Mais uma vez venho partilhar convosco este meu trabalho – LAGOS, Património e Vida – com o terceiro livro " Século XV - Lagos Henriquina e pós-Henriquina" que começou a ser escrito a 02 de Novembro de 2009 e concluído a 10 de Agosto de 2010 que gostaria muito de vê-lo publicado em livro.
LAGOS – PATRIMÓNIO E VIDA
Livro III – Século XV - Lagos Henriquina e pós-Henriquina
CAP VIII – A rainha D. Leonor e as Misericórdias
Escrever sobre D. João II e não escrever sobre a sua esposa é de alguma injustiça, pois se ele foi um rei muito inteligente, competente e reformador a sua esposa, rainha D. Leonor esteve à sua altura e deixou também obra sua importante para a posteridade.
D. Leonor nasceu em Beja a 02 de Maio de 1458 e partiu de Lisboa para o outro mundo no dia 17 de Novembro de 1525. A rainha D. Leonor pertencia à mais alta nobreza da época: era filha dos infantes D. Fernando, irmão de D. Afonso V e de D. Brites que era filha do Infante D. João, filho legítimo de D. João I; neta materna do infante D. João e da infanta D. Isabel, filha do Infante D. Fernando e neta paterna do rei D. Duarte e da rainha D. Leonor de Aragão.
Já agora, Infante(s) era a palavra que designava o(s) filho(s) do rei português ou espanhol que não era primogénito e portanto não-herdeiro do trono.
D. Leonor casou com seu primo e futuro rei D. João II no dia 22 de Janeiro de 1471 e entre outros bens levou no seu dote LAGOS – vila e Castelo por contrato de casamento de 16 de Setembro de 1473 que seu irmão D. Diogo, Duque de Viseu, lhe ofereceu. Assim LAGOS que já estava ligada à Coroa indirectamente pelo Infante D. Henrique, Senhor de Lagos; passou a estar ligada directamente à Coroa Portuguesa enquanto D. Leonor foi esposa do rei de Portugal de 1481 a 1495.
D. Leonor foi mãe de um filho, o príncipe D. Afonso (1475-1491). Ao longo da vida, D. Leonor foi-se afastando cada vez mais de D. João II, seu esposo. Este facto acentuou-se com a morte do seu único filho, D. Afonso, em meados de 1491. Também as tentativas feitas pelo rei para legitimar o seu filho bastardo, D. Jorge, contribuíram para o afastamento da rainha na sua relação com o marido. Esta opôs-se fortemente à legitimação de D. Jorge, defendendo que deveria ser D. Manuel, duque de Beja e seu irmão, a ocupar o trono.
D. Leonor ficou regente do reino de Portugal em 1476 quando D. Afonso V e o príncipe D. João (II) empreenderam a campanha que teve o seu desfecho em Toro. D. Afonso V invadiu Castela e teve inicialmente o apoio de alguns importantes nobres de Castela, mas esse apoio foi diminuindo pouco a pouco e na batalha de Toro D. Afonso V ficou ferido. Os historiadores portugueses consideram o resultado militar desta batalha indeciso; os historiadores castelhanos consideram-no uma vitória decisiva. A verdade é que a batalha de Toro representou o fim das pretensões do rei português à coroa de Espanha.
D. Leonor voltou a ser regente em 1498.
Esteve envolvida nos jogos de poder de importantes casas senhoriais como a de Bragança e a de Viseu. Desempenhou um papel importante no conflito que se vinha desenvolvendo desde as Cortes de Évora de 1481 e que envolvia os privilégios e benefícios da nobreza.
Nesta luta do seu marido com a nobreza e que culminou com a morte do seu irmão D. Diogo, D. Leonor soube sempre vencer a dor desta perda com dolorida reserva. Porém, opôs-se firmemente a que D. Jorge, filho bastardo do seu marido, sucedesse a seu marido no trono e assegurou a coroa para seu irmão D. Manuel (I), o que veio a verificar-se.
D. Leonor é recordada pela sua acção no domínio da assistência aos necessitados. De entre várias obras:
promoveu a hidroterapia, abrindo o hospital termal que em sua memória se ficou a chamar Caldas da Rainha.
Ordenou a criação das Misericórdias cuja actuação se estendia a todo o território e cuja acção a favor dos mais desprotegidos perdura até aos nossos dias. Os Estatutos da Misericórdia de Lisboa foram o modelo para as Casas da Misericórdia de Lagos e de Goa. Em Lagos, o hospital e igreja da vila murada são entregues para património da Santa Casa da Misericórdia de Lagos, em 1498. Passam a hospital e igreja da Misericórdia com responsabilidade também sobre o hospital Lourenço Estevens na rua Lançarote de Freitas e o hospital da Gafaria. Tudo sob o patrocínio da rainha D. Leonor, Senhora de Lagos.
D. Leonor distinguiu-se como promotora de iniciativas culturais.
Foi protectora das letras, da imprensa e das artes, tendo também sido a responsável pela versão impressa e traduzida, em 1518, da obra de Christine de Pisan, O espelho de Cristina, considerada por alguns autores contemporâneos como o início do movimento feminista.
Custeou a magnífica edição portuguesa da Vita Christi.
Protegeu Gil Vicente, o fundador do teatro português e Damião de Góis.
Fundou conventos como o da Madre de Deus e da Anunciada.
Promoveu a construção das Capelas Imperfeitas no Mosteiro de Santa Maria da Vitória na Batalha.
A sua vida foi um exemplo como mulher e nas funções que desempenhou, honrando as mulheres da sua época.❐ (continua)
mailto:eu.maria.figueiras@gmail.com
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