quinta-feira, 16 de junho de 2011

Convento Nossa Senhora da Glória

A história do Convento de Nossa Senhora da Glória


Lagos, 12 de Agosto de 2005



Dentro de dias, exactamente dia 15 de Agosto, celebra-se em Lagos a Festa de Nossa Senhora da Glória que coincide com a celebração da Assunção de Nossa Senhora. Acontece que estava a folhear os meus livritos à procura de algo que me lembro ter lido em tempos e agora queria transcrever e encontro a Lenda da Nossa Senhora da Glória e é ela que vou transcrever do livrinho do professor Crisanto Correia Curiosidades da Nossa Terra – LAGOS editado pelos Bombeiros Voluntários de Lagos em 1977.



Assim temos:

“Dezembro de 1708! Dir-se-ia que o Céu quis dar a Lagos valiosa prenda de Natal!

Não quereis conservar na memória das gerações vindouras a história prodigiosa de Nossa Senhora da Glória?...

... Em 1518, D. Fernando Coutinho, bispo de Silves, mandou construir o Convento de Nossa Senhora do Loreto, em Lagos, que ofereceu ao rei D. Manuel para os franciscanos da Província da Piedade.

Como este convento se achava situado nos terrenos insalubres do Rossio de S. João de Lagos, os frades viram-se na necessidade de o transferir para a parte mais alta da cerca em 1560 e passaram a designá-lo por Convento de S. Francisco espalhando a devoção ao seu Santo Protector. No capítulo XXIII da Crónica da Província, escrita por Frei Manuel de Monforte até 1693, se acham registadas as muitas graças obtidas em Lagos por intercessão de S. Francisco.

Foi à portaria deste convento que, na manhã de 24 de Dezembro de 1708, chegaram desconhecidos, interrompendo o Ofício de Natal, para avisar aos frades que fossem buscar uma imagem de Nossa Senhora dada à costa na Praia de S. Roque, actualmente, popularmente conhecida por Meia-Praia. A pressa com que se retiraram, sem mais explicações, lançou a dúvida no espírito do guardião do convento, que se negou a sair. Porém, movido pela curiosidade ou por secreto pressentimento, acabou por se dirigir, com outro frade, para a Praia de S. Roque, frente à cidade. Apressaram o passo, vendo que muitas pessoas para lá se dirigiam, enquanto na praia já enorme multidão se concentrava.

Rugia o mar encapelado pela invernia e ao seu marulhar se juntavam as preces dos devotos, ajoelhados em torno de uma caixa de grandes dimensões. Aproximaram-se os religiosos, certamente a custo e os seus olhos ficaram maravilhados ante o conteúdo da misteriosa caixa.

Uma enorme imagem de Nossa Senhora, de extraordinária perfeição, esculpida com toda a magnificência da época de D. João V e cuja maravilhosa pintura, talvez por vir coberta de folhas secas, as águas em nada danificaram.

Trazia três anéis de brilhantes, segundo um manuscrito encontrado, mas hoje o seu paradeiro é totalmente desconhecido, pois nem mesmo na relação das pratas, paramentos e utensílios do convento se achavam registados.

Sobre a cabeça, pesada coroa de prata trabalhada, que dois anjos alados simulavam suster. Servindo de ceraferários, dois outros anjos de maiores proporções.

Tendo apreciado tal tesouro e venerado a Virgem Maria juntamente com a multidão que aumentava de instante a instante, os frades providenciaram no sentido de tudo ser transportado para o seu convento, Convento de S. Francisco.

Que poder misterioso trouxera a Lagos tal obra de arte, de tanto valor espiritual e não só?...



2ª Parte



Quando se encontravam próximo da cidade, os religiosos foram detidos pelo prior e clérigos da Colegiada de S. Sebastião. Correndo já em Lagos a notícia do prodigioso aparecimento, estes apressaram-se a reclamar a posse da imagem, visto que a Praia de S. Roque estava dentro da sua freguesia.

Os franciscanos bem testemunhavam terem sido os primeiros a saber e a preparar a condução da imagem para a cidade, mas não conseguiam vencer a discussão. Esta mais calorosa se tornou quando, chegando o prior da igreja de Santa Maria da Graça, alegou a importância e direitos da sua igreja por ser a matriz de Lagos.

Exaltaram-se os ânimos; exacerbou-se a discussão e, quando deram por si, viram-se sós. O povo, indiferente às suas exaltações, lentamente, muito lentamente, transportara a grande caixa para o convento.

Então, com a autoridade de que se considerava, o prior de Santa Maria da Graça mandou ir ao convento uma carreta e renovou os seus direitos. Os bois, impedidos por estranho poder, pouco se moviam. Espicaçados e fustigados pelos paroquianos de Santa Maria da Graça, conseguiram andar razoavelmente enquanto foi mau o caminho. Porém, ao chegarem a terreno bom e plano, uma roda da carreta quebrou-se e impediu o prosseguimento. O povo, que nunca deixara de estar presente onde estava Nossa Senhora, gritava:

- Nossa Senhora quer ficar no convento!

E pelo poder da multidão furiosa, Nossa Senhora regressou ao convento, onde ficou depositada, sendo alvo de ininterrupta veneração dos fiéis.

Só então, dias após, os dois desconhecidos voltaram a aparecer e confessaram aos frades que naquela madrugada saíram, esperando recolher algum despojo que o vendaval tivesse trazido à costa, como de costume faziam. O despojo fora aquela caixa que flutuava e viera direito à praia, apesar do seu peso.

Porém, não convencidos, os priores da cidade levantaram questão e apresentaram-na a Sua Majestade, pelo que os frades, em busca de protecção, expuseram o ocorrido ao seu procurador, que residia no hospício do Duque de Bragança.

Foi nesta altura que o Duque de Bragança recebeu os oficiais de uma frota acabada de chegar do Rio de Janeiro, entre os quais vinha Manuel da Rocha Lima, capitão de uma nau que a enorme tempestade, ocorrida no dia 21 de Dezembro, fizera naufragar junto à barra do Tejo e que ele se salvara, com dois companheiros, agarrados a um madeiro e sempre suplicando a protecção da Mãe de Deus, vindo dar à Vila Nova de Mil Fontes. Por dizer que nessa nau trazia uma imagem de Nossa Senhora da Glória, o procurador pediu insistentemente ao Duque que consentisse que o capitão narrasse pormenorizadamente quanto sabia.

Este concordou e o capitão contou que, no Rio de Janeiro, embarcara um homem, chamado António Caminha, que dissera conduzir naquela enorme caixa uma imagem para oferecer a D. João V, confiando que este mandaria construir uma capela a Nossa Senhora da Glória, na Junqueira. Momentos antes da partida, as autoridades civis tinham subido a bordo para deter o passageiro e a nau largou com a estranha bagagem, mas sem o seu dono.



3ª Parte



A narrativa do capitão da nau Falcão despertou tal interesse, que logo o Duque de Bragança escreveu para o Brasil, solicitando as mais preciosas informações sobre António Caminha e a sua imagem.

Dois anos de curiosa expectativa decorreram até que ao Duque chegou a seguinte notícia:



“Numa ermida erguida a um quarto de légua do Rio de Janeiro, era venerada, com muita devoção, a pequena imagem de Nossa Senhora da Glória, eleita pelo coração do povo, sua padroeira. Ali testemunhava o seu amor a Maria, com piedosas romarias e pomposas solenidades.

Envergando o hábito de S. Francisco, a este local chegou um dia, o escultor português António Caminha. Tinha em seu propósito esculpir uma digna imagem de Nossa Senhora que, querendo Deus pudesse voltar a Portugal, ofertaria a D. João V. Passaram-se os anos, sem que se sentisse apto a executar o trabalho maravilhoso que a sua mente concebera ou encontrasse quem o soubesse ajudar. Por fim, desesperançado, meteu mãos à obra. Embrenhou-se na floresta, escolheu a árvore propícia e dispunha-se já a desbastar o tronco, quando dois rapazes desconhecidos o interrogaram sobre os seus planos e, dizendo-se escultores, se ofereceram para com ele colaborar. Uma vez terminado o conjunto escultórico, os dois rapazes desapareceram misteriosamente, quando António Caminha lhes quisera pagar o trabalho.

E enquanto esperava amealhar o suficiente para regressar à Pátria-Mãe, colocou a imagem de Nossa Senhora na já citada ermida. A substituição da pequena imagem por esta, tão perfeita e bela, aumentou a devoção do povo.

Até que um dia, quase inesperadamente, António Caminha teve oportunidade de regressar a Portugal e fez embarcar na nau Falcão o seu precioso tesouro. Os fiéis, considerando um roubo tal atitude, queixaram-se às autoridades, que detiveram o escultor. Este ficou, mas a imagem partiu rumo às terras de Santa Maria.”



As contendas em Lagos só terminaram com o seguinte documento, emanado da corte após as notícias vindas do Brasil e que ficou autenticado e conservado na Junta de Paróquia da Freguesia de S. Sebastião:



“Sua Majestade, que Deus guarde, tendo em consideração o que V. Exa. apresentou, foi servido dar ao Convento dos Religiosos da Província da Piedade da Cidade de Lagos a imagem de Nossa Senhora da Glória que, vinda do Brasil, deu à costa na Praia de S. Roque da mesma cidade, visto V. Exa haver depositado a dita imagem no convento dos mesmos religiosos. Deus guarde V. Exa.



Paço, 17 de Fevereiro de 1714

Diogo de Mendonça Corte-Real





- Exmo. Sr. Marquês D. Manuel de Castro

Reconheço que a assinatura ao pé da carta acima é de Diogo de Mendonça Corte-Real, assim o certifico e dou fé.



Lagos, 19 de Agosto de 1714

Eu, Luís Rebelo de Morais, tabelião, que o subscrevi.”



4ª Parte



Para testemunhar o seu regozijo, os frades mudaram então o nome do seu convento para Convento Nossa Senhora da Glória.

Dir-se-ia que a devoção à Mãe de Deus recrudesceu e o convento tornou-se o centro de oração de devotos vindos, não só das mais longínquas províncias portuguesas como até de terras de Espanha.

Correu fama dos numerosos milagres operados por intercessão de Nossa Senhora e ocorre-nos mencionar aqui dois, registados no único livro que se conhece sobre a história desta imagem:



1º - Um aleijado, impossibilitado de ganhar o pão para os seus familiares, em vão procurava remédio nas águas de Monchique. Tendo chegado ao seu conhecimento tais milagres, pediu que o levassem à Igreja de Nossa Senhora da Glória de Lagos. Após as suas fervorosas orações, sentiu-se completamente curado.



“Fui, então, firme em meus pés, oferecer à minha Benfeitora as minhas muletas, visto que a minha pobreza não permitia fazer-lhe outra oferta.”



2º - Ao conhecer este facto, um médico de Portimão, que tinha uma filha de cinco anos, muda e aleijada de pés e mãos, trouxe-a ao convento e colocou-a junto da imagem, enquanto ele e sua esposa se recolheram perto das grades que dividiam a igreja das capelas. A sua piedosa concentração foi interrompida minutos depois pela própria filha que, para eles, corria e apontando para a imagem, exclamava:



- Ali está a Mãe! Ali está a Mãe!



Tal foi o pranto comovido destes pais agradecidos que os frades, ouvindo, correram à igreja e juntamente com eles cantaram ao Céu Acção de Graças.”



Foi então constituída uma confraria pelos nobres e pelo povo e a Câmara dava-lhe o produto das multas por transgressão de posturas municipais que rendiam por ano trezentos mil réis.

Com estes rendimentos e os donativos dos fiéis que acorriam às grandes festas que se realizavam em 15 e 16 de Agosto, a confraria mandou construir, na capela-mor, uma tribuna formada por colunas com capitéis e entalhamento de ordem coríntia, sustentando formosa cúpula de talha dourada.

A afluência de gente era tal nos dias da grande festa que foi a origem da Feira de Nossa Senhora da Glória que permaneceu até aos nossos dias.

O conhecimento deste glorioso prodígio levou o Papa Bento XIII, por um Breve, hoje desaparecido, a autorizar que se fizesse a Exposição nas mãos de Nossa Senhora da Glória.



5ª Parte



Em 1833, sofria Lagos o embate dos partidos políticos – a guerra civil. Perpetravam-se crimes, viviam-se momentos de angústia, cruzavam-se armas e a cidade estava cercada pelos homens do Remexido.

Por isso o governador e eclesiásticos compareceram à sessão municipal de 9 de Outubro, estudando a maneira de salvarem da luta quanto havia extramuros, nomeadamente o abandono e recolha das imagens do Convento de Nossa Senhora da Glória.

Para tal efeito, foi constituída uma comissão presidida pelo prior de Alvor, Francisco Valério e a Câmara solicitou a concorrência e ajuda de todos os assalariados e do povo.

Cuidadosamente preparada, fizeram os lacobrigenses uma sortida sobre os sitiadores no dia 11 de Outubro, obrigando-os a retirarem-se para uma distância maior o que deu oportunidade ao povo de ir ao convento buscar as imagens e alfaias, conduzindo-as para a igreja mais próxima, a de S. Sebastião.

Diz-se que, para tornar mais fácil o transporte, foi cortado um bocado da peanha de Nossa Senhora da Glória, que ficou numa tribuna forrada de seda.

Nesses dias de aflitivo receio, acorria muita gente à igreja de S. Sebastião, suplicando a Nossa Senhora a protecção divina para os que defendiam a cidade e suplicando também a graça da ansiada paz.

Ante tais manifestações de fé e crentes no auxílio de Deus que não esquece os que O invocam, as autoridades civis e militares determinaram que se fizesse uma grande festa em honra de Nossa Senhora da Glória, com exposição do Santíssimo Sacramento, sermões e procissão com a imagem. Foi assim que no dia um de Novembro de 1833, a imagem de Nossa Senhora da Glória percorreu, pela primeira vez, as ruas principais da cidade aos ombros de dez homens fortes, um dos quais Baptista Xavier, que preferiram ficar com os ombros ensanguentados a se deixarem substituir.

Nessa tarde o comércio fechou as suas portas e na procissão incorporaram-se, indistintamente, todas as classes sociais e as forças armadas numa tal manifestação de fé que “durante todo o percurso não se viam olhos enxutos e o respeitoso silêncio só era interrompido pelos soluços e algumas vezes pelos versos do cântico Te Deum.”

Assim ficou a imagem de Nossa Senhora da Glória na igreja de S. Sebastião.



6ª Parte



Extintas as ordens religiosas em 28 de Maio de 1834 e retirando-se os frades da cidade, o convento (como tantas vezes tem acontecido ao património religioso de Lagos) sofreu a incúria dos homens, quase sempre mais devastadora do que a própria acção dos tempos. Subsistem muitas das suas paredes – actual posto da Guarda Nacional Republicana – porém, diz-se que logo a igreja do convento foi profanada, desguarnecida dos seus ricos azulejos, apeadas cantarias e até muitos livros e papéis da sua valiosa biblioteca “foram vendidos a peso às mercearias e outras lojas para servirem de invólucros.”



Também a Igreja de S. Sebastião chegou a tal estado de ruína que foi mandada encerrar, funcionando então a paróquia na Igreja de Nossa Senhora do Carmo, das freiras carmelitas durante o restauro da igreja de S. Sebastião.

O restauro da igreja de S. Sebastião, que decorreu de 1858 a 1860, foi feito à custa do negociante e proprietário de Portimão, Luís António Maravilhas. Cremos ter sido a partir desta data que a imagem de Nossa Senhora da Glória ficou na capela-mor da igreja de S. Sebastião, donde uma única vez teria sido retirada temporariamente quando, há poucos anos, o prior José António Monteiro autorizou que fosse feita uma reprodução para ser venerada na cidade do Rio de Janeiro.



Qual fénix renascida das próprias cinzas, as ruínas do convento ainda voltaram a ser casa de caridade e oração pois, por decreto de 4 de Janeiro de 1897, foram cedidas à Junta da Paróquia de S. Sebastião para a fundação de um asilo para inválidos e em 10 de Outubro de 1899 para este antigo convento de Nossa Senhora da Glória vieram as Irmãs Franciscanas Missionárias de Maria. Esta iniciativa foi devida à apóstola do bem Exma Sra. D. Maria Cândida Veloso Azevedo Coutinho, auxiliada pelo padre Manuel José Barros, prior de S. Sebastião, guardião de Nossa Senhora da Glória e intérprete fiel de uma tradição que se mantinha viva.

Foi assim que em 1903, surgiu a publicação Nossa Senhora da Glória e o asilo dos velhinhos, depois de posta à consideração da eminente figura da Igreja, D. José III, cardeal patriarca, de nome completo D. José Sebastião Neto, nascido em Lagos, a 20 de Janeiro de 1841 e que estudara no Seminário de Faro e, depois de ter sido Bispo de Angola e Presidente do Conselho Governativo de Angola, ascendera a Cardeal Patriarca de Lisboa a 9 de Agosto de 1883 e aprovou a dita publicação e compôs uma oração que a seguir transcrevemos:



“Havemos por bem autorizar a publicação da origem da devoção a Nossa Senhora da Glória cuja imagem se venera na igreja paroquial de S. Sebastião da cidade de Lagos, no Algarve e bem assim os favores e graças que da mesma Senhora a tradição conta em benefício dos seus fiéis devotos por todo o reino e fora dele, mas particularmente na cidade de Lagos, onde se conserva viva a fé e devoção a esta mesma Senhora; o que fazemos para honra e glória de Deus e de Sua Santíssima Mãe, assunta ao Céu e nele glorificada acima de todos os coros angélicos.



Lisboa, 20 de Julho de 1903

José, Cardeal Patriarca”





ORAÇÃO



“Ó Nossa Senhora da Glória, a Vós, a quem os algarvios nunca invocaram em vão, venho hoje, com toda a confiança, implorar novas graças de Vossa inestimável clemência.



Conservai para sempre ao Vosso tão querido Portugal Vossa misericordiosa ternura e obtende para nós o perdão dos nossos pecados que Vos entregamos sinceramente. Dai-nos um amor generoso para com o Vosso Divino Filho e concedei a Vossa particular protecção a todos os corações que Vos invocarem em todos os dias das suas vidas e sobretudo quando aparecermos diante de Deus à hora da morte. Assim seja.



Aprovada com cem dias de indulgência a quem recitar esta oração acrescentando-lhe uma Avé, Maria pelas necessidades espirituais e temporais do reino de Portugal.



José, Cardeal Patriarca”





7ª Parte



Eu, professor Crisanto Correia, escrevi uma carta ao Senhor Bispo do Rio de Janeiro no dia 16 de Fevereiro de 1974 solicitando penhoradamente que me informasse em que ano fora feita a reprodução da imagem de Nossa Senhora da Glória e o nome exacto da igreja onde é venerada.

Passaram-se meses e, por mais estranha que pareça esta coincidência, o certo é que, no dia da vigília da festa de Nossa Senhora da Glória, dia 14 de Agosto, recebi o livro Uma imagem de Nossa Senhora da Glória, edição do Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 1942, acompanhado da seguinte carta datada de 6 de Agosto de 1974 em papel com o timbre da Arquidiocese de S. Sebastião, Rio de Janeiro:



“Prezado Crisanto



em resposta à sua carta ao Cardeal-Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Eugénio de Araújo Sales, solicitando alguma informação sobre Nossa Senhora da Glória, segue, anexo um opúsculo com os devidos informes.



Cordialmente em Cristo

Padre Dionel Amaral”



O livro contém a palestra realizada pelo Desembargador Edgard Costa, Vice-Provedor da Imperial Irmandade de Nossa Senhora da Glória do Outeiro, por ocasião da inauguração, no nicho exterior da igreja no dia 9 de Agosto de 1942, da cópia da imagem de Nossa Senhora da Glória, venerada na cidade de Lagos, Portugal.

Por ele ficámos a saber mais os seguintes pormenores:

Já em publicação feita em Lisboa no ano de 1718 (data bem próxima dos acontecimentos), ficara escrita a história desta imagem no volume sexto da obra preciosa e rara Santuário mariano e história das imagens milagrosas de Nossa Senhora e das milagrosamente aparecidas que se veneram no Arcebispado de Évora e nos Bispados do Algarve e Elvas, seus sufraganeos, da autoria de Frei Agostinho de Santa Maria, Vigário Geral da Congregação dos Agostinhos Descalços, novamente narrada com alguma alteração no tomo X e último desta obra, mas só surgido em 1723.

Em 1940, a Administração da Irmandade, em colaboração com o Serviço do Património Histórico e Artístico Nacional, “procedeu a obras de restauração da igreja à sua feição primitiva, surgindo a ideia de ser colocada no nicho exterior, que estava fechado e fora aberto, uma imagem de Nossa Senhora da Glória do Outeiro, contanto que se tratasse duma imagem antiga.”

O director daquele Serviço contactou com o director do Museu de Lagos, o nosso saudoso Dr. Formozinho, que levou a sugestão ao prior de S. Sebastião; o Provedor Thiers Fleming solicitou o auxílio do embaixador do Brasil em Portugal, Dr Araújo Jorge.

É porque a imagem autêntica seria impossível, a perfeitíssima réplica, por moldagem directa, foi executada pelo escultor João José Gomes, director da Escola Industrial de Silves. Em 9 de Julho de 1942, chegou ao Rio de Janeiro, a bordo do navio Bagé, anexada à bagagem do ministro Gastão Paranhos do Rio Branco, mas devido a mau acondicionamento, com ligeiras danificações, plenamente reparadas na Casa Sucena.

Finalmente, perante altas individualidades e muitos devotos, procedeu-se à inauguração e bênção da imagem, a 9 de Agosto de 1942, ficando esta no nicho-capela exterior dessa igreja onde, ao que parece, foi baptizada D. Maria da Glória (a nossa rainha D. Maria II), santuário luso-brasileiro onde reina a Salvé Nobre Padroeira que é Glória da nossa terra.”



mailto:www.eu.maria.figueiras@gmail.com

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