terça-feira, 23 de novembro de 2010

Século XV - Lagos Henriquina e pós-Henriquina (X)

Mais uma vez venho partilhar convosco este meu trabalho – LAGOS, Património e Vida – com o terceiro livro " Século XV - Lagos Henriquina e pós-Henriquina" que começou a ser escrito a 02 de Novembro de 2009 e concluído a 10 de Agosto de 2010 que gostaria muito de vê-lo publicado em livro.
LAGOS – PATRIMÓNIO E VIDA
Livro III – Século XV - Lagos Henriquina e pós-Henriquina
CAP IX - Lagos como base estratégica na defesa de Ceuta e posteriormente na empresa dos Descobrimentos
Pelos mesmos motivos que levaram tantas embarcações desde a proto-história a fazerem uma paragem em Laccobriga para abastecimento de alimentos frescos, víveres e água muito cristalina e boa e tantas gentes a fazerem deste local a sua morada, Lagos foi escolhida como base estratégica e logística na defesa de Ceuta e na empresa dos Descobrimentos. Grande parte dos terrenos da zona baixa era terrenos alagados e, portanto, terrenos muitos férteis e indicados para hortas como as terras do Paúl. «Lagos está assentada ao longo da costa do mar e que tem uma baía de légua e meia de praia na qual se pode desembarcar com todo o género de navio. Esta cidade tem comércio com todo o Levante e Poente de donde vem a ela muitos navios e embarcações de toda a sorte com vária mercadoria e isto por causa de grande carregação de atuns e sardinhas e outros peixes que nela há abundantemente e o próprio vinho e pão. É uma cidade sadia e de muito bons ares e a água não lhe falta e é razoavelmente povoada e de gente de toda a sorte.» (PAULA, 1992, p. 43)
Domingos de Mello, deputado no Congresso em Lisboa e natural de Lagos, afirma que "nenhuma das cidades marítimas de Portugal tem uma baía tão bela, espaçosa e capaz como Lagos coberta dos ventos Norte-Noroeste e Oeste-Noroeste aonde em todos os tempos as armadas nacionais e estrangeiras ou fossem navegando para o Mediterrâneo ou vindo para o Oceano Atlântico, ali faziam escala para se refazerem de refrescos, carnes e da preciosa água que tem." (PAULA, 1992, p.67)
Esta informação também era verdadeira para os séculos XIV e XV e toda a família real o sabia, pois Lagos era uma vila muito conhecida na época exactamente por causa destas suas características. O Infante D. Henrique também o sabia e o rei D. João I e assim escolheram Lagos para base estratégica e logística na defesa e abastecimento de Ceuta, provendo aquela de água, alimentos e bens que lá fossem necessários para consumo, defesa e comércio.
Como o ano decidido para a partida da expedição a Ceuta foi 1415, certamente, pelo menos a partir de 1410, o Infante D. Henrique terá começado a visitar Lagos para preparar a logística para esta expedição e para a base estratégica permanente de Ceuta nesta cidade.
Da baía de Lagos saíram as primeiras caravelas com os mareantes do Infante D. Henrique que passam além dos conhecidos limites do mundo de então.
Relativamente ao quotidiano em Lagos, segundo documento de 08 de Julho de 1410, D. João I isenta os lacobrigenses do pagamento de sisa (imposto sobre o valor das transacções) sobre os bens comprados aos venezianos.
No dia 26 de Julho de 1415, D. João I entra na baía de Lagos com a esquadra que iria tomar Ceuta, no Norte de África, a 21 de Agosto de 1415 e era formada por 19 000 combatentes, 1700 marinheiros e 200 navios. Ao terminar esta campanha, também desembarcou na baía D. João I e o Condestável D. Nuno Álvares Pereira que após, seguiram para Évora.
Ceuta era um importante centro comercial terrestre e marítimo. Situava-se numa região agrícola rica e num bom ponto estratégico que dominava o Estreito de Gibraltar e podia servir de base para novos descobrimentos.
No ano de 1419, partem de Lagos os descobridores da Madeira e Porto Santo, Lourenço Gomes e António Gago, naturais de Lagos. Depois da descoberta da Madeira, Gonçalo Zarco esteve na baía de Lagos.
No mesmo ano, destaca-se também Soeiro da Costa, Moço de Câmara do rei D. Duarte, mais tarde Alcaide-Mor de Lagos e posteriormente vedor de Lagos.
Em 1427, Diogo de Silves aportou pela primeira vez nos Açores.
Em 1434, Gil Eanes, natural de Lagos, foi o primeiro capitão de dez caravelas que saíram de Lagos e dobraram o Cabo Bojador, deixando naquelas terras um centro portuário com o nome da sua vila natal – LAGOS.
Álvares Esteves descobre a Mina e nela constrói-se uma sólida base a partir da qual se continuou a exploração do litoral africano que revelou a passagem para a Índia.
Segundo documento de 27 de Junho de 1430, o rei D. João I concede aos lacobrigenses isenção de velar, rondar e servir no exército para estarem disponíveis para a empresa marítima dos Descobrimentos do Infante D. Henrique. Esta empresa trouxe grande desenvolvimento a Lagos a todos os níveis e traz grande número de estrangeiros, entre os quais grande número de ingleses que nela passam a morar, facto relacionado com a ascendência inglesa do Infante D. Henrique, a sua proximidade afectiva à corte inglesa e o desenvolvimento marítimo a nível de estudos, a nível de viagens de exploração e descobrimentos e a nível de comércio de exportação/importação que se vivia naquela altura em Lagos.
Em 1433, quando D. Duarte se torna rei de Portugal, após a morte do seu pai, D. João I, doa a pesca do atum em Lagos ao seu irmão, o Infante D. Henrique e concede privilégios aos seus pescadores. Segundo documento deste mesmo ano, Lagos era escala obrigatória de quase todos os navios para reabastecimento, aguada, para comércio de especiarias e produtos locais; importava-se trigo e exportava-se figo, amêndoa, peixe, sal, tecidos.
Lagos era também um importante centro piscatório, capturando atum, corvina, sardinha, baleias e coral nas suas águas; os peixes para venda eram tanto frescos como para salga; tanto para consumo interno como para a exportação e muitos eram os compradores de tão bom alimento. Em 1440, foram lançadas em toda a costa algarvia armações, recebendo o rei 60% do atum e 40% da sardinha que rendiam à coroa de 40 a 50 contos ao ano.
No enquadramento económico, com o objectivo de receber os impostos da vila de Lagos para a Coroa Portuguesa, são conhecidos documentos onde são mencionados aves, caça, carneiros, coelhos, bestas, gado, obtendo dos mesmos a matéria-prima para a produção dos seguintes alimentos: manteiga salgada, queijos frescos, queijos secos, requeijões, toucinho, ...
Quanto a frutos são mencionados alhos secos e verdes, passas de uva, avelãs, ameixas secas, cebolas secas e verdes, castanhas e nozes, fruta verde e seca, laranjas, melões, mel, amêndoas, azeitonas, alfarrobas, pinhas e pinhões, bolotas, tremoços, figos. Também se produziam o centeio, a cevada e o trigo. Comercializavam-se a seda, solha, sabão, tapeçaria, tinturas, telha e tijolo, louça, louça de barro e de pau, couro com cabelo e curtido, boticaria (produtos da farmácia), resina e cal, ...
Relativamente ao pescado, vendiam-se gorazes, cachuchos, cavalas, chernes, sardinhas, polvos, lulas, chocos, salmonetes, linguados, besugos, sendo os três últimos os que rendiam mais dinheiro em impostos, certamente por serem comprados em maior quantidade e também por serem caros. Isto também quer dizer que em Lagos, na época, eram bastante alargadas as classes média e média alta e homens-ricos. As baleias eram consideradas como peixes reais só para pesca das empresas da Coroa Portuguesa. Barcas, caravelas, batéis, naus eram os meios de transporte mais importantes na chegada e saída de todos estes produtos. Os moradores e vizinhos de Lagos não pagavam imposto sobre o pão e sobre o vinho para seu engrandecimento e crescimento demográfico.
Nos arredores de Lagos havia abundância de boas águas. Os campos estavam cobertos de vinhas, figueirais e searas. A uva era excelente e produzia bons vinhos de que havia em abundância, mas não exportava porque a manipulação era defeituosa. O figo era um dos principais ramos da produção dos seus terrenos. Secava-se e exportava-se bastante, consumia-se muito na destilação para a aguardente e não pouco para sustento dos habitantes (MARTINS; 1992; pp. 36-39).
Segundo Carta de Privilégio do regente Infante D. Pedro, (irmão do Infante D. Henrique e regente até D. Afonso (V) atingir a idade de governar) de 14 de Julho de 1443, o regente D. Pedro concede a marselheses residentes em Lisboa a exploração da pesca do coral na costa de Lagos.
As dificuldades de progressão no litoral africano muçulmano acentuam-se ao largo do Cabo Bojador pelo que o avanço para além desse limite representava um marco decisivo para a História dos Descobrimentos.
Em 1444, continua-se a registar em Lagos uma grande afluência de estrangeiros. Neste ano, funda-se a «Companhia de Lagos» – Sociedade Real de Exploração e Comércio – por concessão do Infante D. Henrique e organizada por Lançarote de Freitas para promover o comércio dos «resgates» e «descobrimentos» da Guiné. Lançarote de Freitas fixou residência na rua que atualmente tem o seu nome.
No mesmo ano, 1444, é também fundada a Parceria de Lagos – Sociedade de Exploração e Comércio entre privados e a Coroa Portuguesa para «resgate» e «descobrimentos» da costa da Guiné, organizada por Lançarote de Freitas. Com D. Afonso V e a entrega da empresa dos Descobrimentos a particulares, após a morte do Infante D. Henrique, esta empresa deve ter passado a capitais unicamente privados e permanecido em Lagos, já que a Companhia de Lagos de capitais da Coroa Portuguesa passou para Lisboa.
Também neste ano, 1444, Dinis Dias, escudeiro da Casa Real comanda uma caravela armada em Lagos pelo Infante D. Henrique destinada ao cabo Verde e à ilha da Palma (atualmente Gorée, no Senegal) que, à distância, os africanos imaginaram fosse peixe, ave ou fantasma vindo do mar e, quando se aperceberam que eram homens entraram em pânico.
Em 1445/46, Lançarote de Freitas realiza a primeira viagem de iniciativa particular a partir de Lagos, com autorização do Infante D. Henrique, de composição heterogénea entre burgueses de Lagos e homens da Casa do Infante D. Henrique como Gil Eanes para realizar capturas de africanos para escravos. A 10 de Agosto de 1445, parte de Lagos esta frota de catorze caravelas, organizada por Lançarote de Freitas a que se juntaram outras caravelas vindas de Lisboa e da Madeira e que aportou à ilha de Tider entre o cabo Branco e a ilha de Tider. Da mesma se dispersaram duas expedições, uma de Lançarote de Freitas e de Gomes Pires e outra de Dinis Dias com Rodrigues Eanes de Travassos que chegaram à foz do Senegal, ao cabo Verde ou ainda a ilhas das imediações. Desta frota destacou-se Álvaro Fernandes, madeirense, sobrinho de João Gonçalves Zarco que, passando o cabo Verde avançou até ao cabo dos Mastos ou Naze.
Em 1447, é fundada a 2.a Companhia de Lagos - Sociedade Real de Exploração e Comércio por Lançarote de Freitas e por concessão do Infante D. Henrique que dera também à Companhia bandeira de Cruzada.
A 15 de Janeiro de 1450, é concedida ao Infante D. Henrique licença para recolha do coral, por cinco anos, pagando metade da dízima a ser recebida pela Sé de Silves.
No ano de 1453, a vila de Lagos é doada ao Infante D. Henrique (MARTINS; 1992; p. 40). Segundo documento de 05 de Março de 1372, a vila de Lagos foi doada a Gregório Premado nesta data e esteve na sua posse até 1453, ano em que passou a pertencer ao Infante D. Henrique. Quem era Gregório Premado? Não temos informação.
Os anos de 1455 e 1456 são marcados pela participação de comerciantes italianos nas viagens portuguesas.
Em Março de 1455, Luís de Cadamosto, comerciante veneziano, embarca numa caravela de que era patrão Vicente Dias, natural de Lagos e lá morador, armada expressamente pelo Infante D. Henrique e que não vai além do rio Gâmbia. Ainda a caminho do cabo Verde, junta-se a esta caravela a caravela de António Usodimare, comerciante genovês, que vinha acompanhada de outra caravela conduzida por um escudeiro do Infante D. Henrique. Cadamosto registou a impressão causada pelas terras avistadas e a sua vegetação abundante e rios caudalosos que se adensavam para sul.
Em Março de 1456, Luís de Cadamosto, António de Usodimare e uma terceira caravela armada pelo Infante D. Henrique avançam rio Gâmbia adentro numa extensão de 90 quilómetros até Bati, reino mandinga com o qual estabeleceram relações de amizade e de comércio. Depois esta expedição prosseguiu para o litoral sul, passando pelo rio Casamansa, o cabo Roxo, o rio de Santa Ana, o rio de São Domingos (Cacheu), alcançando finalmente o rio Grande (canal do Geba na fronteira da atual Guiné-Bissau). De regresso, arribou ao arquipélago dos Bijagós.
Durante estes dois anos, além das informações colhidas, o principal benefício foi a pacificação do relacionamento entre culturas e o inerente incremento das trocas comerciais. Acrescenta-se a aproximação pontual de alguns reinos africanos à religião cristã.
Em 1458, a expedição de João Delgado, acompanhado de um sacerdote, responde à promessa de benefícios materiais e espirituais feita por Diogo Gomes ao rei de Niomi, na margem norte do Gâmbia, que lhos tinha solicitado.
Segundo carta régia de 1462, confirmada por carta régia de 1497, atribui-se a António da Noli, genovês ao serviço do rei português D. Afonso V, o descobrimento das ilhas orientais do arquipélago de Cabo Verde (Sal, Boavista, Maio, Santiago, Fogo e Brava) antes de 03 de Dezembro de 1460 porque nesta data já se encontram mencionadas noutro documento oficial. As ilhas ocidentais do arquipélago de Cabo Verde (Santo Antão, S. Vicente, Santa Luzia, São Nicolau e ilhéus vizinhos) foram descobertas nos invernos de 1460/61 ou de 1461/62, por Diogo Afonso, escudeiro do Infante D. Fernando. Diogo Afonso recebera a doação de todo o arquipélago cujo povoamento e colonização se iniciou por esses anos (MEDINA, 1994, vol. IV, P.130-31).
A 17 de Outubro de 1458, D. Afonso V parte de Lagos com uma Armada de 220 caravelas à conquista de Alcácer Ceguer na qual participou o Infante D. Henrique.
Em 1460, é confirmado por D. Afonso V, o privilégio real de porte de armas, doado a Lagos por D. Pedro I.
Após 1460, por morte do Infante D. Henrique, todas as concessões atribuídas ao Infante D. Henrique e as Companhia de Lagos regressam a Lisboa, à Coroa Portuguesa. Em Lagos permanece toda a actividade de exploração e comércio de privados, continuando com o seu esplendor. Também a Escola Superior de Estudos Náuticos de Sagres passa todo o seu acervo para a Universidade de Lisboa com a qual tinha protocolo.
A 09 de Novembro de 1463, D. Afonso V chega à baía de Lagos com a sua armada a caminho de Tânger numa viagem de exploração (PAULA, 1992, p.357).
Em 1464, a recolha de coral em Lagos é arrendada a um particular.
Em 1465, Soeiro da Costa chega à Serra Leoa;
Em 1469, a Casa do Comércio da Guiné em Lagos foi arrendada por 500 cruzados anuais na obrigação de prosseguir a descoberta de 100 léguas de costa por ano ao longo da costa africana ocidental.
No mesmo ano, 1469, Soeiro da Costa chega ao Cabo das Palmas, Rio Soeiro da Costa e Cabo das Três Portas.
A 15 de Agosto de 1472, parte D. Afonso V acompanhado do seu filho, D. João – futuro rei D. João II – da baía de Lagos com uma esquadra de 447 caravelas para conquistar Arzila e Tânger.
No mesmo ano, 1472, D. Afonso V concede a todos os Infantes de Lagos privilégios de cavaleiros, isto quer dizer que, em Lagos, nesta altura, viviam várias famílias da Casa Real Portuguesa e talvez de outras.
Por Carta Real de 30 de Setembro 1483, o rei D. João II permite ao Conde de Trevento a pesca do coral nos mares de S. Vicente, pagando o dízimo.
Em 1484, o rei D. Afonso V arrendou a recolha do coral a Gil de Castro.
Em 1490, Soeiro da Costa pede licença às Cortes de Évora para construir novas marinhas e a Casa do Sal. O sal não chegava para o abastecimento da vila de Lagos, pois a indústria da salga do peixe consumia mais de 10 000 moios de sal por ano, sal que pertencia à Coroa. O rei concede-lhe a licença pedida. Isto prova que na viragem do século a economia de Lagos era bastante desenvolvida e a vila de Lagos era um centro de comércio internacional muito importante.
No mesmo ano, 1490, os habitantes de Lagos sofrem uma forte epidemia de cólera e pedem um milagre a S. Sebastião. São atendidos no seu pedido e em agradecimento passam a ermida de Nossa Senhora da Conceição a igreja dedicada a S. Sebastião, diácono mártir em terras do sul da Espanha.
Nos finais do século XV, na vila de Lagos pós-Henriquina, havia já formadas três aldeias na vila murada resultantes da sua urbanização – Porta do Postigo (ao redor da igreja de S. Sebastião), Porta dos Quartos (ao redor da ermida Nossa Senhora do Rosário e Porta da Vila (ao redor da ermida de Nossa Senhora da Graça) e a área entre as anteriores Ribeira dos Touros e Ribeira das Naus estava quase totalmente ocupada, chegando à urbanização da Porta do Postigo. O centro da vila de Lagos expande-se pelos subúrbios extramuros em torno da Estrada de Sagres, atualmente rua Infante de Sagres, rua Dr António Guerreiro Tello, ermida de Santo Amaro, Estrada de Sagres.
Havia também formados durante este século XV três rossios: rossio de S. João, rossio da Gafaria e rossio de S. Brás (PAULA, 1992, p.33).
Antes de falecer, o Infante D. Henrique legou os seus títulos e rendimentos ao seu sobrinho, o Infante D. Fernando, irmão de D. Afonso V. Também Lagos - vila e castelo, por morte do Infante D. Henrique, foi doada ao Infante D. Fernando, irmão de D. Afonso V, por carta de 04/08/1464. Ainda no mesmo ano, o Infante D. Fernando doou Lagos a D. Diogo, Duque de Viseu.
A 16 de Setembro de 1473, D. Diogo, Duque de Viseu, por sua vez, doou Lagos a sua irmã, D. Leonor, em dote do seu casamento com o príncipe, futuro rei D. João II. Lagos passa assim a estar unida directsmente à Casa Real Portuguesa.
Foi a rainha D. Leonor, pelo seu casamento com o rei D. João II e regente do reino de Portugal também no ano de 1498 que fundou em Portugal As Misericórdias exatamente neste ano em que foi regente, tanto em Lisboa como em Lagos, vila de que era Senhora.
Uma das fontes essenciais para a caracterização social e económica da vila de Lagos da altura é o documento intitulado Estatutos da Santa Casa da Misericórdia de Lagos. Contudo estes Estatutos são um Livro de Privilégios e uma compilação de alvarás desde o século XV ao século XVIII com vária cronologia e é um documento muito válido para o estudo da Misericórdia de Lagos.
Segundo os autores de As Misericórdias do Algarve (Lisboa, 1968) na Praça de Touros de então, 1498, atualmente Praça Infante D. Henrique, a igreja e hospital da vila de Lagos foram doados à Santa Casa da Misericórdia de Lagos e passaram a ser denominados hospital da Misericórdia e igreja da Misericórdia e tanto a igreja da Misericórdia de Lagos como a de Lisboa, na Catedral de Lisboa, foram edificadas com forma igual.
Segundo documento do Tombo da Misericórdia de Lagos de 16 de Janeiro de 1506, os rendimentos das almadravas (armações da pesca do atum) eram doados à Santa Casa da Misericórdia de Lagos para fazer face às despesas.
Em 1547, a Irmandade da Santa Casa da Misericórdia era composta por cem membros. Os primeiros cem irmãos fundadores da irmandade repartiam-se entre metade tinham de ser nobres e a outra metade «oficiais mecânicos», isto é, indivíduos com profissão estabelecida, nomeadamente alfaiates, carpinteiros, curador, cordoeiros, mercadores, pedreiros, recebedores, sapateiros, ... moradores na vila murada e estabeleciam os seus contactos com outros da vizinhança em redor e com outros profissionais que aportavam a Lagos ou chegavam a Lagos pela via terrestre.
Em 1556, é feita uma ampliação na igreja da Misericórdia. Nesta altura, a Casa da Misericórdia recebia 500 reis por ano do feitor das almadravas do Algarve e dois atuns por cada armação.
Em 1588, D. Fernão Telles de Menezes, Capitão-General, Governador do Algarve, em Portimão passou certidões sobre Leis referentes às Misericórdias de Lisboa e Goa que queria aplicar à Misericórdia de Lagos.
A partir de 1611, já a Irmandade era composta por duzentos membros.
Em 1850, a Misericórdia de Lagos recebe a parte do terreno onde fora demolido o Palácio dos Governadores de Lagos para aumentar as enfermarias do seu hospital.
De entre os homens ilustres da vila de Lagos quatrocentista destacam-se:
Álvaro Esteves – piloto;
António Gago – navegador (descobridor da Madeira);
Gil Eanes – escudeiro da Casa do Infante D. Henrique + navegador + cavaleiro;
Lourenço Gomes – navegador (descobridor da Madeira);
Pedro Alemão – navegador;
Pero Jacques – Militar + comendador;
Soeiro da Costa – Moço de Câmara do rei D. Duarte + alcaide-mor de Lagos + vedor de Lagos + navegador;
Soeiro da Costa – procurador;
Vicente Dias – comerciante burguês + navegador;
Lançarote de Freitas – escudeiro do Infante D. Henrique + almoxarife em Lagos + navegador.❐ (continua)
mailto:eu.maria.figueiras@gmail.com

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