terça-feira, 30 de novembro de 2010

Século XV - Lagos Henriquina e pós-Henriquina (XI)

Mais uma vez venho partilhar convosco este meu trabalho – LAGOS, Património e Vida – com o terceiro livro " Século XV - Lagos Henriquina e pós-Henriquina" que começou a ser escrito a 02 de Novembro de 2009 e concluído a 10 de Agosto de 2010 que gostaria muito de vê-lo publicado em livro.
LAGOS – PATRIMÓNIO E VIDA
Livro III – Século XV - Lagos Henriquina e pós-Henriquina
CAP X - A Influência dos Descobrimentos Portugueses na Economia e Política Internacionais
Portugal, com um milhão de habitantes em apenas 89 000 quilómetros quadrados, no princípio do século XVI, torna-se, em poucas décadas, o coração de um império comercial que se estende do Brasil a Macau, englobando as duas costas de África e, portanto, o caminho marítimo para a Índia.
Desde a Antiguidade, o mundo ocidental é deficitário nas suas trocas com o Oriente. Como o continente é pobre em metais preciosos, depende do comércio com o mundo muçulmano para financiar as suas compras de especiarias, pérolas e tecidos preciosos orientais.
De facto, na época, o ouro é um produto africano cujo circuito os mercadores muçulmanos controlam (Vilar, 1974, p.57-58). Génova, a grande rival de Veneza, apoia-se em Lisboa, etapa cómoda na rota da Europa do Norte, mas também posição privilegiada dominando as costas noroeste de África para tentar encontrar um caminho marítimo para oriente. Contudo, os primeiros êxitos portugueses no Norte de África e a descoberta das riquezas da África Ocidental (ouro, marfim, escravos) incutem novo ânimo à empresa do Infante D. Henrique que rapidamente se distancia dos Genoveses. Estes viram-se para Sevilha, outra escala no Mediterrâneo, convertida pelos italianos em praça comercial e financeira.
A partir de 1490, fica cada vez mais clara para os portugueses a perspectiva de uma circum-navegação de África. Nos últimos anos do século, Vasco da Gama dobra o Cabo da Boa Esperança e chega à Índia. Quebra-se assim o monopólio veneziano do comércio das especiarias, já enfraquecido pela queda de Constantinopla, em 1453.
A descoberta desta última rota explica a recusa da coroa portuguesa em financiar a expedição de Cristóvão Colombo, português do Alentejo, que também se propõe atingir a Índia, mas navegando para oeste. Este, por fim, recebe o apoio dos reis católicos de Espanha, desejosos de celebrar deste modo a libertação de Granada dos muçulmanos, em 1492. Em cerca de quatro anos, a Espanha completa a conquista deste novo mundo que se dispõe a colonizar do Chile à Califórnia, da Argentina à Florida, contornando o Brasil português.
Deste empreendimento de alcance planetário, a Europa extrai uma riqueza prodigiosa. Ao afluxo de ouro e prata, junta-se grande quantidade de produtos desconhecidos que vão revolucionar a alimentação europeia (café, cacau, açúcar, batata, tomate, milho, arroz, frutos tropicais, ...) e as manufacturas (algodão, anil, pau-brasil, marfim, ...) proporcionando lucros fabulosos aos comerciantes que conseguiam controlar os novos circuitos comerciais.
O valor dos metais preciosos e especiarias importados pela Europa representa, nesta altura – século XVI - cinco vezes o valor do comércio intra-europeu de trigo que, no entanto, constitui a corrente de trocas marítimas mais considerável em volume (CHAUNU; 1969).
Se Portugal e a Espanha foram durante algum tempo privilegiados devido à sua situação geográfica e história; contudo, não irão capitalizar os enormes recursos extraídos das suas novas possessões. Na época, nenhuma instituição política estava em condições de se apropriar das riquezas dos territórios ultramarinos, retirando-as à classe mercantil ibérica (ROSENBERG e BIRDZELL; 1986; p. 87). Outros negociantes, frequentemente piratas flamengos, holandeses e ingleses ocupam o centro da cena internacional e pilhando, tiram o melhor partido da distribuição dos produtos das colónias e também o abastecimento destas.
A Itália deixa de dominar a economia europeia quando se viu privada do monopólio do comércio das especiarias, minada por lutas internas e devastada pelas invasões estrangeiras. Lisboa substitui-se a Veneza como centro do comércio de especiarias, mas é Antuérpia que se afirma como principal porto europeu na primeira metade do século XVI.
Os Países Baixos (Holanda) por razões dinásticas fazem parte, nesta altura, do imenso império de Carlos V (Espanha). Por isso, estão bem posicionados para tirar proveito do comércio transatlântico da Espanha, mas rejeitam a sua tutela. Em 1568, começa uma longa guerra pela independência que terminará em 1579 com a constituição das Províncias Unidas (Holanda). A parte sul do país, católica, correspondente à atual Bélgica, continua sob o domínio de Espanha. Antuérpia que se ressente da repressão espanhola e do boicote das províncias protestantes do norte, perde progressivamente a sua importância a favor de Amsterdão. Esta cidade afirma-se como a primeira praça económica e financeira da Europa, posição que conservará até ao fim do século XVII.
Esta transferência de poder económico do sul para o norte da Europa, das cidades italianas para as Províncias Unidas, via Portugal e Espanha, constitui um ponto particularmente controverso da história económica.
A emergência da economia-mundo europeia, entre 1450 e 1650, assinalou o aperfeiçoamento das técnicas financeiras com a generalização da letra de câmbio, agora com a prática do endosso. A estrutura das empresas torna-se mais flexível com a aparição das sociedades com filiais, evitando que a falência de um pólo de actividade arraste a queda de um grupo inteiro. O comércio naval beneficia do desenvolvimento em todos os grandes portos europeus de sociedades de seguros marítimos. A concentração financeira torna-se imensa. Neste período, os factos mais marcantes são o domínio europeu sobre o mundo e as rivalidades de poder que suscita. A noção de economia-mundo proposta por Braudel e Immanuel Wallerstein, descreve a constituição, não de uma economia mundial, mas de um espaço económico plurinacional, hierarquizado, mas não unificado politicamente cujas componentes (cidades-Estados, Estados-nações, impérios) se ligam umas às outras através de relações principalmente económicas. O pluralismo político, característica do espaço europeu é o que distingue a economia-mundo do império (WALLERSTEIN, 1974, p.16). A característica das economias-mundo que precederam a da Europa (Mesopotâmia, Mediterrâneo antigo, Roma, China, Pérsia) é acabarem sempre por se transformar em impérios. Contudo, a economia-mundo europeia tem a particularidade de ter resistido sempre a qualquer tentativa de unificação pela força quer se tratasse dos empreendimentos de Carlos V, das guerras napoleónicas ou da sujeição da Europa continental pela Alemanha nazi. A economia-mundo europeia, de tipo capitalista, produz sistematicamente pela difusão da tecnologia que acompanha as trocas, antídotos à sua unificação política que se tornou mundial em poucos séculos de existência.
A economia-mundo europeia, ao mesmo tempo que se mantém estanque, compartimentada no seio de cada Estado, estende as suas ramificações ao mundo inteiro, a partir do século XVI. Em breve se centrará nos Países Baixos, mais exactamente em Amsterdão, muito antes da longa guerra entre a Espanha e as Províncias Unidas (1568-1648). A economia-mundo europeia estrutura-se em círculos concêntricos cujo peso económico vai diminuindo ao mesmo tempo que cresce o grau de dependência em relação ao centro (Braudel, 1985).
O primeiro círculo é constituído por pretendentes à hegemonia europeia – Inglaterra e França. Se nos abstrairmos das unidades políticas a que essas regiões económicas estão ligadas; o conjunto formado pelos Países Baixos (Holanda), o sul e o leste da Inglaterra e o norte da França podem ser considerados o centro do sistema, por volta de 1600.
O segundo círculo inclui as regiões afastadas da luta pela hegemonia, mas cujo potencial económico continua a ser importante – norte da Itália, Espanha, Portugal, norte da Alemanha e as cidades do Báltico, cujo controlo os comerciantes alemães perderam progressivamente a favor dos holandeses e ingleses.
O último círculo da periferia do sistema, é formado pela Escandinávia, Escócia, Irlanda, leste da Europa, sul da Itália e as colónias da América.
Um dos aspectos marcantes desta economia-mundo é o grau de liberdade política diminuir à medida que nos afastamos do centro e as relações de produção se tornam cada vez mais arcaicas. Nas colónias, quase todo o sistema económico é caracterizado pela escravatura. No leste da Europa, domina ainda a servidão, mais feroz do que a que se viveu na Idade Média, na Europa Ocidental. No centro da economia-mundo, pelo contrário, a opulência económica é acompanhada de liberdades políticas.
A abertura da Europa ao exterior, a partir do século XI, foi realizada pela classe emancipada de mercadores nas cidades portuárias do Mediterrâneo e do Mar do Norte com um poder central enfraquecido. Enquanto as cidades-Estado prosperavam graças ao comércio internacional, os Estados-nações da Europa Ocidental preparavam o terreno para uma mutação considerável dos sistemas económicos. Amsterdão que domina a Europa no século XVII, assume-se como a última cidade-Estado da história.
A partir do século XVIII, o centro da economia-mundo europeia deixa de ser uma cidade-Estado para se tornar a capital de um Estado-nação que confere à indústria em pleno desenvolvimento a consistência de um mercado interno finalmente descompartimentado.
O desenvolvimento dos Estados-nações aconteceu durante a longa fase de depressão económica e de conflitos militares do fim da Idade Média, entre 1350-1450. Em Espanha e em Portugal, o poder central afirma-se após a reconquista da península aos mouros. Em França e na Inglaterra é a Guerra dos Cem Anos que desempenha o papel decisivo na constituição de monarquias centralizadas e na emergência de uma identidade nacional. Trata-se da decomposição da economia feudal devido às necessidades financeiras dos Estados e à ascensão da economia urbana.
No século XVII, mais uma vez, a centralização política acelera-se devido a uma grande crise internacional – a Guerra dos Trinta Anos, de 1618 a 1648 – que marca o fim dos Habsburgo de Espanha sobre o continente europeu. Seguir-se-á, a partir de 1651, uma longa série de conflitos entre as Províncias Unidas, a Inglaterra e a França que terminará dando à Inglaterra, no início do século XIX, o novo estatuto hegemónico (Wallerstein, 1980).
A longa fase de crescimento da economia europeia, iniciada pela abertura planetária realizada pelos Portugueses, no século XV, interrompe-se, em 1600. Não se trata de uma depressão continental, mas sim de um abrandamento do crescimento, nitidamente diferenciado de região para região, a crise é geral: religiosa, política, internacional, económica e demográfica. É neste contexto de rivalidades internacionais exacerbadas e de estagnação económica que vai germinando a Teoria Mercantilista.
A subida dos preços, no século XVI, interpretada pela teoria quantitativa da moeda como devida ao afluxo dos metais preciosos das colónias, vai completar o processo de destruição dos beneficiários de rendimentos agrícolas em proveito da classe dos mercadores.
Na verdade, a revolução dos preços que triplicam num só século, traduz-se por uma inflação dos lucros porque o preço das mercadorias aumenta mais rapidamente do que os seus custos de fabrico (salários e matérias-primas) o que é um poderoso incentivo à produção manufactureira, mas esta continua a ser entravada nas cidades pelos monopólios das corporações, instituições de artesãos poderosas da Idade Média. A solução para a classe burguesa mercantil vem dos campos: «Em redor de todas as capitais ocidentais do têxtil, os comerciantes à procura de uma mão-de-obra de operários menos exigentes do que os artesãos urbanos, recrutaram fiadeiras e tecelões aos milhares.» (Deyon, 1987, p. 264) Além disto, a classe mercantil compra, também a título de investimento, as terras dos senhores feudais arruinados a bom preço. Assim a economia mercantil penetra no mundo rural, tendo nascido das relações internacionais entre as cidades-livres e criando uma poderosa classe mercantil enriquecida por um século de expansão económica contínua.
Mais uma vez, é a guerra o principal estímulo ao processo de centralização política. O enorme aumento das despesas resultante da manutenção e equipamento de exércitos profissionalizados para a defesa principalmente das colónias, obriga os Estados a mobilizar fundos. Para os conseguir, os reis têm como única opção apoiar-se nos círculos de negócios que fornecem armas, metais e crédito e contribuem com o seu conhecimento dos mecanismos da economia e as suas redes internacionais. «Nessa altura, o Estado não tinha só precisão de serviços de intendência e arsenais, mas também lhe faltava um banco central, tesouraria pública e funcionários competentes.» (Deyon, 1978, p. 256). Apenas as Províncias Unidas (Holanda) que dispõe do Banco de Amsterdão e a Inglaterra que dispõe do Banco da Inglaterra, fundado em 1694, existem em toda a Europa e vão ser assediados pelos outros países da Europa para obterem os meios financeiros necessários às suas políticas e para obterem letras de câmbio sobre as grandes praças financeiras – Amsterdão, Genebra, Hamburgo – e pagar as dívidas internacionais. Desta maneira, negociantes e financeiros infiltram-se a todos os níveis do aparelho do Estado, ficando os negociantes com a gestão da fiscalidade e os financeiros com as finanças reais. Assim fazem valer as suas opiniões e os seus interesses sobre a condução da política económica, beneficiando das melhores oportunidades – atribuição de monopólios, encomendas do Estado – e proteger-se contra eventuais processos judiciais e cobranças fiscais.
Então o contexto de crise económica fornece assim uma chave importante para a interpretação das mudanças ocorridas nesta época, tanto devido às guerras como às epidemias por elas propagadas ou ao declínio do afluxo de metais preciosos da América (estes dois fenómenos não são independentes um do outro). A crise que se difunde da Espanha em 1600 e a crise da Itália, em 1620, para as crises na Alemanha e na França, em 1630 e depois na Inglaterra e nas Províncias Unidas, em 1650, fazem realçar os limites de um crescimento unicamente baseado no alargamento das exportações, reforçando assim as reivindicações dos negociantes para uma maior liberdade no comércio externo.
Dominando a actividade industrial desde a Idade Média, as corporações só podiam conservar os seus privilégios numa estrutura produtiva atomista, caracterizada pela existência de inúmeras pequenas empresas artesanais de dimensões semelhantes (Garden, 1978). O aumento da concentração industrial e a deslocalização das actividades industriais para a periferia para liquidar as conquistas do mundo do trabalho é apenas uma estratégia já muito antiga.
Na época mercantil, os campos ainda fazem parte da periferia de uma economia-mundo cujo desenvolvimento se fez por abertura ao exterior e penetração em espaços continentais num movimento de fora para dentro, do comércio internacional para o comércio interno.
O mercantilismo surge como o primeiro exemplo de intervenção sistemática e coerente do Estado na vida económica. Depois da expansão do século XVI, o século XVII surge com o abrandamento do movimento de trocas que alimenta a convicção de que o enriquecimento de uns é sinónimo do empobrecimento de outros. Num mercado mundial em estagnação, o crescimento económico só pode realizar-se com os lucros de partes do mercado. Assim enriquecer torna-se a palavra-chave. Contudo «quase todos sabiam que uma população numerosa e industriosa, um solo fértil em clima favorável, manufacturas e uma marinha activas eram as verdadeiras fontes e garantes da riqueza. Se davam tanta importância ao saldo em metais preciosos das trocas internacionais era porque o ouro e a prata continuavam na base de um sistema de crédito ainda rudimentar e, portanto, seriam o recurso supremo do príncipe.» (DEYON; 1978; p. 199)
A acumulação de metais preciosos servia para garantir o crédito do Estado, financiar a guerra e para manter um nível elevado de circulação monetária e assim impedir a baixa dos preços e a subida das taxas de juro. Segundo os mercantilistas, esta acumulação poderia ser realizada com mais segurança por políticos que quisessem libertar excedentes comerciais do que pela proibição de saídas de metais preciosos, usando o estímulo à produção interna, através de uma protecção contra as importações e o encorajamento das exportações. Esta política, para além do efeito positivo no saldo comercial, deveria permitir aumentar as receitas do Estado, alargando o âmbito fiscal.
Os temas principais desta doutrina – Mercantilismo – inteiramente consagrada ao reforço do poder do Estado, são a apologia do trabalho manufactureiro, do comércio e da expansão colonial.
A partir do século XVII, a natureza agressiva do mercantilismo, no plano externo, exprime-se pelas Leis da Navegação Inglesas. Segundo estes diplomas, só podiam entrar na Inglaterra as mercadorias transportadas por navios ingleses ou pertencentes ao Commonwealth. As Províncias Unidas (Holanda), claramente visadas por estas medidas, reagiram. De 1652 a 1674, três guerras opuseram-nas à Inglaterra. A supremacia marítima era, na verdade, a chave da expansão colonial e sobretudo do controlo do comércio com as colónias.
A partir de 1700, a América, a Índia e África forneceram um terço das importações e um sétimo das explorações inglesas, proporções que aumentarão progressivamente no século XVIII (DEYON, 1978, p. 207). A concessão de monopólios para a exploração dos recursos coloniais é a segunda alavanca da expansão comercial. Foram criadas Companhia das Índias Orientais holandesa, fundada em 1602, e outras na Inglaterra, por iniciativa privada e em Portugal, França, Dinamarca e Suécia empresas coloniais como as primeiras sociedades anónimas por acções.
No plano interno, o estímulo da oferta adquire a forma mais acabada em França com a acção sistemática de Colbert em favor das manufacturas. Estas beneficiam de isenções fiscais, de monopólios temporários de fabrico, de empréstimos, encomendas do Estado e privilégios honoríficos como o título de manufactura real. Controlos e regulamentos de fabrico permitem então elevar a qualidade da produção francesa a níveis inigualados na Europa. Um proteccionismo selectivo que faz lembrar o praticado pelos novos países industrializados da Ásia atual que isenta fiscalmente as matérias-primas necessárias à transformação industrial. Nem por isso os impostos cobrados sobre as importações deixam de contribuir para consolidar a posição financeira do Estado, cujos interesses convergem muito exactamente, nesse ponto, com os do círculo dos negócios. Também são proibidas as exportações de produtos de base e de produtos alimentares.
A falta de especialização territorial é então uma característica principal da produção europeia. As rivalidades económicas e os confrontos militares incitam os Estados a promover a autossuficiência em todos os sectores. É neste aspecto exacto que se constitui, em Inglaterra, a reacção liberal que virá a ser política oficial na segunda metade do século XIX assim que ficam asseguradas as bases da hegemonia económica inglesa.
As Províncias Unidas que no século XVII dominavam a economia-mundo europeia tinham dado o exemplo com a criação das primeiras grandes companhias favorecidas com monopólios nas relações com as colónias. No entanto, também se fez defensora incondicional do liberalismo, mantendo as tarifas aduaneiras pouco elevadas, autorizando a livre circulação das moedas e deixando aos seus comerciantes, em plena guerra, o direito de traficar com o inimigo (DEYON, 1978, P. 209) Esta posição que reflectia a vantagem competitiva adquirida pela Holanda na época, explicava-se também pelas dimensões do seu território europeu que a obrigava a explorar o melhor possível, as possibilidades oferecidas pela divisão internacional do trabalho.
O espaço económico internacional que se constitui na sequência da grande abertura planetária é desde logo um espaço fortemente hierarquizado. A sua expansão é indissociável da concorrência que passa a opor entre si os Estados-nações ocidentais. Esta luta pela supremacia nas zonas periféricas redobra de intensidade com a revolução industrial.
Verificamos assim dois tipos principais de sistemas-mundo que são o império-mundo e a economia-mundo. A diferença entre estes dois tipos de sistemas reside na sua configuração política. Num caso, a divisão internacional do trabalho executa-se num espaço estatal único e, no outro caso, dá-se num espaço interestatal.
A existência de trocas internacionais não é um critério suficiente da noção de sistema. O critério essencial é o da divisão internacional do trabalho. Esta supõe que o comércio não se limite à troca de produtos preciosos ou exóticos destinados ao consumo das elites, mas que se articule com o aparelho produtivo. O desenvolvimento desse comércio, numa época em que os custos de transporte eram enormes, só foi possível por causa do valor unitário extremamente elevado deste tipo de mercadorias e portanto dos lucros excepcionais que podiam resultar do seu encaminhamento de uma zona do mundo para outra. Inversamente, as trocas intrassistema dizem respeito a bens intermédios e bens de consumo corrente cuja produção pode requerer a mobilização de recursos naturais ou de produtos semiacabados dispersos no espaço plurinacional.
Do carácter da economia-mundo europeia decorre a sua vocação universal, isto é, a sua propensão a estender-se por todo o espaço mundial, tirando partido da heterogeneidade desse espaço, mas também a sua propensão a transformar tudo em mercadoria. Esta lógica de conjunto não põe em causa a ascensão do poderio dos Estados-nações. Pelo contrário, a centralização do poder político em cada espaço nacional tem como efeito desmultiplicar os meios disponíveis para a rivalidade concorrencial, transferindo os pólos organizadores da acumulação das cidades-Estados para os Estados-nações. Da mesma maneira, a formação dos impérios coloniais não pôs em causa a natureza da economia-mundo do sistema internacional europeu; pelo contrário, é a expressão da concorrência exacerbada entre as principais unidades políticas do sistema e traduz o alargamento do campo dessa concorrência ao nível mundial quando estão reunidos os meios técnicos e militares da dominação da Europa sobre o resto do mundo.
O equilíbrio das potências é, desse ponto de vista, um dos atributos essenciais ao mesmo tempo que a condição de sobrevivência da economia-mundo. Tal equilíbrio significa que uma desproporção das forças em presença em proveito de uma potência em particular arrasta necessariamente a coligação das potências secundárias (BAECHLER, 1971, p. 123). O princípio do equilíbrio das potências não é exclusivo da economia-mundo, mas tem bastante importância devido a que a difusão das tecnologias provoca a busca incansável de novos mercados e de novas fontes de lucro. A ascensão do poder de uma determinada nação desperta assim, devido à sua expansão e às ameaças que ela suscita, a emergência e o reforço de potências rivais. Inversamente, a queda e o declínio da potência dominante não arrasta o colapso do sistema, mas sim a transferência do centro do sistema de um pólo de acumulação a outro: Amsterdão, Londres, Nova Iorque. A economia-mundo extrai vitalidade e longa vida do pluralismo do espaço político no qual se desenvolve, isto é, na sua capacidade de não se deixar fechar num espaço político único.
O equilíbrio das potências não significa a igualdade das forças em presença nem a ausência de relações de dominação. Os mecanismos da dominação ideológica pelos quais determinada classe consegue, num quadro nacional, impor o seu poder a uma formação social não pela força, mas pelo consentimento. Num quadro desprovido de instância soberana dispondo do monopólio da força coerciva e capaz de fixar as regras orientadoras das relações internacionais, a noção de hegemonia permite descrever a forma como uma potência dominante enuncia os dados da ordem desejável em termos universais e a apresenta como uma ordem proveitosa para todos (BADIE e SMOUTS; 1992; p. 126).
As bases materiais da hegemonia situam-se em três domínios: a produção, o comércio e as finanças. Fazem-se e desfazem-se nessa mesma ordem, enquanto que a dominação financeira sobrevive algum tempo à erosão da sua base real, produtiva e comercial. Por três vezes a economia-mundo reuniu estas condições: no século XVII, em benefício das Províncias Unidas (Holanda); no século XIX, em benefício da Inglaterra e em meados do século XX, em benefício dos Estados Unidos. Nos três casos, a hegemonia só se tornou efectiva depois de um ou vários conflitos mundiais em que as potências continentais foram vencidas por potências que dominavam os mares e atualmente, o espaço aéreo. Cada um desses conflitos foi marcado por uma reestruturação profunda do sistema interestatal – Tratados de Vestefália, Congresso de Viena, Acordos de Bretton Woods e Sistema das Nações Unidas. Nos três casos, a potência hegemónica tentou fazer prevalecer os seus interesses pela promoção da livre troca e do liberalismo. De todas as vezes, o declínio da posição hegemónica foi acompanhado de uma erosão do sistema de alianças internacionais e da emergência de potências concorrentes: Inglaterra e França, no século XVIII; Estados Unidos e Alemanha no início do século XX; União Europeia e Japão, após os desequilíbrios dos Estados Unidos.
A interpretação destes ciclos hegemónicos sublinha geralmente três tipos de contradições internas do sistema. A posição hegemónica apresenta em primeiro lugar um custo militar e político, prevalecendo o da defesa e da manutenção da ordem no âmbito da economia-mundo, mas também o do apoio financeiro aos Estados aliados. A dinâmica concorrencial do sistema tem como efeito uma difusão das tecnologias e dos métodos de organização mais avançados que a potência hegemónica não pode evitar. Por fim, a preservação da paz social no seio da potência hegemónica requer uma generosa política de rendimentos que dá origem a uma erosão progressiva da competitividade em relação às outras nações com custos salariais menores. A potência hegemónica tem a obrigação de instaurar e preservar um mercado mundial aberto a todos, um regime monetário internacional estável e um sistema de segurança colectivo. Contudo, isso só é possível se os países em parceria estiverem convencidos de que a potência hegemónica não manipula esses bens para seu único benefício e que todos eles respeitam as regras do jogo, pois os países da segunda linha têm a tentação permanente de aproveitar bens colectivos sem respeitar as regras que os instituem. A existência destes comportamentos justifica a intervenção de uma potência hegemónica dispondo dos meios necessários à preservação da ordem internacional e também dos regimes internacionais em vigor. Na sua falta, a economia internacional torna-se instável e o liberalismo é rapidamente substituído pelo nacionalismo.
No entanto, esta ordem internacional permanece fundamentalmente instável a longo prazo. Incapaz de impedir a difusão das fontes do poder económico – capitais, tecnologia, conhecimentos – a economia de mercado tende a destruir a configuração política que dá base à sua estabilidade. A crise é o momento privilegiado da formação de uma nova ordem internacional, isto é, da passagem de poder, raramente sem dor, de uma potência hegemónica para outra. A crise dá-se quando o mundo antigo ainda não morreu e o novo ainda está para nascer.❐
(continua)
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