-1648). A economia-mundo europeia estrutura-se em círculos concêntricos cujo peso económico vai diminuindo ao mesmo tempo que cresce o grau de dependência em relação ao centro (Braudel, 1985).
O primeiro círculo é constituído por pretendentes à hegemonia europeia – Inglaterra e França. Se nos abstrairmos das unidades políticas a que essas regiões económicas estão ligadas; o conjunto formado pelos Países Baixos (Holanda), o sul e o leste da Inglaterra e o norte da França podem ser considerados o centro do sistema, por volta de 1600.
O segundo círculo inclui as regiões afastadas da luta pela hegemonia, mas cujo potencial económico continua a ser importante – norte da Itália, Espanha, Portugal, norte da Alemanha e as cidades do Báltico, cujo controlo os comerciantes alemães perderam progressivamente a favor dos holandeses e ingleses.
O último círculo da periferia do sistema, é formado pela Escandinávia, Escócia, Irlanda, leste da Europa, sul da Itália e as colónias da América.
Um dos aspectos marcantes desta economia-mundo é o grau de liberdade política diminuir à medida que nos afastamos do centro e as relações de produção se tornam cada vez mais arcaicas. Nas colónias, quase todo o sistema económico é caracterizado pela escravatura. No leste da Europa, domina ainda a servidão, mais feroz do que a que se viveu na Idade Média, na Europa Ocidental. No centro da economia-mundo, pelo contrário, a opulência económica é acompanhada de liberdades políticas.
A abertura da Europa ao exterior, a partir do século XI, foi realizada pela classe emancipada de mercadores nas cidades portuárias do Mediterrâneo e do Mar do Norte com um poder central enfraquecido. Enquanto as cidades-Estado prosperavam graças ao comércio internacional, os Estados-nações da Europa Ocidental preparavam o terreno para uma mutação considerável dos sistemas económicos. Amsterdão que domina a Europa no século XVII, assume-se como a última cidade-Estado da história.
A partir do século XVIII, o centro da economia-mundo europeia deixa de ser uma cidade-Estado para se tornar a capital de um Estado-nação que confere à indústria em pleno desenvolvimento a consistência de um mercado interno finalmente descompartimentado.
O desenvolvimento dos Estados-nações aconteceu durante a longa fase de depressão económica e de conflitos militares do fim da Idade Média, entre 1350-1450. Em Espanha e em Portugal, o poder central afirma-se após a reconquista da península aos mouros. Em França e na Inglaterra é a Guerra dos Cem Anos que desempenha o papel decisivo na constituição de monarquias centralizadas e na emergência de uma identidade nacional. Trata-se da decomposição da economia feudal devido às necessidades financeiras dos Estados e à ascensão da economia urbana.
No século XVII, mais uma vez, a centralização política acelera-se devido a uma grande crise internacional – a Guerra dos Trinta Anos, de 1618 a 1648 – que marca o fim dos Habsburgo de Espanha sobre o continente europeu. Seguir-se-á, a partir de 1651, uma longa série de conflitos entre as Províncias Unidas, a Inglaterra e a França que terminará dando à Inglaterra, no início do século XIX, o novo estatuto hegemónico (Wallerstein, 1980).
A longa fase de crescimento da economia europeia, iniciada pela abertura planetária realizada pelos Portugueses, no século XV, interrompe-se, em 1600. Não se trata de uma depressão continental, mas sim de um abrandamento do crescimento, nitidamente diferenciado de região para região, a crise é geral: religiosa, política, internacional, económica e demográfica. É neste contexto de rivalidades internacionais exacerbadas e de estagnação económica que vai germinando a Teoria Mercantilista.
A subida dos preços, no século XVI, interpretada pela teoria quantitativa da moeda como devida ao afluxo dos metais preciosos das colónias, vai completar o processo de destruição dos beneficiários de rendimentos agrícolas em proveito da classe dos mercadores.
Na verdade, a revolução dos preços que triplicam num só século, traduz-se por uma inflação dos lucros porque o preço das mercadorias aumenta mais rapidamente do que os seus custos de fabrico (salários e matérias-primas) o que é um poderoso incentivo à produção manufactureira, mas esta continua a ser entravada nas cidades pelos monopólios das corporações, instituições de artesãos poderosas da Idade Média. A solução para a classe burguesa mercantil vem dos campos: «Em redor de todas as capitais ocidentais do têxtil, os comerciantes à procura de uma mão-de-obra de operários menos exigentes do que os artesãos urbanos, recrutaram fiadeiras e tecelões aos milhares.» (Deyon, 1987, p. 264) Além disto, a classe mercantil compra, também a título de investimento, as terras dos senhores feudais arruinados a bom preço. Assim a economia mercantil penetra no mundo rural, tendo nascido das relações internacionais entre as cidades-livres e criando uma poderosa classe mercantil enriquecida por um século de expansão económica contínua.
Mais uma vez, é a guerra o principal estímulo ao processo de centralização política. O enorme aumento das despesas resultante da manutenção e equipamento de exércitos profissionalizados para a defesa principalmente das colónias, obriga os Estados a mobilizar fundos. Para os conseguir, os reis têm como única opção apoiar-se nos círculos de negócios que fornecem armas, metais e crédito e contribuem com o seu conhecimento dos mecanismos da economia e as suas redes internacionais. «Nessa altura, o Estado não tinha só precisão de serviços de intendência e arsenais, mas também lhe faltava um banco central, tesouraria pública e funcionários competentes.» (Deyon, 1978, p. 256). Apenas as Províncias Unidas (Holanda) que dispõe do Banco de Amsterdão e a Inglaterra que dispõe do Banco da Inglaterra, fundado em 1694, existem em toda a Europa e vão ser assediados pelos outros países da Europa para obterem os meios financeiros necessários às suas políticas e para obterem letras de câmbio sobre as grandes praças financeiras – Amsterdão, Genebra, Hamburgo – e pagar as dívidas internacionais. Desta maneira, negociantes e financeiros infiltram-se a todos os níveis do aparelho do Estado, ficando os negociantes com a gestão da fiscalidade e os financeiros com as finanças reais. Assim fazem valer as suas opiniões e os seus interesses sobre a condução da política económica, beneficiando das melhores oportunidades – atribuição de monopólios, encomendas do Estado – e proteger-se contra eventuais processos judiciais e cobranças fiscais.
Então o contexto de crise económica fornece assim uma chave importante para a interpretação das mudanças ocorridas nesta época, tanto devido às guerras como às epidemias por elas propagadas ou ao declínio do afluxo de metais preciosos da América (estes dois fenómenos não são independentes um do outro). A crise que se difunde da Espanha em 1600 e a crise da Itália, em 1620, para as crises na Alemanha e na França, em 1630 e depois na Inglaterra e nas Províncias Unidas, em 1650, fazem realçar os limites de um crescimento unicamente baseado no alargamento das exportações, reforçando assim as reivindicações dos negociantes para uma maior liberdade no comércio externo.
Dominando a actividade industrial desde a Idade Média, as corporações só podiam conservar os seus privilégios numa estrutura produtiva atomista, caracterizada pela existência de inúmeras pequenas empresas artesanais de dimensões semelhantes (Garden, 1978). O aumento da concentração industrial e a deslocalização das actividades industriais para a periferia para liquidar as conquistas do mundo do trabalho é apenas uma estratégia já muito antiga.
Na época mercantil, os campos ainda fazem parte da periferia de uma economia-mundo cujo desenvolvimento se fez por abertura ao exterior e penetração em espaços continentais num movimento de fora para dentro, do comércio internacional para o comércio interno.
O mercantilismo surge como o primeiro exemplo de intervenção sistemática e coerente do Estado na vida económica. Depois da expansão do século XVI, o século XVII surge com o abrandamento do movimento de trocas que alimenta a convicção de que o enriquecimento de uns é sinónimo do empobrecimento de outros. Num mercado mundial em estagnação, o crescimento económico só pode realizar-se com os lucros de partes do mercado. Assim enriquecer torna-se a palavra-chave. Contudo «quase todos sabiam que uma população numerosa e industriosa, um solo fértil em clima favorável, manufacturas e uma marinha activas eram as verdadeiras fontes e garantes da riqueza. Se davam tanta importância ao saldo em metais preciosos das trocas internacionais era porque o ouro e a prata continuavam na base de um sistema de crédito ainda rudimentar e, portanto, seriam o recurso supremo do príncipe.» (DEYON; 1978; p. 199)
A acumulação de metais preciosos servia para garantir o crédito do Estado, financiar a guerra e para manter um nível elevado de circulação monetária e assim impedir a baixa dos preços e a subida das taxas de juro. Segundo os mercantilistas, esta acumulação poderia ser realizada com mais segurança por políticos que quisessem libertar excedentes comerciais do que pela proibição de saídas de metais preciosos, usando o estímulo à produção interna, através de uma protecção contra as importações e o encorajamento das exportações. Esta política, para além do efeito positivo no saldo comercial, deveria permitir aumentar as receitas do Estado, alargando o âmbito fiscal.
Os temas principais desta doutrina – Mercantilismo – inteiramente consagrada ao reforço do poder do Estado, são a apologia do trabalho manufactureiro, do comércio e da expansão colonial.
A partir do século XVII, a natureza agressiva do mercantilismo, no plano externo, exprime-se pelas Leis da Navegação Inglesas. Segundo estes diplomas, só podiam entrar na Inglaterra as mercadorias transportadas por navios ingleses ou pertencentes ao Commonwealth. As Províncias Unidas (Holanda), claramente visadas por estas medidas, reagiram. De 1652 a 1674, três guerras opuseram-nas à Inglaterra. A supremacia marítima era, na verdade, a chave da expansão colonial e sobretudo do controlo do comércio com as colónias.
A partir de 1700, a América, a Índia e África forneceram um terço das importações e um sétimo das explorações inglesas, proporções que aumentarão progressivamente no século XVIII (DEYON, 1978, p. 207). A concessão de monopólios para a exploração dos recursos coloniais é a segunda alavanca da expansão comercial. Foram criadas Companhia das Índias Orientais holandesa, fundada em 1602, e outras na Inglaterra, por iniciativa privada e em Portugal, França, Dinamarca e Suécia empresas coloniais como as primeiras sociedades anónimas por acções.
No plano interno, o estímulo da oferta adquire a forma mais acabada em França com a acção sistemática de Colbert em favor das manufacturas. Estas beneficiam de isenções fiscais, de monopólios temporários de fabrico, de empréstimos, encomendas do Estado e privilégios honoríficos como o título de manufactura real. Controlos e regulamentos de fabrico permitem então elevar a qualidade da produção francesa a níveis inigualados na Europa. Um proteccionismo selectivo que faz lembrar o praticado pelos novos países industrializados da Ásia atual que isenta fiscalmente as matérias-primas necessárias à transformação industrial. Nem por isso os impostos cobrados sobre as importações deixam de contribuir para consolidar a posição financeira do Estado, cujos interesses convergem muito exactamente, nesse ponto, com os do círculo dos negócios. Também são proibidas as exportações de produtos de base e de produtos alimentares.
A falta de especialização territorial é então uma característica principal da produção europeia. As rivalidades económicas e os confrontos militares incitam os Estados a promover a autossuficiência em todos os sectores. É neste aspecto exacto que se constitui, em Inglaterra, a reacção liberal que virá a ser política oficial na segunda metade do século XIX assim que ficam asseguradas as bases da hegemonia económica inglesa.
As Províncias Unidas que no século XVII dominavam a economia-mundo europeia tinham dado o exemplo com a criação das primeiras grandes companhias favorecidas com monopólios nas relações com as colónias. No entanto, também se fez defensora incondicional do liberalismo, mantendo as tarifas aduaneiras pouco elevadas, autorizando a livre circulação das moedas e deixando aos seus comerciantes, em plena guerra, o direito de traficar com o inimigo (DEYON, 1978, P. 209) Esta posição que reflectia a vantagem competitiva adquirida pela Holanda na época, explicava-se também pelas dimensões do seu território europeu que a obrigava a explorar o melhor possível, as possibilidades oferecidas pela divisão internacional do trabalho.
O espaço económico internacional que se constitui na sequência da grande abertura planetária é desde logo um espaço fortemente hierarquizado. A sua expansão é indissociável da concorrência que passa a opor entre si os Estados-nações ocidentais. Esta luta pela supremacia nas zonas periféricas redobra de intensidade com a revolução industrial.
Verificamos assim dois tipos principais de sistemas-mundo que são o império-mundo e a economia-mundo. A diferença entre estes dois tipos de sistemas reside na sua configuração política. Num caso, a divisão internacional do trabalho executa-se num espaço estatal único e, no outro caso, dá-se num espaço interestatal.
A existência de trocas internacionais não é um critério suficiente da noção de sistema. O critério essencial é o da divisão internacional do trabalho. Esta supõe que o comércio não se limite à troca de produtos preciosos ou exóticos destinados ao consumo das elites, mas que se articule com o aparelho produtivo. O desenvolvimento desse comércio, numa época em que os custos de transporte eram enormes, só foi possível por causa do valor unitário extremamente elevado deste tipo de mercadorias e portanto dos lucros excepcionais que podiam resultar do seu encaminhamento de uma zona do mundo para outra. Inversamente, as trocas intrassistema dizem respeito a bens intermédios e bens de consumo corrente cuja produção pode requerer a mobilização de recursos naturais ou de produtos semiacabados dispersos no espaço plurinacional.
Do carácter da economia-mundo europeia decorre a sua vocação universal, isto é, a sua propensão a estender-se por todo o espaço mundial, tirando partido da heterogeneidade desse espaço, mas também a sua propensão a transformar tudo em mercadoria. Esta lógica de conjunto não põe em causa a ascensão do poderio dos Estados-nações. Pelo contrário, a centralização do poder político em cada espaço nacional tem como efeito desmultiplicar os meios disponíveis para a rivalidade concorrencial, transferindo os pólos organizadores da acumulação das cidades-Estados para os Estados-nações. Da mesma maneira, a formação dos impérios coloniais não pôs em causa a natureza da economia-mundo do sistema internacional europeu; pelo contrário, é a expressão da concorrência exacerbada entre as principais unidades políticas do sistema e traduz o alargamento do campo dessa concorrência ao nível mundial quando estão reunidos os meios técnicos e militares da dominação da Europa sobre o resto do mundo.
O equilíbrio das potências é, desse ponto de vista, um dos atributos essenciais ao mesmo tempo que a condição de sobrevivência da economia-mundo. Tal equilíbrio significa que uma desproporção das forças em presença em proveito de uma potência em particular arrasta necessariamente a coligação das potências secundárias (BAECHLER, 1971, p. 123). O princípio do equilíbrio das potências não é exclusivo da economia-mundo, mas tem bastante importância devido a que a difusão das tecnologias provoca a busca incansável de novos mercados e de novas fontes de lucro. A ascensão do poder de uma determinada nação desperta assim, devido à sua expansão e às ameaças que ela suscita, a emergência e o reforço de potências rivais. Inversamente, a queda e o declínio da potência dominante não arrasta o colapso do sistema, mas sim a transferência do centro do sistema de um pólo de acumulação a outro: Amsterdão, Londres, Nova Iorque. A economia-mundo extrai vitalidade e longa vida do pluralismo do espaço político no qual se desenvolve, isto é, na sua capacidade de não se deixar fechar num espaço político único.
O equilíbrio das potências não significa a igualdade das forças em presença nem a ausência de relações de dominação. Os mecanismos da dominação ideológica pelos quais determinada classe consegue, num quadro nacional, impor o seu poder a uma formação social não pela força, mas pelo consentimento. Num quadro desprovido de instância soberana dispondo do monopólio da força coerciva e capaz de fixar as regras orientadoras das relações internacionais, a noção de hegemonia permite descrever a forma como uma potência dominante enuncia os dados da ordem desejável em termos universais e a apresenta como uma ordem proveitosa para todos (BADIE e SMOUTS; 1992; p. 126).
As bases materiais da hegemonia situam-se em três domínios: a produção, o comércio e as finanças. Fazem-se e desfazem-se nessa mesma ordem, enquanto que a dominação financeira sobrevive algum tempo à erosão da sua base real, produtiva e comercial. Por três vezes a economia-mundo reuniu estas condições: no século XVII, em benefício das Províncias Unidas (Holanda); no século XIX, em benefício da Inglaterra e em meados do século XX, em benefício dos Estados Unidos. Nos três casos, a hegemonia só se tornou efectiva depois de um ou vários conflitos mundiais em que as potências continentais foram vencidas por potências que dominavam os mares e atualmente, o espaço aéreo. Cada um desses conflitos foi marcado por uma reestruturação profunda do sistema interestatal – Tratados de Vestefália, Congresso de Viena, Acordos de Bretton Woods e Sistema das Nações Unidas. Nos três casos, a potência hegemónica tentou fazer prevalecer os seus interesses pela promoção da livre troca e do liberalismo. De todas as vezes, o declínio da posição hegemónica foi acompanhado de uma erosão do sistema de alianças internacionais e da emergência de potências concorrentes: Inglaterra e França, no século XVIII; Estados Unidos e Alemanha no início do século XX; União Europeia e Japão, após os desequilíbrios dos Estados Unidos.
A interpretação destes ciclos hegemónicos sublinha geralmente três tipos de contradições internas do sistema. A posição hegemónica apresenta em primeiro lugar um custo militar e político, prevalecendo o da defesa e da manutenção da ordem no âmbito da economia-mundo, mas também o do apoio financeiro aos Estados aliados. A dinâmica concorrencial do sistema tem como efeito uma difusão das tecnologias e dos métodos de organização mais avançados que a potência hegemónica não pode evitar. Por fim, a preservação da paz social no seio da potência hegemónica requer uma generosa política de rendimentos que dá origem a uma erosão progressiva da competitividade em relação às outras nações com custos salariais menores. A potência hegemónica tem a obrigação de instaurar e preservar um mercado mundial aberto a todos, um regime monetário internacional estável e um sistema de segurança colectivo. Contudo, isso só é possível se os países em parceria estiverem convencidos de que a potência hegemónica não manipula esses bens para seu único benefício e que todos eles respeitam as regras do jogo, pois os países da segunda linha têm a tentação permanente de aproveitar bens colectivos sem respeitar as regras que os instituem. A existência destes comportamentos justifica a intervenção de uma potência hegemónica dispondo dos meios necessários à preservação da ordem internacional e também dos regimes internacionais em vigor. Na sua falta, a economia internacional torna-se instável e o liberalismo é rapidamente substituído pelo nacionalismo.
No entanto, esta ordem internacional permanece fundamentalmente instável a longo prazo. Incapaz de impedir a difusão das fontes do poder económico – capitais, tecnologia, conhecimentos – a economia de mercado tende a destruir a configuração política que dá base à sua estabilidade. A crise é o momento privilegiado da formação de uma nova ordem internacional, isto é, da passagem de poder, raramente sem dor, de uma potência hegemónica para outra. A crise dá-se quando o mundo antigo ainda não morreu e o novo ainda está para nascer.❐
(continua)
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