terça-feira, 2 de novembro de 2010

Século XV - Lagos Henriquina e pós-Henriquina - VII

Mais uma vez venho partilhar convosco este meu trabalho – LAGOS, Património e Vida – com o terceiro livro " Século XV - Lagos Henriquina e pós-Henriquina" que começou a ser escrito a 02 de Novembro de 2009 e concluído a 10 de Agosto de 2010 que gostaria muito de vê-lo publicado em livro.
LAGOS – PATRIMÓNIO E VIDA
Livro III – Século XV - Lagos Henriquina e pós-Henriquina
CAP VII – A Empresa dos Descobrimentos
As condições que estiveram na base da expansão do século XV por que Portugal passou, foram principalmente a desorganização da sociedade rural pela economia monetária, o desemprego, a alta de salários devido à falta de mão-de-obra, o domínio dos grandes burgueses ligados ao comércio marítimo.
Ao começar o século XV, as condições internas criavam uma oportunidade excelente porque a expansão correspondia aos interesses de todas as classes sociais que, no conjunto, constituíam a contraditória sociedade portuguesa. Para o povo, a expansão foi sobretudo uma forma de emigração e representava o que para ele a emigração sempre representou: a possibilidade de uma vida melhor e a libertação de um sistema de opressões que, em relação às classes mais baixas foi sempre pesado e do qual eles também sempre se procuraram libertar, buscando novas terras. Para clérigos e nobres, cristianização e conquista eram formas de servir Deus e o rei e merecer por isso as recompensas adequadas: comendas, tenças, capitanias, ofícios, tudo oportunidades difíceis de conseguir no Portugal Europeu. Para os mercadores, era a perspectiva do bom negócio, das matérias-primas colhidas na origem e revendidas com bom lucro. Para o rei, era um motivo de prestígio, uma nova forma de ocupar os nobres e principalmente a criação de novas fontes de receita numa época em que os rendimentos da coroa tinham descido muito. Desta convergência de interesses só ficavam de fora os lavradores, empresários das explorações agrícolas para quem a saída do país representava o encarecimento da mão-de-obra.
Com os Descobrimentos, a nação vai tornar-se consumidora de bens produzidos fora dela ou da riqueza que através desses bens consegue. Isso explica que o início do período das grandes navegações coincida com o termo do período das guerras civis. A expansão passa a constituir desde então uma espécie de grande projecto nacional ao qual todos aderem porque todos esperam vir a ganhar com ele e explica também que a política de expansão ultramarina tenha repercutido tão profundamente sobre tantos aspectos da vida portuguesa e que tenha conseguido ser, num Estado onde todos os planos e projectos foram efémeros e provisórios e nunca excederam o tempo de uma geração, uma actividade permanente que, através das várias formas que o condicionalismo da história o permitiu, fez parte do programa do Estado durante cinco séculos.
Já ficou descrito que tudo começou com a conquista e manutenção de Ceuta para a qual o Infante D. Henrique angariou bastantes fundos e tutelas, instalando-se em Lagos - base estratégica e logística deste projecto.
Da sua prática, surgem os Descobrimentos que cada vez mais se vão impondo e destacando com maior importância do que a manutenção de Ceuta. Contudo, o Infante D. Henrique nunca abandonou o primeiro projecto pelo qual tinha dado a sua palavra e assumido compromissos de honra.
Ceuta está ligada ao descobrimento das ilhas; os bons resultados da pequena feitoria de Arguim levaram a construir uma sólida base na Mina e a partir da Mina se continuou a exploração do litoral africano que revelou a passagem para a Índia. A colonização do Brasil começou quando os lucros da Ásia declinaram e a da África só progrediu quando o Brasil se tornou independente. São etapas que não se podem desligar e cada uma delas não pode ser compreendida sem a referência à anterior.
A primeira expedição organizada pelo Estado português para a descoberta de novas terras, foi uma viagem às Canárias antes de 1336 a mando do rei D. Afonso IV, mas sem consequências. Um século depois, estiveram lá navios de D. João I e estiveram lá também navios de Castela. A disputa da posse destas ilhas, as Canárias, prolongou-se durante anos e o caso foi submetido à decisão papal. Em 1436, o Papa, que era de nacionalidade castelhana, decidiu dar a razão a Castela contra Portugal, mas os portugueses não se deram por vencidos e a questão arrastou-se até 1478. Nessa altura, D. João II, ainda infante, serviu-se do assunto como moeda de troca: pela paz das Alcáçovas (que pôs fim às pretensões de D. Afonso V à sucessão no trono de Castela) e Portugal desistiu de quaisquer direitos sobre as Canárias, mas Castela renunciava ao direito às novas terras que pudessem vir a ser descobertas ao sul daquele arquipélago.
Relativamente à Madeira, ainda no reinado de D. João I, os portugueses, após terem desembarcado no Porto Santo em 1417 e 1419 e na Madeira em 1420, alguns anos depois, iniciaram lá a sua colonização. Uma centena de colonos foi lá instalada e começou imediatamente o desbravamento das terras. Os pequenos abrigos depressa se transformaram em vilas: o Funchal e o Machico receberam carta de foral em 1451. No solo dos antigos bosques foi plantado o trigo, a cana-do-açúcar e a vinha. Em 1455, já se exportava significativamente para Portugal e para as fortalezas do Norte de África. O ritmo do desenvolvimento continuou muito intenso até ao fim do século. Nas Cortes de 1481, afirmou-se que, no ano anterior, vinte naus estrangeiras tinham saído da ilha carregadas de açúcar e pedia-se ao rei que proibisse lá a fixação de estrangeiros que afluíam em grande número. Em 1500, a população da Madeira e Porto Santo já era de, aproximadamente, vinte mil pessoas.
Relativamente aos Açores, foi um piloto do rei D. João I, Diogo de Silves, que avistou e aportou pela primeira vez nas ilhas dos grupos central e oriental, em 1427. A colonização iniciou-se pouco depois. Em 1431-32, expedições lideradas por Frei Gonçalo Velho, comendador da Ordem de Cristo e enviado pelo Infante D. Henrique, lançou animais domésticos e iniciou o povoamento das ilhas. Em 1439, na regência do Infante D. Pedro, o Infante D. Henrique mandava enviar carneiros para lá. As famílias de colonos, idas de Portugal, povoaram as primeiras ilhas: S. Miguel e Santa Maria. As ilhas do grupo ocidental foram descobertas em 1448, no reinado de D. Afonso V, por Diogo de Teive que aportou às ilhas Flores e Corvo. Nos fins do século XV, já era importante a produção de trigo que se exportava em grande quantidade para o continente.
Que reinados passaram durante a vida do Infante D. Henrique e que papel tiveram nos Descobrimentos?
Na primeira fase dos Descobrimentos, temos o reinado de D. João I, seu pai, de 1385 a 1433. De seguida, surge o reinado do filho de D. João I, D. Duarte, de 1433 a 1438. Após, temos o reinado de D. Afonso V, filho de D. Duarte, com dois períodos distintos: a regência do Infante D. Pedro, irmão de D. Duarte, de 1438 a 1447 e o próprio reinado de D. Afonso V, de 1447 a 1481. Já agora, para completar o século XV, a D. Afonso V segue-se D. João II, filho de D. Afonso V, de 1481 a 1495. Nas vésperas do início do século XVI, Portugal conhece um novo rei, D. Manuel I – duque de Beja, primo de D. João II, de 1495 a 1521.
Voltando ao tema, ainda no reinado de D. João I, a exploração do litoral africano começou pouco depois da conquista de Ceuta. Há notícia de uma viagem de exploração ordenada pelo Infante D. Henrique, em 1416; mas o primeiro grande feito histórico dos Descobrimentos Portugueses foi o avançar para lá do Cabo Bojador, já no reinado de D. Duarte, em 1434, por Gil Eanes, natural de Lagos e escudeiro do Infante D. Henrique que depois o fez cavaleiro em recompensa pelos serviços prestados. Só logrou este feito à segunda tentativa, comandando uma barca, mas este feito inicia a progressiva descoberta do contorno marítimo ocidental do continente africano. Por carta de 26 de Dezembro de 1457, o Infante D. Henrique fazia doação à Ordem de Cristo dos direitos de trato e resgate que tinha na Guiné desde o cabo Bojador para sul, onde dizia terem principiado os seus descobrimentos africanos. Até 1434, os navios não conseguiam atingir o principal objectivo pretendido pelo Infante D. Henrique: dobrar o Cabo Bojador. As embarcações dispersavam-se por derrotas de corso, passando à costa de Granada, do Levante ou, quando muito, das Canárias. O medo do desconhecido, a dúvida de obter proveito em tal empresa retinha os navegadores aquém do cabo; por essência, a fronteira entre dois espaços, dois mundos ou melhor, o mundo habitado e conhecido e o antimundo, o caos. «Como passaremos - diziam eles – os termos que puseram nossos pais ou que proveito pode trazer para o Infante a perdição das nossas almas juntamente com os nossos corpos, seremos nós homicidas de nós mesmos? (...) É claro que depois deste cabo não há aí gente nem povoação alguma. A terra não é menos arenosa do que os desertos da Líbia onde não há água, nem árvore, nem erva verde e o mar é tão baixo que, a uma légua de terra, não há fundo mais do que uma braça. As correntes são tamanhas que navio que lá passe jamais poderá tornar. Por isso os nossos antecessores nunca se entremeteram de o passar» (Zurara, 1981, cap. VIII, p.68).
A partir daquele feito, em 1434, no reinado de D. Duarte, em dois anos (1435 e 1436) são cumpridos cerca de 50 quilómetros de costa, segundo estimativas de Damião Peres, entre o Cabo Bojador e a Pedra da Galé. O objectivo principal destas expedições era ainda o reconhecimento costeiro e a obtenção de notícias sobre o interior por navegadores a cavalo.
Entre 1437 e 1440, as navegações conhecem uma paragem associada aos problemas que se viviam no reino, após o desastre de Tânger e a morte do rei D. Duarte, situações em que o Infante D. Henrique estava profundamente envolvido.
Em 1440, durante a regência do Infante D. Pedro, Nuno Tristão, cavaleiro da Casa do Infante D. Henrique, capitaneava uma caravela, embarcação inaugurada nesta altura. Depois da embarcação superar os problemas apresentados; Nuno Tristão parte novamente no ano seguinte, 1441 e alcança o cabo Branco.
Em 1443, Nuno Tristão ultrapassa o limite da Pedra da Galé e chega à ilha das Garças.
O ano de 1443 abre uma nova fase nas navegações henriquinas devido ao apoio e estímulo da Regência do Infante D. Pedro: trata-se da concessão ao Infante D. Pedro do privilégio quer de empreender e autorizar viagens, quer de receber o quinto dos proventos que das mesmas adviesse. Que se passou?
D. Duarte morre em Tomar, em 1438. D. Afonso, terceiro filho de D. Duarte – os dois primeiros morreram no mesmo ano em que nasceram – nasce em Sintra, em 1432; D. Afonso tem seis anos quando o pai lhe morre e é aclamado rei, em 1438.
Duarte, por testamento, expressa a sua vontade de deixar a regência do reino de Portugal e todo o poder real, enquanto D. Afonso fosse menor, à sua esposa, a Rainha D. Leonor, irmã de D. Afonso V de Aragão e filha do rei D. Fernando I de Aragão. Porquê? Devido à política externa. D. Pedro, irmão de D. Duarte, casara também em Aragão, em 1428, com Isabel, uma das filhas do Conde D. Jaime da Casa de Urgel, Aragão, pretendente ao trono de Aragão. Assim há animosidade entre a rainha D. Leonor e D. Isabel, esposa de D. Pedro.
Então, a solução mais normal era a que adoptou: D. Leonor ficar com todos os poderes reais.
Logo surgiram os defensores da tese de que era às Cortes que caberia escolher o Regente para o rei-menino. As Cortes de Lisboa e do Porto escolhem para Regente do Reino D. Pedro, irmão de D. Duarte. Então, o Infante D. Henrique, ajudado pelos filhos de D. Afonso, I Duque de Bragança, acorre a Portugal dividido. É o cauteloso, razoável plano de divisão dos poderes: a rainha fica a governar os filhos e os bens; o Infante D. Pedro tem o cargo especial da Justiça com o título de «Defensor do Reino por El-Rei». D. Pedro há-de vencer ou perder. É D. Pedro que triunfa na rua e também triunfa nas Cortes.
Em 1441, D. Leonor é convidada a sair de Portugal e sai para Castela; morre repentinamente no dia 19 de Fevereiro de 1445.
O maior apoio de D. Pedro na Regência foi o Infante D. João, seu irmão, que morre em Outubro de 1442.
Em 1446, aos catorze anos, D. Afonso (V) já pode assumir legalmente o cargo de rei, mas julga ainda necessitar das orientações do Infante D. Pedro e só em 1447, D. Afonso V é rei em toda a plenitude.
Por carta de 22 de Outubro de 1443, o Regente Infante D. Pedro, em nome do rei D. Afonso V com onze anos de idade, informa todos de que, relativamente aos Descobrimentos, " (...) e da grande despesa que o Infante D. Henrique, meu muito prezado e amado tio, tem feito e entende fazer, defendemos que em vida do dito meu tio ninguém passe além do dito Cabo Bojador sem seu mandato e licença e os que passarem nos apraz que percam para o dito Infante, meu tio, o navio ou navios em que assim lá forem e tudo o que nele(s) encontrarem".
Em Maio de 1448, com 16 anos de idade, D. Afonso V casa com D. Isabel, filha mais velha de D. Afonso, legitimado pelo pai, D. João I, Conde de Barcelos e I Duque de Bragança, que o deixa viúvo aos 23 anos. Acredito que, tanto a questão de D. Afonso V com o Infante D. Pedro que se resolve em Alfarrobeira como esta questão de Ceuta com o Infante D. Henrique foram insinuadas e instigadas pela esposa de D. Afonso V, D. Isabel e seus progenitores. Pelo que conhecemos do carácter de D. Afonso V nunca levantaria e teimaria nestas questões.
D. Afonso V começa a reinar de facto em 1447, mas mantém o tio ainda dois anos, de 1447 a 1449, na qualidade de «primeiro-ministro». Logo que tomou o poder, em 1447, decidiu assumir a governança de Ceuta e, portanto, a gestão dos imensos recursos destinados ao abastecimento daquela cidade. Essa decisão provocou ressentimento no Infante D. Henrique, seu tio, de ordem tal que o Infante D. Henrique decidiu abandonar a Corte e ir viver para Ceuta e só muito a custo D. Afonso V conseguiu demovê-lo desta decisão. Nesta altura, os portugueses estavam bastante empenhados no comércio do ouro com os berberes e negros da costa africana.
Por volta de 1448-50, foi criada a Feitoria de Arguim que garantia estabilidade a este comércio. O Infante D. Henrique passou a administrar a exploração de oportunidades comerciais da costa de África bem como as culturas nas ilhas atlânticas tais como o trigo, o vinho e o açúcar e a recolha de cores de tinturaria.
Com D. Afonso V, dá-se um súbito alargamento dos horizontes nacionais. Saiu seis vezes da Europa e nenhum rei foi tão «africano» como ele. Nunca antes nenhum rei português tinha ido a França, tentando completar a aliança com a Inglaterra com uma aliança continental para assim envolver Castela e Aragão. Aos desafios que os novos tempos do Renascimento, da invenção da tipografia, ... lhe impunham, respondeu sempre de uma forma inteligente. É um rei de grandes dualidades. Tem ideia do mundo e do dever real, mas reconhece-se acima de tudo cristão. Durante o seu reinado, as Cortes reuniram-se cerca de trinta vezes, o que era inédito na época. Também ouvia com frequência o seu Conselho e tinha capacidade de autocrítica. Julgava-se facilmente substituível e era desapegado do Poder, da comida, da bebida. Assim foi várias vezes em campanha a Marrocos, fez várias investidas por terras castelhanas, fez uma longa visita ao rei Carlos XI da França e ao rei Carlos da Borgonha, deixando sempre o filho, D. João (II), regente em Portugal.
Continuando a epopeia dos Descobrimentos, em 1444, com a supervisão do Infante D. Henrique e pela iniciativa particular de Lançarote de Freitas, almoxarife de Lagos, este comanda uma expedição que parte de Lagos e navega pela costa africana para realizar capturas de africanos para escravos.
No mesmo ano, por iniciativa do Infante D. Henrique, mas a partir de Lisboa, prosseguem:
a viagem de Nuno Tristão com uma caravela que chegou à Guiné, exactamente às imediações do rio Senegal. Os navegantes têm a consciência de se situarem num novo espaço físico e humano, uma terra verde e fértil;
a viagem de Gonçalo de Sintra, da Casa do Infante D. Henrique, que levou uma caravela à mesma região a que foi Lançarote de Freitas e veio a falecer às mãos dos africanos;
a viagem de Antão Gonçalves, Gomes Pires e Diogo Afonso com três caravelas ao Rio do Ouro;
a viagem de Antão Gonçalves, no ano seguinte – 1445, agora capitão principal de uma armada de três caravelas com o objectivo de trazer do Rio do Ouro um escudeiro do Infante que lá tinha ficado na viagem anterior para uma missão de reconhecimento do interior.
Em 1445, saíram de Lisboa Dinis Eanes da Grâ, Álvaro Gil e Mafaldo que nas suas caravelas percorreram seis léguas além de cabo Verde, atualmente designada Petite Côte.
Neste ano, constrói-se um forte, a feitoria de Arguim por ordem do Infante D. Henrique para segurança e apoio dos navegantes portugueses e das trocas comerciais.
Em 1446, Nuno Tristão alcança a região de Niomi, no estuário entre o rio Salum e o rio Gâmbia, onde foi morto por archeiros africanos tal como a grande maioria dos seus homens.
No mesmo ano, Álvaro Fernandes chega à enseada de Varela, ao sul do cabo Roxo – fronteira setentrional da atual Guiné-Bissau.
No mesmo ano, Estêvão Afonso explora a embocadura do Gâmbia.
Em 1447, já reinava D. Afonso V, Fernando Afonso, cavaleiro da Ordem de Cristo, e o nobre dinamarquês Valarte (ou Abelharte) são massacrados e os seus homens em Baol, uma localidade entre a ilha da Palma e o atual rio Jumbas. Paradoxalmente, esta viagem constituiu a primeira missão henriquina com um objectivo diplomático a sul do Senegal – encontrar um rei cristão ou mesmo Preste João que se aliasse ao rei de Portugal.
Em 1448, o Infante D. Henrique proíbe todas as capturas de africanos para escravos para que os contactos fossem empreendidos por via pacífica. As viagens passaram a limitar-se a trocas comerciais.
Em 1450, uma expedição de três caravelas penetra no rio Senegal.
Em 1453, Cid de Sousa e Nuno António de Góis conduzem outra expedição com o mesmo objectivo.
Em 1460, o reconhecimento costeiro do litoral ocidental africano progrediu para sul como resultado de uma das duas viagens que atualmente se atribuem a Pedro Sintra, cavaleiro da Casa do Infante D. Henrique e enviado por este, alcança a Serra Leoa que constitui o limite meridional dos descobrimentos henriquinos.
Em 1461, após a morte do Infante D. Henrique e no reinado de D. Afonso V, Pedro Sintra avança até ao "Bosque de Santa Maria" (cerca de 20 km a sul do cabo Mesurado na costa da atual Libéria.
Em 1462, esta viagem voltou a ser feita por uma caravela ao serviço do rei, mas não conseguiu novos resultados.
Nesta primeira fase da expansão marítima – Fase Henriquina – as naus portuguesas descobriram toda a costa africana até à Serra Leoa: cerca de 4000 km de distância e os arquipélagos da Madeira e dos Açores. Eram pequenas expedições de uma, duas ou pouco mais naus enviadas pelo Infante D. Henrique, pelo rei ou por particulares autorizados pelo Infante D. Henrique, coordenador de toda a empresa dos Descobrimentos, que largavam de Lisboa ou de Lagos para descobrir novas terras, isto é, para obterem informações sobre o que dantes era desconhecido.
A morte do Infante D. Henrique vai levar a uma paragem de quase dez anos na empresa dos descobrimentos: o rei D. Afonso V limita-se a autorizar expedições de iniciativa privada de fim puramente mercantil às regiões já percorridas.
Depois novo período se inicia com a vigência do contrato de arrendamento por cinco anos e prerrogado por mais um, assinado por Fernão Gomes, burguês de Lisboa que obtém o exclusivo do comércio da Guiné mediante significativas restrições e condições, entre as quais a obrigação de descobrir por cada ano 100 léguas da costa, condição que foi cumprida integralmente. O rei tenta deste modo minorar a desorganização e ilegalidade que abundavam nos negócios oeste-africanos, principalmente dos rios da Guiné para sul. No termo deste contrato achavam-se exploradas as costas do golfo da Guiné até ao cabo de Santa Catarina, pouco além do Equador.
Das viagens sujeitas a este contrato, as primeiras foram as de João Santarém e Pero Escobar, nos anos 1470-71, que reconhecem a Costa da Malagueta, a Costa do Marfim e a Costa do Ouro, esta em Sama, atual Elmina no Gana.
Em viagens seguintes, os navegadores chegam à costa dos Escravos, no golfo do Benim, não avançando além do rio do Lago.
Em viagem posterior, Fernando Pó alcançou o delta do Níger assim como o golfo do Biafra e a ilha a que deu o seu nome – ilha de Fernando Pó.
De 1474-75 são as duas últimas expedições ao serviço de Fernão Gomes: a primeira de Lopo Gonçalves que chegou ao cabo de Lopo (atualmente Lopez); a segunda de Rui Sequeira progredindo até ao limite geográfico mencionado, ambos navegando além do Equador.
Enquanto o golfo da Guiné era explorado, faziam-se progressos nas navegações do Atlântico Ocidental. Entre 1461 e 1471, propôs o rei D. Afonso V ao rei Cristiano I da Dinamarca (1448-81) a realização de uma viagem comum de exploração do extremo noroeste do Oceano Atlântico. Parece que D. Afonso V perseguia uma ideia do Infante D. Pedro, seu tio, de tentar encontrar passagem para o Oriente sem ter de contornar o continente africano. As tentativas portuguesas de conhecimento do oceano Atlântico foram muitas, mas sem grandes resultados. É de salientar apenas, no ano de 1474, as explorações que o fidalgo João Vaz Corte-Real fez no noroeste do Atlântico; atribuem-lhe até uma viagem à Terra Nova na companhia de Álvaro Martins Homem.
Por outro lado, o término do contrato de Fernão Gomes (1475) marca o início de um período de seis anos em que não se regista qualquer viagem de exploração. Isto é consequência da guerra de D. Afonso V com Castela desde meados de 1474 que se estende, pelo menos a partir de 1478, ao golfo da Guiné. A paz alcançada com o tratado de Alcáçovas-Toledo (1479-1480) que assegura para a Coroa de Portugal – rei D. Afonso V e seguintes - os direitos sobre as terras e mares a sul das Canárias, cria condições para uma nova e coerente política de expansão a que corresponde uma nova etapa das explorações africanas.
Rei medieval, Cruzado, navegador, «europeu», universal, D. Afonso V trouxe para o seu povo a nova Idade. Durante o seu reinado, os portugueses cortaram o Equador e povoaram quatro arquipélagos. D. Afonso V deixava a dinastia consolidada; reforçado o sentido de Realeza-instituição; reafirmava o espírito de Cruzada; entregava a Roma novos domínios a evangelizar; criava laços culturais entre Portugal e o Humanismo italiano (MEDINA, 1994, vol. IV, pp. 40-60).
O rei D. João II, filho-herdeiro do rei D. Afonso V, foi o rei que havia de conduzir Portugal pelos caminhos da Europa e à Europa proporcionou os novos caminhos do mundo. Senhor de uma vontade própria e de um projecto de governo, maturado durante os períodos em que foi regente na ausência do pai, fora do país e que se caracterizou principalmente pela consciência do que rejeitava e pela consequente busca do caminho correcto para fazer vingar o seu plano para Portugal.
No próprio dia da sua aclamação, 31 de Agosto de 1481, convocou Cortes para Évora com a opulência da época e as suas novas regras. Impôs uma fórmula nova para juramento de fidelidade dos senhores da Corte e a exigência de lhe entregarem posteriormente prova escrita de tudo o que possuíam.
Nas Cortes, o rei a todos ouviu, reflectiu e só mais tarde elaborou as respostas. D. João II confirmava, pelo que escutou nestas Cortes, o clamor de um reino caótico cuja população vivia miseravelmente e onde imperava a bipolarização social com a consequente lei do mais forte a impor-se. De um lado, estavam os senhores, «donos do reino» pelas concessões que tinham conseguido e pelas usurpações que faziam; do outro, estava o povo oprimido que se queixava que tudo o que tinha ia, de um modo ou de outro, parar às mãos dos senhores.
Também constatou que, de um modo geral, o mercado português estava ao sabor dos interesses dos mercadores estrangeiros que, instalados no continente e ilhas, usufruíam o mais possível das riquezas locais e as levavam para as suas terras sem beneficiar a coroa portuguesa ou a população.
Os oficiais de justiça foram por muitos acusados de roubarem o povo e a fazenda régia em benefício próprio ou dos senhores a quem estavam ligados.
Na área militar, os responsáveis pelas mobilizações isentavam quem lhes pagasse, agravando assim os recrutamentos.
Relativamente ao poder dos concelhos, nem afrontou os concelhos nem lhes deu poderes acrescidos como pediam. Semeou pontos de apoio por todo o reino, apoios pessoais e não institucionais. Eram homens a quem fazia vassalos e atribuía privilégios para que estivessem sempre disponíveis para o servir.
A grande conclusão destas Cortes era que os mais lesados eram a Coroa, cada vez mais esvaziada de recursos económicos e o próprio povo, permanentemente espoliado.
Relativamente aos nobres, D. João II sentiu a necessidade de impor a sua autoridade aos nobres do reino num equilíbrio que não permitisse desestabilizar a paz com o reino vizinho.
Quanto à questão da África Ocidental, sabia o significado do comércio que aí se poderia fazer e programou uma estratégia organizativa onde incluía a construção de uma fortaleza na Guiné que ficaria conhecida como a Fortaleza de S. Jorge da Mina. Tratava-se de uma decisão inabalável de aproveitar todos os recursos para rentabilizar a economia portuguesa e, por outro lado, garantir pontos estratégicos de apoio para a progressão dos descobrimentos marítimos no Atlântico Sul, cujos relatórios das viagens, cada vez mais secretas, eram mantidos num total segredo, envolvendo pena de morte. (MEDINA, 1994, vol. IV, pp. 66-72).❐ (continua)
mailto:eu.maria.figueiras@gmail.com

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